A otorreia consiste na eliminação de secreção pelo conduto auditivo externo, independentemente da sua origem anatômica. Embora muitos pacientes a descrevam apenas como “ouvido saindo líquido”, deve-se interpretar esse achado como um sinal clínico com múltiplas possibilidades etiológicas, que variam desde processos inflamatórios autolimitados até doenças crônicas estruturais do ouvido médio.
Inicialmente, convém reforçar que a secreção pode ter origem no ouvido externo, no ouvido médio ou, raramente, na cavidade intracraniana. Assim, a caracterização do tipo de fluido: purulento, seroso, mucoso, sanguinolento ou aquoso claro, orienta o raciocínio clínico.
Fisiopatologia e classificação clínica da otorreia
Do ponto de vista fisiopatológico, a otorreia resulta da produção aumentada de secreção inflamatória ou da drenagem de conteúdo do ouvido médio para o conduto auditivo externo. Em crianças, sobretudo, o ouvido médio representa uma fonte frequente de secreção, especialmente quando há perfuração timpânica ou presença de tubo de ventilação.
De maneira prática, podemos classificar a otorreia em:
- Otorreia aguda
- Otorreia crônica
- Otorreia associada a tubo de ventilação (tympanostomy tube otorrhea – TTO)
Cada categoria exige abordagem específica. Consequentemente, organiza-se o raciocínio clínico com base nessa divisão, pois ela impacta diretamente o tratamento.
Causas mais comuns
Otite externa
A otite externa configura uma das causas mais frequentes de otorreia, principalmente em adultos e adolescentes. Nesse contexto, o processo inflamatório compromete o epitélio do conduto auditivo externo. Geralmente, bactérias como Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus lideram os agentes etiológicos.
Clinicamente, o paciente relata dor intensa, que piora com mobilização do pavilhão auricular ou compressão do trago. Além disso, o exame físico revela edema do conduto, hiperemia e secreção purulenta. Frequentemente, o prurido antecede a dor, sobretudo em quadros com componente fúngico.
Por outro lado, fatores predisponentes incluem manipulação local com cotonetes, uso de dispositivos intra-auriculares e exposição prolongada à umidade. Assim, além do tratamento medicamentoso, deve-se orientar medidas comportamentais para reduzir recorrências.
Na imagem abaixo observa-se uma imagem otoscópica mostrando o canal auditivo de um paciente com otite externa aguda moderada. O canal auditivo apresenta-se eritematoso e edemaciado, com secreção abundante:

Otite média aguda com perfuração timpânica
A otite média aguda (OMA) constitui causa relevante de otorreia, especialmente na população pediátrica. Inicialmente, a infecção provoca acúmulo de secreção purulenta na cavidade timpânica. Entretanto, quando a pressão intratimpânica aumenta significativamente, ocorre ruptura da membrana timpânica. Como resultado, a secreção drena para o conduto auditivo externo.
Curiosamente, muitos pacientes relatam alívio súbito da dor após o início da otorreia, pois a drenagem reduz a pressão local. Ainda assim, deve-se reconhecer que a perfuração não elimina a necessidade de tratamento adequado.
Além disso, a identificação da integridade timpânica por otoscopia orienta a escolha terapêutica. Portanto, a avaliação cuidadosa da membrana timpânica torna-se etapa fundamental da consulta.
Na imagem abaixo observa-se perfuração aguda da membrana timpânica com otorreia:

Otite média crônica supurativa
Quando a perfuração timpânica persiste por período prolongado e a drenagem mantém-se por semanas ou meses, o quadro passa a configurar otite média crônica supurativa (OMCS). Nessa situação, o paciente frequentemente apresenta secreção intermitente ou contínua, geralmente sem dor intensa.
Entretanto, apesar da menor intensidade dolorosa, o risco de complicações aumenta. A inflamação crônica pode comprometer a cadeia ossicular e, consequentemente, provocar perda auditiva condutiva progressiva. Além disso, a persistência de infecção favorece o desenvolvimento de colesteatoma.
Assim, deve-se investigar cuidadosamente a duração do quadro e avaliar o impacto auditivo por meio de audiometria, sobretudo em casos recorrentes.
Colesteatoma
O colesteatoma representa condição mais complexa, pois envolve proliferação anormal de epitélio escamoso queratinizado no ouvido médio. Diferentemente de um simples processo infeccioso, essa patologia produz destruição óssea progressiva.
Clinicamente, o paciente apresenta otorreia crônica, frequentemente fétida, associada a hipoacusia. Em contrapartida, a dor pode não se manifestar de forma intensa. Contudo, o risco de complicações intracranianas ou mastoidite exige atenção redobrada.
Além disso, suspeita-se de colesteatoma diante de otorreia persistente que não responde ao tratamento convencional. Nesses casos, a tomografia de ossos temporais auxilia na avaliação da extensão da doença.
Na imagem abaixo observa-se colesteatoma congênito do quadrante anterossuperior (orelha direita):

