O estigma do doente mental e as fragilidades da educação médica | Colunistas

Sabemos lidar com o paciente com transtorno
mental?
Quantos de nós já não escutou uma piadinha
sobre doença mental?
Será que realmente é apenas uma piada ou isso
reflete algo que está enraizado em nossa cultura?
A construção de um entendimento de saúde universal coloca o médico
frente a variadas situações. Hoje, seja o médico recém-formado ou especialista,
ele deve estar apto a lidar com os vários tipos de pacientes e suas
comorbidades, que vão além do intuito de uma consulta específica. Pacientes
portadores de transtornos mentais, livres da concepção manicomial anterior, não
estão estritos ao psiquiatra e, atualmente, permeiam diferentes especialidades
médicas; afinal, ter alguma doença mental não o exime de ter um problema
cardíaco. Mas será que formamos profissionais capazes de atender esses
pacientes sem nenhum pré-conceito?
Pacientes carregam consigo estigmas, os quais ainda são reproduzidos e
reforçados por profissionais de saúde, logo, pela classe médica. Pacientes com
algum transtorno mental estão entre as principais vítimas desse processo de
estigmatização, presente inclusive em profissionais da área de saúde mental.
Esse comportamento tem levado médicos a assistirem esses pacientes de maneira deficitária,
muitas vezes não dando valor à queixas reais, dificultado acesso à saúde e, por
consequência, retirando-lhes a qualidade de vida.
Diante deste cenário, o entendimento inicial seria o de trazer para a
educação médica o ensino obrigatório em saúde mental, melhorando o entendimento
do estudante sobre conceitos da área e tentando descontruir atitudes negativas
frente a esses pacientes. Mudança essa que foi um dos objetivos da reforma das
Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina após a aprovação do
Programa Mais Médicos em 2013 e que, desde então, imputa às Instituições de
Ensino Superior (IES) a obrigação de introduzir na graduação médica o rodízio
na área de Saúde Mental desvinculado da disciplina de clínica médica, como era
até então.
Todavia, alguns estudos apontaram que apenas essa introdução não foi
suficiente para reduzir o estigma do estudante de medicina em relação ao
paciente portador de doença mental; entendimento semelhante ao de estudos
realizados em outros países da Europa e Ásia diante dos respectivos programas
de educação em saúde mental durante a graduação médica.
Quais seriam então as variáveis a serem modificadas para promover um
real efeito sobre esse estigma: a duração, a metodologia, a intervenção
precoce? Estudos atuais se debruçam sobre esse cenário na tentativa de entender
o que precisa ser modificado. A duração da disciplina parece não ter efeito
satisfatório sobre o resultado final na redução do estigma, apesar de
apresentar melhoria em grupos onde a linha de base do estudo, pré-intervenção,
mostra grande estigmatização. Os tipos de metodologias utilizadas também
parecem não trazer grandes efeitos, principalmente dentre as consideradas metodologias
ativas.
O que sabemos é que o estigma sobre esses pacientes não é algo pueril,
está enraizado em nossa cultura, sendo consequência de séculos de atraso no
conhecimento e condução do paciente psiquiátrico; podemos identificá-lo sendo reproduzido
diariamente em programas de televisão, discursos nas mídias sociais e até em
atitudes de colegas profissionais de saúde. Não sendo, portanto, difícil de
compreender porquê algumas semanas em rodízios de saúde mental são
insuficientes para dissuadir esse comportamento.
Como se não bastasse esse forte componente cultural, academicamente
ainda se prega muito a medicina curativa, que encontra certa dificuldade em
lidar com doenças crônicas ou de fisiopatologia ainda pouco esclarecida. A
literatura já demonstra que médicos, principalmente jovens, têm extrema
dificuldade em lidar com a condução dessas doenças, sejam elas orgânicas ou
transtornos mentais, devido ao seu componente “incurável”. Status esse que vai
de encontro e impõe certo bloqueio a cultura do médico salvador de vidas que
ainda está presente nas universidades. Ver a melhora desses pacientes exige certo
tempo, que muitos profissionais não estão favoráveis a dispor, seja por não
enxergarem prognóstico ou por não conseguirem conduzir um doente que por vezes
pode ser muito difícil.
Podemos elencar alguns fatores que seriam importantes nessa empreitada
contra a estigmatização. O entendimento sobre a doença e seu prognóstico é um
deles, sendo importante salientar que o paciente com doença mental não é
sinônimo de paciente incapaz ou disfuncional, como era tratado antigamente.
Tratamentos modernos, aliando psicoterapia e componente medicamentoso,
conseguem conferir qualidade de vida e funcionalidade integral a esses doentes.
Devemos ainda enxergar a psiquiatria como uma área médica tão respeitada quando
outras áreas clínicas, deixando para traz a concepção retrógrada remanescente
da cultura manicomial. Compreendermos que o processo de desconstrução e
reconstrução do estudante frente a concepções estigmatizantes deve ser iniciado
já ao entrar na universidade, num processo longitudinal, não algo pontual no
final do curso como é praticado hoje pela maioria das instituições.
Isso é apenas o começo, processos de modificação da educação médica
constituem a menor parte de toda manobra necessária para combater essa
estigmatização, é apenas a ponta do iceberg. Diante disso, algumas dúvidas
surgem, como: Como levar essa mudança para outros cursos? Como fiscalizar o
comportamento dos profissionais? Como levar essa mudança para sociedade? Temos
ainda dificuldade em desconstruir o estigma de processos patológicos
relativamente novos, como o da Síndrome de Imunodeficiência Humana, quem dirá o
transtorno mental que está intimamente ligado à ideia de sociedade. Enfim,
ainda temos um longo caminho a percorrer, muito o que compreender; o alento é
que já temos progressos à vista, já encontramos a entrada dessa trilha, agora é
persistir.
Nome:
Antonio Pedro de Melo Moreira Suarte
Instagram:
@ap.suarte
Medium: @apsuarte
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.