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O Açúcar e a Infância | Colunistas

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A programação metabólica e a importância da alimentação a longo prazo

Hoje se sabe que a influência da alimentação na infância vai bem além do que se pensava, perpassando o caráter apenas de nutrição e assegurando um lugar importante na definição da saúde futura daquele indivíduo que se forma.

Introduzido por Dörner em 1974, o termo programming é definido como “indução, deleção ou prejuízo do desenvolvimento de uma estrutura somática ou ajuste em um sistema fisiológico por um estímulo ou agressão que ocorre em um período suscetível” (1).

Tais modificações propostas pelo conceito citado trazem consequências para as funções do corpo na vida adulta. A alimentação é uma demonstração prática perfeita na espécie humana, e os fatores nutricionais nas fases iniciais da vida podem gerar problemas a longo prazo quando existem práticas incorretas. A obesidade é um exemplo claro disso, pois já é provada a relação entre ela e a alimentação inadequada no primeiro ano (1).

Também é sabido que, durante o crescimento dos compartimentos corporais, os alimentos são os principais influenciadores ambientais sobre o genoma da criança, através de metilações dos nutrientes sobre o material genético, o que causa alterações na expressão gênica e proteica, e, como consequência, na regulação do metabolismo corporal (1).

Tipos de açúcares

O termo “açúcar” refere-se tanto àquele que ocorre naturalmente nos alimentos, como frutas, vegetais, alguns grãos, na lactose do leite e laticínios; quanto aos açúcares livres, os monossacarídeos ou dissacarídeos que são adicionados às comidas pelas fábricas, cozinheiros ou mesmo pelos consumidores, além do açúcar natural presente nos alimentos (2).

É importante destacar que os açúcares livres podem ter consequências fisiológicas diferentes dos açúcares intrínsecos incorporados às paredes celulares das frutas e vegetais ou da lactose presente no leite e derivados (2).

Prejuízos do açúcar na alimentação

As modificações no estilo de vida ocorridas em todo o mundo nas últimas décadas também atingiram a alimentação e, assim como a vida atribulada nas cidades se tornou mais comum, as comidas industrializadas se tornaram mais baratas e substituíram as caseiras, passando a representar 85% do consumo das famílias na atualidade (2,3).

A introdução desses alimentos com alto teor energético e baixo valor nutricional, entre eles, as comidas com grande quantidade de açúcar, tem crescido dramaticamente entre crianças e adolescentes e, juntamente com outras práticas, como o abandono precoce da amamentação, comprometem o crescimento e desenvolvimento destes (2,3).

O excesso de consumo de açúcares livres, principalmente na forma líquida, está relacionado com uma série de consequências para a saúde, tanto mais imediatas quanto futuras, dentre as quais podemos citar (2):

  • Obesidade: estudos têm mostrado a associação entre o consumo de açúcar livre, principalmente de bebidas adocicadas (isto é, bebidas às quais são adicionados açúcares calóricos, como suco de frutas concentrados), e o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade;
  • Doença cardiovascular e diabetes mellitus tipo 2 (DM2): dados de estudos de intervenção sugerem que o maior consumo de frutose (proveniente de açúcares adicionados aos alimentos) está associado a uma série de fatores de risco que aumentam as chances de desenvolvimento de doença cardiovascular e DM2;
  • Queixas gastrointestinais: má absorção do açúcar advindo dos sucos de fruta, especialmente quando consumidos em quantidade excessiva ou mesmo em quantidades não excessivas em crianças susceptíveis, pode resultar em flatulência, diarreia crônica, sangramento, dor abdominal e alteração do crescimento;
  • Cáries: a ingestão de açúcar livre acima do recomendado é associada a um alto risco de cáries dentárias devido ao açúcar livre e à acidez que resultam em erosão dentária;
  • Ingestão de nutrientes: as bebidas adocicadas podem acabar por substituir o leite materno e as fórmulas infantis, afetando negativamente o suprimento de nutrientes e diminuindo a qualidade da dieta, principalmente quando se considera que essas bebidas estão associadas com baixa ingestão de cálcio, ferro e vitamina A em crianças e adolescentes;
  • Saciedade: as bebidas adocicadas não promovem saciedade quando comparadas à mesma quantidade de açúcar na forma sólida, causando a uma ingestão aumentada de comida e de energia.

Recomendações

Não existe restrição para o consumo do açúcar naturalmente contido em frutas e verduras frescas, grãos, leite materno ou leite de vaca e derivados (desde que não haja  adição de açúcar nesses derivados, como nos iogurtes naturais, por exemplo), sendo que a ingestão desses alimentos in natura deve ser estimulada para populações de todas as faixas etárias (2,3).

É importante destacar que não existe necessidade nutricional de consumo dos açúcares livres para lactentes, crianças ou adolescentes. Os açúcares livres não devem fazer parte da dieta de crianças menores de 2 anos. Entre 2 e 18 anos, devem corresponder a menos de 5% das calorias presentes na dieta diária, quantidade que varia de acordo com a idade, conforme demonstrado abaixo (2,3):

  • 2 e 4 anos: 15-16 g;
  • 4 a 7 anos: 18 a 20 g;
  • 7 a 10 anos: 22 a 23 g;
  • 10 a 13 anos: 24 a 27 g;
  • 13 a 15 anos:  27 a 32 g;
  • 15 a 19 anos: 28 a 37g.

A bebida recomendada para crianças é a água. Bebidas adocicadas, vitaminas feitas de frutas e outras bebidas contendo adição de açúcar (como leites adoçados e outros derivados do leite que recebem a adição de açúcar) podem ser substituídos por água ou, em último caso, por leite sem a adição de açúcares livres (2).

Em crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade, a redução do consumo de açúcares livres é uma parte fundamental na diminuição da quantidade de calorias ingeridas e, como consequência, na perda de peso (2).

Conclusão

A alimentação de crianças sempre é um tema polêmico por envolver, além das condições socioeconômicas, os valores e vivências culturais de cada família. Cabe aos profissionais de saúde a obtenção de conhecimento atualizado para fornecer aos cuidadores orientações guiadas pelas melhores evidências científicas, a fim de evitar comportamentos inadequados e suas consequências conforme foi discutido no texto acima.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Fontes bibliográficas

  1. WEFFORT, Virginia R.S. (Org). Manual de Alimentação: Orientações para Alimentação do Lactente ao Adolescente, na Escola, na Gestante, na Prevenção de Doenças e Segurança Alimentar. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Departamento Científico de Nutrologia. 4. ed. São Paulo: SBP, 2018.
    1. SUGAR Intake in Infants, Children and Adolescents. ESPGHAN. In: Fidler Mis, Nataša. et al. Sugar in Infants, Children and Adolescents: A Position Paper of the European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Committee on Nutrition. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, 2017. 65(6):681-696.
    1. FONSECA, Cátia R.B.; CHENCINSKI, Yechiel M. O Açúcar e o Sódio na Alimentação Infantil. Recomendações: Atualização de Condutas em Pediatria. Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Departamento de Pediatria Ambulatorial. 82. ed. Out/17. São Paulo: SPSP, 2017.

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