Com o avanço da vacinação, muitos países como Reino Unido, Alemanha, Áustria, e Ucrânia estão flexibilizando e até colocando fim a protocolos contra Covid-19. O problema é que estes mesmos países, atualmente, estão vivendo situações endêmicas da doença com aumento de casos e picos de morte, o que coloca a Europa como novo epicentro da pandemia.
Uma nova onda?
A Organização Mundial da Saúde recentemente anunciou o primeiro aumento de contaminações a nível mundial desde o mês de agosto. De acordo com a entidade, a quantidade de testes positivos cresceu 4% entre os dias 18 e 24 de agosto, com 2,9 milhões de novos infectados. Na Europa, a média no continente é de 1,5 milhão de novos casos e 19 mil mortes por semana. Isso levantou dúvidas sobre a forma como o mundo vem encarando a pandemia. Estaríamos de frente para uma nova onda?
Segundo a infectologista da Rede D’or, Raquel Murrek, ainda não. Ela explica que as oscilações acontecem porque ainda existe a transmissão do vírus, combinado ao aumento das aglomerações e da flexibilização de protocolos sanitários, como o uso de máscaras.
“Você tem o aumento da taxa de transmissão, com isso, o vírus se replica, se modifica e ainda faz pacientes, ainda faz casos e volta a ter esses aumentos. Então, o retorno das mortes é por causa da transmissão ainda presente e pela quebra do distanciamento”, explicou ela. A médica ainda acrescentou que esses períodos de variações serão cíclicos e poderão necessitar de protocolos mais rígidos para o controle da doença. “A China fechou uma cidade com 4 milhões de pessoas por causa do retorno do vírus, então isso é o que se tem que trabalhar. Aumentou a taxa de transmissão? Faz um movimento naquela região para que a taxa diminua até termos o tratamento contra o vírus liberado mundialmente e a população 100% vacinada. É evitar aglomeração, evitar que o vírus se propague na população, se multiplique e faça adaptações. Isso vai ser cíclico até ter o controle global da transmissão.”
A situação no Brasil:
O Brasil tem aproximadamente 55% da população totalmente vacinada contra a Covid-19 e uma grande redução nos casos de contaminação e de mortes pela doença. Com isso, estados e municípios se utilizam desses dados para reduzir os protocolos sanitários de controle.
Em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os estádios de futebol foram autorizados a liberar o público para assistir os jogos. No estado de São Paulo também houve liberação da capacidade máxima de público sem a exigência de distanciamento social em teatros, cinemas, bares e restaurantes, além de casas de eventos em geral e shows, desde que mantida o uso de máscara e que apresente o comprovante de vacinação.
Já no Rio de Janeiro, o uso de máscara em locais abertos deixou de ser obrigatório. Essa medida deveu-se à queda de internações pela doença na rede pública que, de acordo com o governador do estado, Cláudio Castro, não chega a 3%.
A orientação dos especialistas:
Para o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o uso de máscara continua sendo de extrema importância para o controle da pandemia no cenário atual, uma vez que, mesmo com o avanço da vacinação contra a Covid-19, a transmissão do vírus está presente. O Conass ainda reforça que mesmo em locais abertos, a depender da aglomeração, a circulação do vírus ainda é muito prevalente. Sendo assim, a entidade recomenda aos gestores a necessidade de tomar decisões baseadas em evidências epidemiológicas, observando a situação em sua totalidade, considerando o cenário nacional e internacional, e sempre se apoiando em dados científicos.
Fim da pandemia:
Antes acreditava-se que a imunidade em rebanho (adquirida quando parte da população é vacinada e parte não) poderia colocar um fim à pandemia, uma vez que conforme as pessoas contraíssem a doença ou fossem vacinadas, o Sars-Cov-2 não teria poder de reinfecção e deixaria de ser transmitido.
Contudo, com o surgimento das variantes Alfa, Beta, Gama e Delta essa ideia precisou ser descartada, já que a partir delas estabeleceu-se que a imunidade em rebanho não durava por muito tempo e se manifestava diferente de pessoa para pessoa.
Aos poucos, os cientistas começaram a entrar em consenso quanto ao destino da pandemia. Atualmente, há uma maior concordância de que a pandemia aos poucos se tornará endemia, ou seja, restrita a determinados lugares.
O ponto central disso tudo é que em algum momento, tudo isso que estamos vivendo, toda essa situação catastrófica, será controlada. A questão é: de que forma iremos fazer isso? Algo mais suave e gradual seguindo as orientações dos especialistas, mantendo medidas de combate ao vírus, bem como, todos os outros cuidados necessários em um momento tão atípico, ou de forma mais brusca, tendo graves períodos de piora até chegarmos a um patamar de calmaria e controle?
Autora: Narjana Rösler Stamborowski
Instagram: @narjannaa
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
BIENARTH, ANDRÉ. Covid-19: como se determina o fim de uma pandemia. BBC News Brasil em São Paulo. Disponível em: < Covid-19: como se determina o fim de uma pandemia – 10/11/2021 – UOL VivaBem>.
MENDONÇA, FABÍOLA. Flexibilização das regras de isolamento social preocupa especialistas. Carta Capital. Disponível em: <Flexibilização das regras de isolamento social preocupa especialistas – CartaCapital>.