A nutrição exerce um papel indispensável na manutenção do adequado funcionamento do sistema humano de defesa. Nesse sentido, nutrientes como os carboidratos promovem a função de memória das células T, os micronutrientes (vitaminas e sais minerais) auxiliam o corpo a combater infecções, os ácidos graxos (como o linoleico e o palmítico) são ótimos reguladores imunológico.
Em adição, as proteínas são essenciais para a própria constituição dos elementos da resposta imune. As evidências sugerem, inclusive, que uma dieta nutricionalmente equilibrada pode otimizar as funções imunológicas e, desse modo, fortalecer as defesas do corpo. Logo, dentro de uma visão ampliada de saúde, é indispensável que você, na sua prática médica, oriente seus pacientes acerca dessa relação benéfica entre o sistema imune e a nutrição.
1. Composição do sistema imunológico e a demanda energética
O sistema imunológico humano é formado por diversos constituintes nas suas duas principais linhas de atuação (defesas inata e adaptativa), como interleucinas, citocinas, anticorpos, linfócitos, monócitos, macrófagos, células NK, barreiras epiteliais e mucosas, dentre outros componentes moleculares, celulares e teciduais. Todo esse arcabouço de defesa trabalha de forma integrada e sinérgica para conter as ameaças às quais os indivíduos estão constantemente expostos. Diante de situações adversas (como infecção ou estresse, por exemplo), tem-se o aumento da demanda de energia para suprir o maior recrutamento do sistema de defesa (Gombart et al, 2020). A forma como o organismo obtém essa energia adicional, necessária para suprir a maior demanda energética advinda do sistema de defesa, é a partir da alimentação, em especial, de carboidratos (Mazzocchi et al, 2019).
2. Carboidratos e o sistema imune
Em relação ao consumo de carboidratos – fontes primárias de energia para o organismo- estudos demonstram que o status nutricional interfere diretamente no metabolismo das células do sistema imune. A ativação de células TCD4+ dependem de um acréscimo na captação de glicose, enquanto as células T reguladoras e células T de memória independem desse aumento de glicose, utilizando a oxidação de lipídeos preferencialmente. Entretanto, a glicólise é essencial para que as células T reguladoras migrem para os sítios de inflamação. Vale ainda destacar que o hormônio leptina promove o importante metabolismo glicolítico nas células T, e estados de desnutrição ou de jejum constante reduzem a produção da leptina. Em decorrência disso, uma queda acentuada na glicose circulante leva as células TCD4+ a produzirem menos citocinas e IL-2 (Alwarawrah et al, 2019; Estrada et al, 2019).
As evidências também demonstram que alimentos ricos em carboidratos complexos (como cereais, grãos, frutas e vegetais) são a base de uma dieta saudável e seu consumo pode influenciar tanto na quantidade de biomarcadores inflamatórios circulantes quanto na população de células do sistema imune. O consumo de frutas do tipo baga (tais como laranja, uva, toranja, romã, mirtilo e morango) e de verduras pode reduzir a concentração de proteína C reativa, do TNF-alfa e de IL-2 e IL-6 (presentes em processos inflamatórios). Além disso, a ingestão regular de verduras e frutas está correlacionada com o aumento do número de linfócitos TCD4+ (Hosseini et al, 2018).
3. Efeitos negativos da má alimentação e a infecção por Covid-19
Uma dieta deficitária pode trazer diversos malefícios aos indivíduos, incluindo efeitos danosos para o metabolismo celular e para o sistema de defesa do organismo. Como exemplos da influência da alimentação na modulação da resposta imune, a carência de vitamina A e de zinco, o sobrepeso e a obesidade têm sido associados ao maior risco individual de desenvolvimento de infecções virais. Acredita-se, inclusive, que a dieta ocidental moderna (pós-Revolução Industrial) – rica em carne vermelha, alimentos ultraprocessados, sódio, açúcares e gorduras- pode colaborar para o surgimento de doenças autoimunes devido ao estímulo à inflamação (Zabetakis, 2020).