Otorreia associada a tubo de ventilação (TTO)
A colocação de tubo de ventilação timpânico constitui procedimento comum em crianças com otite média recorrente ou com efusão persistente. Entretanto, após a inserção do tubo, pode surgir episódio de otorreia, condição conhecida como tympanostomy tube otorrhea (TTO).
Essa otorreia pode ocorrer precocemente, logo após a cirurgia, especialmente quando já existe infecção ativa no momento da inserção. Por outro lado, também pode surgir tardiamente, associada a infecções respiratórias virais ou colonização bacteriana ascendente pelo tubo.
Além disso, a presença do tubo facilita a drenagem direta da secreção do ouvido médio para o conduto auditivo externo. Consequentemente, embora o episódio cause preocupação nos pais, muitas vezes o quadro não implica complicação grave.
Trauma e fístula liquórica
Traumatismos cranianos podem gerar perfuração timpânica ou fratura da base do crânio. Nesses casos, a otorreia pode conter sangue ou líquor. Portanto, diante de secreção clara associada a trauma, considera-se a possibilidade de fístula liquórica.
Além disso, sinais neurológicos associados reforçam a necessidade de investigação imediata. Assim, a abordagem deve incluir avaliação neurocirúrgica e exames de imagem apropriados.
Avaliação clínica da otorreia
Primeiramente, deve-se colher história detalhada, investigando início dos sintomas, características da secreção, dor associada, febre, exposição aquática e antecedentes de cirurgia otológica. Além disso, deve questionar episódios prévios semelhantes.
Em seguida, a otoscopia assume papel central. O profissional deve inspecionar o conduto auditivo externo, remover cuidadosamente secreções quando necessário e avaliar a membrana timpânica. Ao mesmo tempo, deve observar sinais de edema, granulação ou retração timpânica.
Quando o quadro persiste ou quando surgem dúvidas diagnósticas, exames complementares ajudam na elucidação. Por exemplo, audiometria avalia repercussão funcional, enquanto tomografia identifica erosões ósseas ou extensão de colesteatoma.
Assim, a integração entre anamnese, exame físico e exames complementares conduz a diagnóstico preciso.
Tratamento
O tratamento depende diretamente da etiologia. Portanto, deve-se evitar condutas empíricas prolongadas sem diagnóstico definido.
Otite externa
O manejo inclui limpeza cuidadosa do conduto e uso de gotas otológicas com antibiótico tópico, frequentemente associado a corticosteroide. Além disso, o controle da dor com analgésicos sistêmicos melhora o conforto do paciente.
Entretanto, orienta-se suspensão temporária de atividades aquáticas e evitar manipulação do ouvido. Dessa forma, reduz-se o risco de recorrência.
Otite média aguda com perfuração
Nos casos de OMA com perfuração, o tratamento envolve antibiótico sistêmico conforme faixa etária e perfil epidemiológico. Além disso, deve-se manter o conduto limpo e proteger o ouvido contra entrada de água.
Na maioria das situações, a membrana timpânica cicatriza espontaneamente. Contudo, se a perfuração persistir por período prolongado, o especialista deve avaliar indicação cirúrgica.
Otite média crônica
Na OMCS, prioriza-se o controle da infecção com antibiótico tópico direcionado. Entretanto, quando o quadro persiste ou quando surge suspeita de colesteatoma, a abordagem cirúrgica torna-se necessária.
Além disso, a timpanoplastia pode restaurar a integridade timpânica e melhorar a audição. Assim, o tratamento não se limita apenas ao controle infeccioso, mas também à reabilitação funcional.
Referências bibliográficas
- UPTODATE. Otorrhea (ear discharge) in children: causes and evaluation. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/otorrhea-ear-discharge-in-children-causes-and-evaluation. Acesso em: 18 fev. 2026.
- UPTODATE. Tympanostomy tube otorrhea in children: causes, prevention, and management. Waltham, MA: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/tympanostomy-tube-otorrhea-in-children-causes-prevention-and-management. Acesso em: 18 fev. 2026.