As verminoses intestinais fizeram parte da vida da maioria das pessoas até pouco tempo atrás, sobretudo para a população rural. Era quase regra as crianças desenvolverem ascaridíase pelo menos uma vez na vida. Esse tipo de doença é rodeada de mitos e superstições, tanto que até na literatura brasileira elas são presentes, a exemplo do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, que tinha ancilostomose. A frequência tão alta dessas doenças veio da falta de saneamento e higiene em que viviam essas populações, porém, ainda hoje mesmo com a melhora das condições de vida, estima-se que ¼ da população mundial possua alguma verminose.
Atualmente a imunologia estuda muito sobre modulação da microbiota intestinal e transplante fecal, tamanha a importância da qualidade das fezes na nossa saúde. As evidências mostram que esses tratamentos podem mudar o rumo de inúmeras doenças gastrintestinais e autoimunes graves, como Crohn e retocolite ulcerativa.
Para
analisar as fezes, existem diversos tipos de exames e técnicas, cada uma com sua
finalidade dentro da investigação diagnóstica do paciente. Por exemplo: ao
solicitar uma pesquisa de sangue oculto nas fezes, o médico está guiando seu
raciocínio clínico para um provável sangramento gastrintestinal não visto a
olho nu. Por outro lado, quando solicitado uma coprocultura, o médico aponta
seu raciocínio na direção de infecções bacterianas. Podemos também analisar a
presença de gordura nas fezes, presença de rotavírus e assim por diante.
Neste
artigo, abordaremos especificamente o exame protoparasitológico de fezes,
também chamado de parasitológico. Esse exame é um dos mais pedidos quando a
suspeita é verminose intestinal.
Em primeiro
lugar, é importante dizer que alguns médicos optam por não solicitar o
protoparasitológico de fezes e fazer a chamada desparasitação periódica, que
consiste em tratar/prevenir empiricamente, com fármacos, uma vez ao ano para
escolares de regiões cuja prevalência de verminoses é menor que 20%, e duas
vezes ao ano para escolares de regiões cuja prevalência fica entre 20 e 50%,
pois representa população de risco. Essa prática não é inadequada, já que as
verminoses são previsíveis e dificilmente atingem um nível de prognóstico ruim
para o paciente. Portanto, não pedir o exame, sobretudo quando falamos de SUS,
é pegar um atalho na conduta desse tipo de doença, evitando gastos com exames e
fazendo a prevenção anual de uma só vez.
Entretanto,
o exame protoparasitológico de fezes ainda é importante no Brasil, já que somos
um país em desenvolvimento e ainda temos inúmeras regiões sem saneamento
básico, condições sub-humanas de moradia, que nos obrigam a investigar
verminose, obtendo resultados positivos com frequência. Além disso, parasitoses
não tratadas podem levar a deficiência no crescimento e desenvolvimento das
crianças, e a saúde das crianças é um marcador muito relevante para o país. Os
dados epidemiológicos dos exames de fezes podem guiar também os estudos para
melhoria de saneamento básico, sobretudo o tratamento da água.
Um adendo
importante é que a avaliação do paciente nunca se resume somente aos exames
laboratoriais. É necessário que se faça uma boa anamnese e exame físico sempre,
pois muitos parasitas possuem ciclos em outros órgãos do corpo humano além do
intestino e podem passar despercebidos se a qualidade da consulta não for boa. Pelo
mesmo motivo, é relevante incluir as verminoses nos diagnósticos diferenciais.
A
finalidade do exame protoparasitológico de fezes é a pesquisa de tipos
específicos de vermes intestinais, são eles: os helmintos (platelmintos e
nematelmintos) e protozoários.
Os nematelmintos
são vermes de corpo cilíndrico. São exemplos desse grupo o Ascaris lumbricoides, famosa lombriga, Ancylostoma duodenale ou Necator americanus,
conhecido popularmente como amarelão, a Wuchereria bancrofti,
causadora da elefantíase e o Enterobius vermiculares, causador de uma das parasitoses mais comuns
na infância: a oxiuríase.
Os platelmintos
são vermes de corpo achatado. Os exemplares mais conhecidos desse filo são o Schistosoma
Mansoni, agente etiológico da esquistossomose, as Taenia Solium e Taenia Saginata, conhecidas como solitárias, que são
causadoras da teníase, mas seus ovos podem também causar uma doença muito grave
chamada cisticercose, em que os ovos se alojam no sistema nervoso central.
Os protozoários incluem seres como Entamoeba histolytica
(amebíase), Tripanossoma cruzi (Doença de Chagas), Leishmania
brasiliensis (leishmaniose), Giardia lamblia (Giardíase) e Plasmodium sp
(malária).
Para continuar sua propagação pelo
ambiente, esses vermes costumam eliminar uma quantidade grandiosa de ovos,
trofozoítos e larvas que saem nas fezes do indivíduo contaminado. São esses
elementos que o examinador, durante o exame protoparasitológico de fezes vai
pesquisar no material fecal. Existem vários métodos para pesquisa desses, como
o método de Faust (centrífugo-flutuação em sulfato de zinco) e o método de
Hoffmann (sedimentação espontânea).
São colhidas 3 amostras de fezes, de
preferência em dias alternados, para que a possibilidade de falso negativo
diminua. É de extrema importância que a colheita do material seja feita de
forma adequada, ou seja: direto do canal anal, sem entrar em contato com urina
nem com a água do vaso sanitário. Necessita-se aproximadamente 1/3 do volume do
recipiente contendo o material biológico. Essas fezes são conservadas e podem
ser analisadas todas juntas dentro de 7 dias.
Os resultados são divulgados com os
tipos de vermes (helmintos, protozoários) visualizados ou não. Portanto, quando
o médico tem acesso ao resultado, já se sabe que a parasitose é positiva e a
qual filo aquele verme pertence, para que o tratamento seja mais direcionado. A
frequência para realização do exame depende muito do paciente, mas geralmente é
recomendado anualmente, junto aos exames de rotina.
O tratamento é feito por meio de fármacos antiparasitários de administração oral, disponíveis no SUS e que tem eficácia e segurança muito elevadas. Porém, doses e tempo de administração podem variar de um verme para o outro e por isso, para um tratamento mais assertivo o exame protoparasitológico é importante.