A influência entre a dieta e a resposta imune é, inclusive, alvo de diversos estudos recentes -sobretudo no cenário pandêmico da COVID-19-, visto que há uma correlação entre a ingestão e absorção de nutrientes e a função eficiente do sistema imune. Nesse sentido, a subnutrição é considerada uma das causas de imunodeficiência devido à pouca concentração de nutrientes disponíveis para que o corpo produza o maquinário relativo às defesas do organismo. Por outro lado, uma dieta hipercalórica também pode causar uma desregulação da resposta imune, demonstrando-se, portanto, que não apenas a quantidade, mas também a qualidade do que é consumido, interfere para o bom funcionamento imunológico (Naja et al, 2020).
4. Dieta, disbiose o sistema imune
É importante também destacar que a dieta é um fator externo preponderante para a formação e manutenção da microbiota intestinal (que apresenta enorme impacto tanto no desenvolvimento quanto na diferenciação de células do sistema imune). O rico microbioma do sistema digestório, sobretudo a população de bactérias do gênero lactobacilos na mucosa intestinal, estimula as respostas imune específica e inespecífica, agindo como uma barreira protetora contra a proliferação de patógenos. Adicionalmente, esses microrganismos previnem infecções, modulam a migração dos neutrófilos e afetam a diferenciação de células T em diferentes tipos de T-helpers.
Tendo em vista esse papel essencial da microbiota intestinal, o desequilíbrio dessa flora, conhecido como disbiose, pode trazer prejuízos aos inúmeros mecanismos de defesa da mucosa do trato digestório. Uma dieta rica em polissacarídeos refinados (açúcares altamente processados), à semelhança do padrão ocidental alimentar (rico em fast-foods e alimentos industrializados) pode levar a perda da diversidade da microbiota e à disbiose. Entretanto, uma alimentação rica em carboidratos saudáveis (como as fibras vegetais, cereais e grãos integrais) favorece a proliferação de bactérias benéficas (bifidobactérias e lactobacilos), o que corrobora as evidências do papel modulador da dieta em relação ao microbioma intestinal (Boyko et al, 2018).
5. Considerações finais
Podemos englobar a influência do estado alimentar dos indivíduos e o sistema imune dentro da visão de saúde ampliada. Como visto, diversos estudos demonstram a influência benéfica de um adequado suporte nutricional para o sistema imunológico. Por conseguinte, os ganhos na função imunológica decorrentes de uma alimentação equilibrada vão desde a prevenção de infecções, câncer e doenças autoimunes até a maior eficiência da resposta imune. Diante disso, lembre-se de orientar seus pacientes sobre a relação entre o sistema imune e a nutrição, a fim de promover uma abordagem ampliada de cuidados e de prevenção contra os agravos à saúde.
Referências
Gombart AF, Pierre A, Maggini S. A review of micronutrients and the immune system–working in harmony to reduce the risk of infection. Nutrients. 2020;12(1).
Mazzocchi A, Leone L, Agostoni C, Pali-Schöll I. The Secrets of the Mediterranean Diet. Does [Only] Olive Oil Matter? Nutrients [Internet]. 2019;11(12):2941.
Alwarawrah Y, Kiernan K, MacIver NJ. Changes in nutritional status impact immune cell metabolism and function. Front Immunol. 2018;9(May):1–14.
Estrada JA, Contreras I. Nutritional Modulation of Immune and Central Nervous System Homeostasis: The Role of Diet in Development of Neuroinflammation and Neurological Disease. Nutrients [Internet]. 2019;11(1076).
Hosseini B, Berthon BS, Saedisomeolia A, Starkey MR, Collison A, Wark PAB, et al. Effects of fruit and vegetable consumption on inflammatory biomarkers and immune cell populations: A systematic literature review and meta-analysis. Am J Clin Nutr. 2018;108(1):136–55.
Zabetakis I, Lordan R, Norton C, Tsoupras A. Covid-19: The inflammation link and the role of nutrition in potential mitigation. Nutrients. 2020;12(5):1–28.
Naja F, Hamadeh R. Nutrition amid the COVID-19 pandemic: a multi-level framework for action. Eur J Clin Nutr [Internet]. 2020;74(8):1117–21.
Boyko N V, Nicoletti C, Lu P, Chifiriuc MC, Lazar V, Ditu L-M, et al. Aspects of Gut Microbiota and immune System interactions in infectious Diseases, immunopathology, and Cancer. Front Immunol [Internet]. 2018;9:1–18
Luciana Ferreira Xavier
Graduanda em Medicina (Universidade Federal do Ceará)
Instagram: @lucianafx.med
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.