O fator reumatoide (FR) é um anticorpo direcionado contra a porção Fc do anticorpo IgG, ou seja, é um autoanticorpo. Esse autoanticorpo é amplamente utilizado na clínica para o diagnóstico de artrite reumatoide (AR) como mostra a tabela dos critérios de ACR-EULAR 2010.

Fonte: Revista Brasileira de Reumatologia.
Esse algoritmo desenvolvido tem como objetivo discriminar os pacientes com um quadro inicial de artrite em portadores, ou não, da artrite reumatoide. No entanto, o fator reumatoide pode ser encontrado em diversas outras doenças além da AR, como:

Fonte: Do Sintoma ao Diagnóstico.
Paralelo a isso, é importante lembrar a importância da análise do valor diagnóstico de cada teste aplicado na nossa prática clínica. Necessariamente, eles devem aumentar ou abaixar significativamente a probabilidade pré-teste da doença a qual estamos investigando. Em um estudo de acurácia diagnóstica publicado na Annals of the Rheumatic Diseases (BMJ Group) em 2018, avaliou a sensibilidade e especificidade tanto do FR quanto do Anticorpo Antipeptídeo Cíclico (AAPC), teste também envolvido no algoritmo diagnóstico da AR.
A sensibilidade do fator reumatoide encontrada nos diversos testes estudados variou de 22,9% a 60% e a especificidade variou de 71,6% a 99,6%. Com essas informações, foram calculadas as razões de probabilidade de cada teste de FR. A RP(+) variou de 2,1 a 66.8, já a RP(-) variou de 0,6 a 0,8. Mas, então, o que importa desses números?
Na teoria do raciocínio clínico baseado em evidências, a razão de probabilidade positiva deve ser maior que 10 para o teste aumentar significativamente a probabilidade de doença. Em contrapartida, a razão de probabilidade negativa deve ser idealmente menor que 0.1 para reduzir a probabilidade de doença. O que isso quer dizer com relação ao FR? O resultado sendo positivo, pode agregar bastante a probabilidade pré-teste do portador da artrite ter, de fato, AR. Porém, o resultado sendo negativo, não agrega tanto assim no raciocínio diagnóstico, pois o teste não consegue alterar significativamente a probabilidade pré-teste do paciente.
Em comparação, a sensibilidade do Anticorpo Antipeptídeo Cíclico encontrada nos diversos testes estudados variou de 27,1% a 41,1% e a especificidade variou de 97,1% a 99,5%. Após os cálculos necessários, a RP(+) variou de 12,8 a 62,9 e a RP(-) variou de 0,6 a 0,7. Isso significa que o resultado, sendo positivo, agrega muito a probabilidade pré-teste do portador de artrite ter, de fato, AR. Porém, assim como o FR, o resultado sendo negativo não consegue, com tanta segurança, afastar a possibilidade do paciente ter a AR.
Conclusão
Por fim, é preciso levar em consideração que a escolha do teste diagnóstico deve levar em conta estes e outros fatores como, por exemplo, custo do teste. Nesse ponto, o FR é mais vantajoso do que o AAPC. Por isso, em que pese a acurácia do teste tanto da RP(+) quanto a RP(-), o critério de classificação da Artrite Reumatoide desenvolvido pelo Colégio Americano de Reumatologia (ACR) e a Liga Europeia Contra o Reumatismo (EULAR), ACR-EULAR 2010, leva os dois testes em consideração cabendo ao médico saber identificar a importância e aplicação de cada um deles para apoiar correta prática clínica.
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Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
- Blog Medicina Baseada em Evidências – Medicina Baseada em Evidências (medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com)
- Luiz P J, Carlos L A [Poliartrite]. Do Sintoma ao Diagnóstico – Baseado em Casos Clínicos. 2012; [Volume único (1ª Edição)]; [289-294]. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/978-85-412-0424-8/ [2021 Mar 20].
- Europ L. Critério de classificação da artrite reumatoide ACR-EULAR 2010. Rev Bras Reumatol. 2010;50(5):481–3.
- Van Hoovels L, Jacobs J, Vander Cruyssen B, Van Den Bremt S, Verschueren P, Bossuyt X. Performance characteristics of rheumatoid factor and anti-cyclic citrullinated peptide antibody assays may impact ACR/EULAR classification of rheumatoid arthritis. Ann Rheum Dis. 2018;77(5):667–77.