O Pan-hipopituitarismo é uma patologia que tem como condição básica a deficiência na produção ou na ação de qualquer um dos hormônios da glândula adeno-hipófise. Quando isto ocorre em dois ou mais hormônios, é denominado pan-hipopituitarismo (PH).
A Glândula hipófise
A hipófise é uma glândula formada por vários tipos celulares, cujos produtos de secreção estimulam outras glândulas endócrinas periféricas a sintetizar e secretar hormônios envolvidos em funções diversas, como crescimento, desenvolvimento neuropsicomotor, maturação sexual, fertilidade, controle do gasto energético, regulação do metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas, manutenção do balanço hidroeletrolítico. A secreção hormonal hipofisária é regulada por hormônios hipotalâmicos e pelos hormônios produzidos pelas glândulas endócrinas periféricas.
A região anterior da hipófise, ou adeno-hipófise, de origem ectodérmica, produz o hormônio do crescimento (GH), as gonadotrofinas (LH e FSH), o hormônio estimulador da tireóide (TSH), o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e a prolactina (PRL). A região posterior, ou neuro-hipófise, de origem neural, produz o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina
A deficiência na produção ou na ação de qualquer um dos hormônios da adeno-hipófise é denominada hipopituitarismo. Quando ocorre deficiência de mais de um hormônio, denominamos pan-hipopituitarismo.

Fonte: https://anatomia-papel-e-caneta.com/glandula-hipofise-pituitaria/
Etiologia
O hipopituitarismo é uma doença pouco comum. Pode ser causado por inúmeros fatores, inclusive determinados distúrbios inflamatórios, um tumor da hipófise ou um suprimento insuficiente de sangue para a hipófise.

Fonte: https://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/hipopituitarismo-diagnostico.pdf
Quadro Clínico
Os sintomas do hipopituitarismo são variáveis e dependem de qual ou quais setores celulares foram acometidos, intensidade da deficiência hormonal, tempo desde o início desta afecção, e da idade do paciente. Uma história clínica detalhada, associada a exame clínico apropriado e a avaliação laboratorial e de imagem direcionadas, conduz ao diagnóstico e, provavelmente, à etiologia.
Causas agudas como apoplexia hipofisária e síndrome de Sheehan podem causar hipopituitarismo agudo, que, se não tratadas, têm um alto risco de mortalidade, geralmente secundária à perda de ACTH e subsequente hipoadrenalismo. Nesses casos, os pacientes apresentam cefaleia severa aguda, geralmente retro-orbital, devendo alertar para a possibilidade de danos agudos da hipófise pituitária aguda. O aumento da pressão na sela turca, na hipófise, como resultado de hemorragia, infarto, ou inflamação gera dor, também está associado com sinais neuro-oftalmológicos em até 70% dos pacientes. Além disso, outros sintomas inespecíficos, mas comuns, são náuseas, vômitos, hipotensão e hiponatremia causada por uma perda aguda de ACTH e hipocortisolismo subsequente.
O diabetes insipidus pode ocorrer principalmente em etiologias específicas como craniofaringioma, o diagnóstico deve ser suspeito se poliúria, urina diluída e polidipsia estão presentes. Hipocortisolismo pode mascarar diabetes insipidus, e, portanto, os sintomas de diabetes insipidus podem não se manifestar até se iniciar a substituição de cortisol.
O início do hipopituitarismo é geralmente insidioso e a apresentação clínica é inespecífica com atraso importante no diagnóstico. O padrão de sintomas e sinais dependem da ordem e da extensão da perda hormonal.
Sintomas específicos associados a deficiência hormonal:
Embora às vezes o início dos sintomas do hipopituitarismo ocorra de maneira súbita e drástica, o início geralmente ocorre de maneira gradativa e eles podem passar despercebidos por muito tempo. Os sintomas dependem de quais hormônios da hipófise estão deficientes. Em alguns casos, a produção da hipófise de um hormônio simples diminui ou a concentração de vários hormônios diminui ao mesmo tempo (pan-hipopituitarismo). – Deficiência do hormônio do crescimento (GH): Em crianças, a ausência do hormônio do crescimento costuma resultar em crescimento total insuficiente e uma estatura baixa. Em adultos, a deficiência de hormônio do crescimento não afeta a estatura, pois os ossos pararam de crescer. Normalmente, os adultos não apresentam sintomas, exceto eventual diminuição da energia. – Deficiência das gonadotrofinas (hormônio folículo-estimulante e hormônio luteinizante): No caso de mulheres na pré-menopausa, uma deficiência desses hormônios provoca a interrupção da menstruação (amenorreia), infertilidade, secura vaginal e a perda de algumas características sexuais femininas. Nos homens, as deficiências desses hormônios resultam em diminuição do tamanho (atrofia) dos testículos, diminuição da produção de esperma e consequente infertilidade, disfunção erétil e perda de algumas características sexuais masculinas. Em crianças, as deficiências desses hormônios resultam em atraso da puberdade. – Deficiência do hormônio estimulante da tireoide (FSH): A deficiência de hormônio estimulante da tireoide leva a uma hipoatividade da tireoide (hipotireoidismo), o que resulta em sintomas como confusão, intolerância ao frio, ganho de peso, constipação e pele seca. A maioria dos casos de hipotireoidismo, no entanto, é causada por um problema originado na própria tireoide, e não nos níveis baixos de hormônios hipofisários.
– Deficiência do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH): A deficiência do hormônio adrenocorticotrófico ( ACTH) dá origem à hipoatividade da glândula adrenal (doença de Addison), que resulta em fadiga, hipotensão arterial, níveis baixos de glicose no sangue e uma baixa tolerância ao estresse. Esta é a mais grave deficiência do hormônio hipofisário. – Deficiência de Prolactina: A deficiência de prolactina diminui ou suprime a capacidade de a mulher produzir leite após o parto. Uma das causas de uma baixa concentração de prolactina e de deficiência de outros hormônios hipofisários é a síndrome de Sheehan, uma complicação rara do parto. A síndrome de Sheehan frequentemente resulta de perda excessiva de sangue e de choque durante o parto, dando origem à destruição parcial da hipófise. Os sintomas incluem cansaço, perda de pelos púbicos e das axilas e a incapacidade de produzir leite. – Deficiencia do Hipotálamo: O hipotálamo é uma pequena região no cérebro que fica próxima à hipófise. Ele gera hormônios e impulsos nervosos que controlam a hipófise. Assim, os tumores que afetam o hipotálamo podem causar deficiências dos hormônios hipofisários. Eles também podem afetar os centros que controlam o apetite, resultando em obesidade.

