O elemento
central dos princípios éticos da medicina é a relação médico-paciente. Como o nome já explicita, é uma relação em que
consensualmente o paciente busca o médico e o médico aceita conscientemente a
pessoa como paciente. No entanto, esse binômio médico-paciente não vem pronto, precisa
ser construído.
Infelizmente,
a postura de alguns pacientes e de alguns médicos interfere na construção desse
relacionamento. Por um lado, a vulnerabilidade dos pacientes e a onipotência de
alguns médicos levam a uma relação de diferença de poder, por outro, alguns pacientes
veem a saúde/doença como um “produto” que os médicos são o meio para
conseguir.
Uma relação médico-paciente saudável depende de uma comunicação efetiva, transparência, compromisso com a verdade, empatia, confiança, além de respeito à autonomia do paciente e dos limites profissionais do médico.

O novo código de ética médica (CEM), publicado 2019, no capítulo V, reitera todas as premissas
citadas acima. Como é a tua relação com os teus pacientes? Usa todos os
recursos disponíveis no atendimento, respeita o pudor do paciente, não omite
atendimento em situações de urgência, é verdadeiro e transparente, permite que
ele busque opiniões de outros médicos, se assim desejar?
Se você disse
SIM para todos esses itens e ainda o teu paciente pode opinar, optar e decidir
seguir ou não as tuas condutas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em situações
de iminente risco de morte, então, parabéns, você está seguindo os princípios
éticos do CEM.
Além disso, saiba que tens o direito,
respaldado pelo CEM, de renunciar o atendimento de pacientes em determinadas
situações (exceto situações urgência/emergência), pois não é obrigado a
atendê-lo a “vida inteira”, se a relação não estiver boa.
Sentimentos ou percepção de fragilidade na relação médico-paciente e ausência de
satisfação mútua podem influenciar
nos desfechos do paciente e na tua
saúde mental. Nesses casos, comunique
o paciente, com antecedência, que não seguirá mais o acompanhando,
assegure a continuidade dos cuidados e
forneça todas as informações necessárias
do paciente ao médico que te sucederá.
Na maioria das
vezes, a relação com nossos pacientes pode ser extremamente construtiva,
gratificante e cheia de significado. Contudo, em outros momentos, há muito sofrimento
na vida deles e incapacidade de lidar com a doença, podendo levá-los a nos
pedirem para abreviar a sua vida. Esse pedido é vedado ao médico.
Se o teu
paciente for diagnosticado com uma
doença crônica ou incurável, salvo por motivo justo, você não o abandonará!
Ofereça “todos os cuidados paliativos disponíveis
sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas,
levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua
impossibilidade, a de seu representante legal“. Logo, nessas condições
você não abreviará, mas também não prolongará o sofrimento, respeitando a
autonomia do paciente.
Outro ponto
importante da ética médica são aqueles pedidos de receita que os teus
familiares, amigos ou vizinho pedem para outro alguém (mãe, filho, sogra, etc.).
Lembre-se que você não pode prescrever um paciente sem exame direto, salvo em
casos de urgência ou emergência e impossibilidade comprovada de realizá-lo.
Ainda, o atendimento remoto por telemedicina é considerado um tema polêmico no Conselho Federal de Medicina
e nós médicos precisamos aguardar novas resoluções.
Para finalizar, espera-se que consigamos seguir os princípios éticos, pois a relação médico-paciente é uma parte poderosa do cuidado em saúde. Reconhecer os desafios, limitações e falhas dessa relação gera a oportunidade de correção, de melhores desfechos dos pacientes e transcende a nossa satisfação profissional.