A pancreatite é um distúrbio inflamatório do pâncreas, sendo, em muitos países, uma das principais causas de internação hospitalar relacionada com o sistema gastrointestinal. Dentre seus diversos fatores desencadeantes, encontra-se os cálculos biliares, o excesso de álcool, e, ainda, fatores genéticos.
Divide-se em aguda e crônica, sendo esta última definida como um dano permanente, contribuindo para a falência de outros órgãos. A pancreatite aguda é classificada de acordo com seu grau de gravidade, e, segundo a classificação de Atlanta, atualizada em 2012, possui 3 subdivisões: suave, moderadamente grave e forte, as quais são brevemente explicadas na tabela abaixo (Tabela 1).
Tabela 1- Definição de gravidade na pancreatite aguda.
| Classificação Atlanta 1992 | Classificação revisada de Atlanta 2012 | |
| Suave | Sem falência de órgãos e sem complicações locais | Sem falência de órgãos e sem complicações locais ou sistêmicas |
| Moderadamente grave | .. | Insuficiência orgânica transitória (<48 h) e/ ou complicações locais ou sistêmicas sem insuficiência orgânica persistente (> 48 h) |
| Forte | Complicações locais e/ ou falência de órgãos: PaO 2 ≤ 60% ou creatinina ≥ 152 × 6 μmol/L ou choque (pressão arterial sistólica ≤ 60 mmHg) ou sangramento gastrointestinal (> 500 mL/24 h) | Insuficiência orgânica persistente (> 48 h):* falência de um único órgão ou falência de múltiplos órgãos |
| Crítico | .. | .. |
Associação do álcool e patogênese da pancreatite
A patogênese da pancreatite alcóolica ainda não está totalmente esclarecida, mas uma das hipóteses atuais defende que o etanol, por intermédio do estresse oxidativo e dos metabólitos tóxicos, atua diretamente nas células acinares pancreáticas, o que predispõe a glândula à lesão autodigestiva. A presença de fator desencadeante, como a endotoxina, seria responsável por iniciar a necroinflamação pancreática, e as células estreladas do pâncreas seriam ativadas por citocinas e liberadas durante este processo inflamatório, por efeitos desta endotoxina e do estresse oxidativo. Todo este processo, associado à secreção de altas taxas de proteínas da matriz extracelular, levaria ao desenvolvimento de fibrose pancreática (Figura 1).

Fonte: (APTE; PIROLA; WILSON, 2009).
Ao que se refere à função gastrointestinal, tem-se que o álcool é oxidado pela enzima ADH, presente no intestino, e possui um efeito tóxico, de maneira direta, no epitélio da mucosa, o que leva a uma perda do epitélio e a formações de lesões hemorrágicas no duodeno. O álcool, quando consumido pela via oral, pode aumentar a perfusão da mucosa e estimular a produção de secretina, mecanismos que, de forma indireta, podem afetar a microcirculação pancreática.
Em contrapartida, caso o etanol seja administrado por via intravenosa e/ ou via intragástrica, o fluxo sanguíneo pancreático também pode ser afetado. Esta última via de administração, em estudos in vivo, já teve como investigação a indução de estresse oxidativo e hipóxia pancreática, que, pela análise, aparentemente apresenta-se como secundária ao aumento de consumo de oxigênio pelo pâncreas ou à redução do suprimento sanguíneo local, isto sem alterações de parâmetros hemodinâmicos.
Risco genético para pancreatite crônica alcóolica
Um início precoce na infância, episódios repetidos de pancreatite aguda, progressão para fibrose e insuficiência pancreática, e alto risco de adenocarcinoma do pâncreas são características atribuídas à pancreatite hereditária. Considera-se essa uma doença não muito comum, com transmissão de traço autossômico dominante e penetrância acima de 70%.
Estima-se que seus critérios diagnósticos abordam a história familiar do paciente, em que, para diagnosticar, precisa de um histórico de pancreatite recorrente ou crônica em, no mínimo, dois parentes de primeiro grau ou, pelo menos, três de segundo grau em duas ou mais gerações. Em decorrência da extrema rigorosidade de tais critérios, há instituições que definem este subtipo de pancreatite como qualquer paciente sem causa detectável para a doença que tenha, no mínimo, um parente de primeiro ou segundo grau com pancreatite crônica.
Nesta perspectiva, em pacientes com pancreatite alcóolica, permanece a hipótese de que as mutações atuariam como cofatores que influenciam a suscetibilidade do indivíduo, predispondo-o a desenvolver a doença na presença do fator exógeno, o álcool. Outros genes que podem estar envolvidos na patogênese desta pancreatite incluem aqueles que codificam enzimas que atuam no metabolismo do etanol que, uma vez absorvido, é catalisado no fígado preliminarmente em acetaldeído e depois em acetato.
Conclusão
A patogênese da pancreatite alcóolica ainda permanece em pauta, sem explicações concretas a seu respeito, assim como de seu tratamento, que muito aborda a dor provocada, associando mecanismos terapêuticos, ainda em estudos, de controle do sistema nervoso central, medicamentos e abordagem cirúrgica ou endoscópica.
A incidência da pancreatite, em seus diferentes subtipos, mas especificamente a alcóolica, demonstra o que os fatores ambientais em excesso, como o álcool, podem provocar situações irreparáveis e extremamente dolorosas. O seu consumo exacerbado, associado ao fator hereditário, caso haja, agrega valor na ocorrência e gravidade da doença, já que ambos os mecanismos são condições de risco.
Sendo assim, o estudo em questão expõe uma análise no que se refere à pancreatite crônica de etiologia alcóolica, relacionando seus mecanismos genéticos, fisiopatológicos e bioquímicos. A bibliografia acerca do tema não é rica em detalhes e abordagens, o que evidencia, de forma conclusiva, a necessidade de mais pesquisas e investigações sobre a patogênese, o tratamento e a explanação da prevenção, pautada, principalmente, na redução de fatores de risco, como o alto índice de consumo alcóolico.
Autora: Débora de Sousa Rodrigues
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Referências:
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