O SARS-CoV-2 tem variados sintomas, sua apresentação grave é a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), sendo uma das principais causas de morte no Brasil em 2020, devido à disseminação da COVID-19, essa resposta respiratória associada ao COVID-19 geralmente se encontra nos critérios para síndrome moderada ou grave(1). Esse acometimento respiratório agudo apresenta várias apresentações clínicas que variam desde dificuldade respiratória leve até sintomas de pneumonia multifocal e síndrome do desconforto respiratório agudo, essas condições podem exigir semanas de ventilação mecânica(2).
A incidência de SDRA de desenvolvimento rápido é relatada entre 17 e 67%, sendo que 20-32% possuem doença crítica necessitando de internação na unidade de terapia intensiva (UTI). A taxa de alta da UTI varia entre 27 e 38% e esses possuem um tempo médio de internação entre 14-17 dias(3).
A Hipoxemia
A hipóxia está entre as principais causas de mortalidade na COVID-19 grave e acompanha todos os estágios da doença, com comum evolução para SDRA. Os critérios diagnósticos para SDRA incluem lesão pulmonar aguda, insuficiência respiratória não cardiogênica, diminuição da proporção PaO2/FiO2(4).
A hipóxia tem potencial de desencadear um ciclo vicioso de eventos, como desregulação mitocondrial, acidose, permeabilidade da membrana mitocondrial alterada e, eventualmente, insuficiência da biossíntese de ATP, no entanto, certos tipos / graus moderados de hipóxia podem induzir um fenômeno adaptativo chamado “condicionamento hipóxico”. Essa reação adaptativa à falta de oxigênio da célula parece ocorrer por meio da ativação moderada do fator 1 induzível por hipóxia (HIF-1 Ⲁ) que em fases graves está entre os responsáveis pela ativação de citocinas pró-inflamatórias, no processo de inflamação e fase de tempestade de citocinas na COVID-19(4).
Hipoxemia silenciosa
Muitos pacientes podem apresentar hipoxemia arterial profunda sem sinais proporcionais de dificuldade respiratória, às vezes até mesmo sem queixa alguma de dispneia. Esse acontecimento foi chamado de hipoxemia silenciosa. A importância disso está relacionada com o fato de a hipoxemia estar relacionada com a gravidade dos pacientes com COVID-19 e a mortalidade intra-hospitalar(5).
Clínica
Anormalidades nas trocas gasosas de pacientes com covid ocorrem antes do que aumentos nas cargas mecânicas. O esforço respiratório permanece baixo principalmente devido à complacência pulmonar, já que muitos pacientes não apresentam doença pulmonar preexistente. Como não há aumento da resistência das vias aéreas nos primeiros dias, também não há aumento da ventilação anatômica e fisiológica. No entanto, pode ocorrer descompensação respiratória súbita e rápida. Dessa forma, muitas vezes quando o paciente é admitido no hospital com queixas respiratórias ou saturação diminuída, a carga viral e a replicação viral estão bem encaminhadas(6).
Fisiopatologia
A troca gasosa é determinada pelo equilíbrio entre a ventilação pulmonar e o fluxo sanguíneo capilar (ventilação/perfusão). Na fisiopatologia inicial do coronavírus, existem mecanismos que podem levar a hipoxemia arterial sem aumento concomitante no trabalho respiratório, como: o shunt intrapulmonar (a infecção leva a formação de edema intersticial, o aumento desse edema pulmonar pode levar às opacidades – o vidro fosco visto no raio-x e na tomografia de tórax dos pacientes com covid – a falta de aeração do tecido pulmonar, leva ao shunt), microtrombos intravasculares e perda da regulação da perfusão pulmonar que podem levar a rápida deterioração clínica(6).
A saturação de O2 também deve ser interpretada com cautela na COVID-19, pois esta pode permanecer aumentada com uma PaO2 bastante reduzida, devido a alterações na curva de dissociação da oxihemoglobina, devido a queda da PaCo2 por causa da taquipneia e hiperpneia induzidas pela hipoxemia(6).
Sequelas radiológicas e funcionais
Em estudo observacional prospectivo foram avaliados pacientes que foram hospitalizados, foram avaliados durante a hospitalização e após, no acompanhamento. Dessa forma, foi observada redução aguda de leve a grave na capacidade de difusão ao monóxido de carbono (DLco), indicando alterações na membrana alvéolo-capilar que podem persistir até 6 semanas após alta. Não foi possível neste estudo perceber qual dinâmica segue os padrões radiográficos e funcionais(7).
Conclusões
A síndrome do desconforto respiratório agudo como consequência da COVID-19 tem sido alvo de vários estudos, devido à sua gravidade e peculiaridades. Visto a importância da hipoxemia na fisiopatologia da doença, é crucial que pacientes diagnosticadas estejam atentas ao aparecimento de sintomas mesmo que mínimos, já que a SDRA pode ter uma evolução súbita e rápida e tem sido responsável pelos altos índices de mortalidade pelo coronavírus.
A COVID-19 é uma doença com variados sintomas e sequelas ainda desconhecidas, em vista disso, estamos em um período em que estudos e ensaios científicos são muito importantes para auxiliar no tratamento, prevenção e reabilitação de pacientes após infecção por COVID-19.
Nome: Ana Luiza Antony
Instagram: @analuizantony
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