Fonte: https://anatomia-papel-e-caneta.com/glandula-hipofise-pituitaria/
Diagnóstico
O diagnóstico do pan-hipopituitarismo somatiza uma boa história clínica e exame físico associado a exames laboratoriais e de imagem, quando necessário.
Assim, geralmente, a avaliação tem início com a dosagem de hormônios produzidos pela hipófise (normalmente, o hormônio estimulante da tireoide, a prolactina, o hormônio luteinizante e o hormônio folículo-estimulante) no sangue e, ao mesmo tempo, a dosagem do hormônio produzido pelos órgãos-alvo (normalmente, o hormônio tireoidiano, a testosterona em homens e o estrogênio em mulheres).
– T4 livre sérico: Pode apresentar-se baixo ou no limite inferior da normalidade (principalmente quando existem outras deficiências hormonais associadas).
– TSH: Pode estar normal, baixo ou mesmo discretamente elevado.
– Teste de estímulo com TRH para liberação de TSH: Pouco contribui para a elucidação diagnóstica, pois sua resposta é muito variável. Não deve ser realizado.
– Pesquisa de e hipocortisolismo secundário à insuficiência de ACTH: Cortisol sérico pela manhã (geralmente às 8h)
• Quando < 4 µg/dl, praticamente confirma a deficiência de glicocorticóide;
• Quando >17 µg/dl, praticamente descarta esta possibilidade;
• Valores entre 4 e 17 µg/dl requerem teste de estímulo para avaliar a integridade do setor corticotrófico35(B). Testes de estímulo do ACTH • Teste Tolerância à Insulina (ITT) O teste do ITT (metodologia semelhante ao teste para liberação de GH) tem por objetivo provocar um estresse (hipoglicemia) e observar se ocorre elevação do cortisol sérico. O nível da glicemia sérica para validar o teste deve ser menor que 40 mg/dl. A integridade do eixo é confirmada quando o cortisol sérico ultrapassa a concentração de 18 µg/dl, descartando a insuficiência adrenal.
– Teste da Cortrosina: O teste da cortrosina com baixa (1 µg) ou alta (250 µg) dose é indicado quando existe contraindicação ao ITT (cardiopatia, epilepsia, alteração nível de consciência). O padrão de resposta esperado é semelhante ao do ITT, com pico de resposta do cortisol aos 30 minutos após infusão endovenosa.
– Exames de Imagem: Após o exame de sangue determinar a existência de hipopituitarismo, a hipófise é frequentemente avaliada por meio de tomografia computadorizada (TC) ou por imagem por ressonância magnética (RM) para identificar a presença de anomalias estruturais. A TC ou a RM ajudam a revelar áreas individuais (localizadas) de crescimento de tecido anormal e o aumento ou redução do tamanho da hipófise. Os vasos sanguíneos que suprem a hipófise podem ser examinados com angiografia cerebral.

Fonte: https://blog.paulatostes.com.br/como-se-preparar-para-o-exame-de-sangue/
Tratamento
O tratamento do pan-hipopituitarismo envolve:
– Tratamento da causa: Quando a causa da deficiência de hormônios hipofisários for um tumor, a remoção cirúrgica de um tumor frequentemente é o primeiro tratamento mais adequado, outra possibilidade é a irradiação da hipófise por hipertensão ou por feixe de prótons para destruir os tumores maiores. – Reposição de hormônios deficiente: O tratamento também se concentra na reposição de hormônios deficientes, normalmente não pela reposição de hormônios da hipófise, mas pela substituição de seus hormônios-alvo.
Dessa forma, o tratamento é direcionado à causa da hipoatividade da hipófise (quando possível) e à reposição de hormônios deficientes.
Autor: Julia Cantu
Instagram: @jucantu_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
“SÍNDROME METABÓLICA EM PACIENTES COM PAN-HIPOPITUITARISMO: CARACTERIZAÇÃO CLÍNICO-LABORATORIAL” http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/308785/1/RosellCastillo_Alejandro_M.pdf
Hipopituitarismo- https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-hormonais-e-metab%C3%B3licos/dist%C3%BArbios-da-hip%C3%B3fise/hipopituitarismo
Hipopituitarismo: Diagnóstico-https://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/hipopituitarismo-diagnostico.pdf
NETTER: Frank H. Netter Atlas De Anatomia Humana. 5 ed. Rio de Janeiro, Elsevier, 2011.
MOORE: Keith L. Anatomia orientada para a clínica. 7 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.