A história da Medicina surge junto a história da humanidade,
quando curandeiros e parteiras, a partir de métodos tradicionais e baseados em conhecimentos
empíricos, realizavam trabalhos que são feitos pelos médicos atuais, com a
finalidade de minimizar os problemas físicos, gerar o bem-estar e prevenir novas
patologias. Para exercer este ato de curar, os médicos brasileiros, nos 2 últimos
séculos, passaram a receber uma formação acadêmica, com a criação da Escola de
Cirurgia da Bahia, há cerca de 211 anos, o que marcou a institucionalização do
ensino da Medicina no país.
Nos últimos 30 anos, o mundo vem passando por uma revolução
tecnológica em todas as áreas que regem a vida humana, seja com o surgimento de
novas máquinas ou novos sistemas de informatização, que acabou por atingir diretamente
a prática médica. A ciência e, particularmente, a Medicina, está sujeita a mudanças
diárias, com o surgimento de novos medicamentos, novas técnicas cirúrgicas,
novos métodos diagnósticos, que aumentaram a capacidade resolutiva da Medicina,
e boa parte dessa mudança veio a partir da introdução da tecnologia.
O avanço tecnológico na Medicina traz consigo 2 realidades. Uma delas
é otimista, com os inúmeros benefícios trazidos pela Medicina Moderna, que
propiciam o avanço diário nos tratamentos e prevenção de enfermidades,
melhorando substancialmente a qualidade de vida da população. A outra é o caráter
duvidoso dessas promissoras inovações, pois o uso dessa tecnologia vem
confrontando com os preceitos éticos, a partir do surgimento de procedimentos
eticamente questionáveis, além da oneração do sistema de saúde que incorpora as
novas práticas, fazendo com que o questionamento sobre custo e benefício seja
levantado.
A ética é entendida como um conjunto de valores morais a respeito
do comportamento humano e dotada de princípios que norteiam a conduta do homem
na sociedade. Sendo assim, a ética médica define as diretrizes para o exercício
da profissão e, devido a prática médica se relacionar diretamente com o corpo,
a saúde e a vida dos pacientes, isso faz com que à reponsabilidade frente ao
exercício médico seja ainda maior. São inúmeros os questionamentos a respeito da
ética médica e alguns há décadas perpetuam na sociedade, como a questão do
aborto, eutanásia, fertilização in vitro e manipulação genética.
Entretanto, nos dias atuais, as questões éticas se confrontam com algumas
evoluções da medicina propiciadas pelo uso da tecnologia, como a ideia do corpo
perfeito, a utopia da eternidade e do prazer, com o aparecimento de drogas que
suprimem a dor e promovem o prazer físico e psíquico.
Nessa perspectiva, é imprescindível analisar quais as circunstâncias
que levam ao constante aumento da introdução da tecnologia na Medicina e quais
os desafios dessa inovação tecnológica nos dias atuais frente a ética e aos
costumes vivenciados pela sociedade.
A era digital vem promovendo descobertas diárias que beneficiam a
saúde da população e auxiliam o trabalho do médico em seus procedimentos. Com o
advento da tecnologia, técnicas cirúrgicas foram aprimoradas, permitindo aos
cirurgiões acessar tecidos que antes eram inacessíveis pelas técnicas
tradicionais, além de permitir que as atividades sejam realizadas com maior
rapidez e menores risco de complicações. O surgimento dos novos métodos
diagnósticos propiciou aos médicos o uso de meios mais simples e precisos na
busca pela descoberta da enfermidade dos pacientes. Os novos medicamentos
fizeram com que as doenças fossem tratadas de modo mais eficaz, diminuindo a
angústia dos pacientes frente às comorbidades que os afetam. Isso fez com que a
incorporação da tecnologia à prática médica fosse indispensável, funcionando
como peça fundamental para evolução da ciência e do bem-estar do ser humano.
Segundo o capítulo 1 do código de ética Médica, o bem do paciente é destacado como prioridade e, se o
médico dispõe de ferramentas cientificamente reconhecidas para ajudá-lo, então,
nenhum estatuto institucional poderá impedi-lo de usar em favor da vida do
paciente. Isso assegura ao médico a capacidade de introduzir meios tecnológicos
para buscar o melhor para o seu paciente, mas é importante entender até que
ponto essas ferramentas científicas podem ser usadas e se elas vão além dos
preceitos defendidos pelo código de ética médica.
Uma prática bastante invasiva e que mostra o
poder da tecnologia sobre o homem é a manipulação de sua identidade genética a
partir do DNA, o que interfere diretamente na essência da vida humana,
refletindo o caráter agressivo que a tecnociência pode propiciar. Além disso,
tecnologia não é barata e isso faz com que essa medicina promissora não esteja disponível
para todos, beneficiando apenas uma parcela da população.
Assim, fica evidente a importância da intervenção da tecnologia na ciência e na prática médica, gerando benefícios tanto para o médico como para o paciente. É necessário, também, enfatizar que a Medicina deve ser sempre exercida pensando no bem-estar do paciente, seguindo os princípios éticos para não invadir a integridade do ser humano. Afinal, conforme apregoado por Morin, em sua obra Ciência com Consciência: “A humanidade corre o risco de naufragar no momento em que dá à luz ao seu futuro”.
Autor: Erikson de Luna