Os coronavirus são patógenos importantes, da ordem viral Nidovirales, classificados em quatro gêneros: coronavirus alfa, beta, gama e delta. Os coronavirus humanos (HCoVs) são pertencentes ao gênero alfa (HCoV-229E e HCoV-NL63) e beta (HCoV-HKU1, HCoV-OC43), os coronavirus da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV) e o coronavirus da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV). O novo betacoronavirus detectado em 7 de janeiro de 2020 foi o responsável pela explosão de casos na província de Wuhan.
Com as novas atualizações e devido à mutação no vírus, este agora é oficialmente denominado de SARS-CoV2, a qual é motivo de preocupação e atenção devido à sua imprevisibilidade, ou seja ainda podem ser descritos efeitos e reações adversas relacionadas a este.
Com a extensa contaminação e a pandemia ainda em curso, o vírus responsável ficou conhecido por seu comprometimento das vias aéreas, síndromes respiratórias agudas e os sintomas como febre e tosse, posteriormente foram detectados problemas gastrintestinais, em seguida cardiovasculares e neurológicas até se chegar ao ponto de ser considerada uma afecção multissistêmica.
Efeitos neurológicos
O SARS-CoV2 (novo corona vírus) ingressa nas células por meio da ligação da proteína S (de spike, espicula) pelo receptor da ECA (enzima conversora de angiotensina) e esse receptor está presente por todo o nosso corpo, inclusive no cérebro. Dessa forma, a infecção consegue atingir o sistema nervoso por três vias, através da via endotélio vascular (sanguínea), pela contaminação das células brancas, a qual o sistema imune invade a barreira hematoencefálica carreando esse vírus para o sistema nervoso ou pela propagação viral por meio dos axônios.
A saúde neurológica e a SARS-CoV2 possuem certa relação, dado confirmado por um artigo médico postado no início de abril apontando que 36% dos infectados da região de Wuhan, a pioneira da doença no mundo, exibiram fenômenos como vertigem, cefaleia, crises epilépticas, dificuldades de equilíbrio, algia neuropática e déficit na sensibilidade olfativa e do paladar, afetando o sistema nervoso central e periférico simultaneamente. Em seguida, estudos seguintes realizados em várias localidades globais oficializaram este dado e ainda complementaram sintomas atuais como a encefalite necrotizante hemorrágica, meningoencefalite e Síndrome de Guillain-Barré.
O quadro de anosmia e ageusia são sintomatologias neurais precoces. Justificadas pela capacidade do vírus em atacar algumas células essenciais do nariz, encarregadas pelo suporte e registro de odores, o conhecido epitélio olfativo. Com a danificação celular, os neurônios sensoriais olfativos são alterados. Da mesma forma, ocorre a contaminação das papilas gustativas, e consequentemente os receptores responsáveis pela distinção dos sabores são lesionados.
A encefalite necrotizante hemorrágica (ENA) se trata de uma complicação rara, de acometimento em todas as faixas etárias, em especial no grupo pediátrico. Seu mecanismo se baseia na fissura da barreira hemato-encefálica, resultando em inflamação perivascular, desmielinização, alterações do estado mental e déficits neurológicos focais, consequência de uma exaberção de citocinas, imunomediadas diante da invasão pelo covid-19. Mas, apesar do alto potencial destrutivo, não é uma situação comum, sua incidência é mais provável em acometimentos de elevada gravidade pelo coronavirus.
A síndrome de Guillain-Barré está associada ao coronavirus pela aptidão invasiva ao sistema nervoso, resultando em inflamação no nervo periférico. Consequentemente, há uma resposta imune desregulada com danos nos tecidos cerebrais. Alguns coronavirus possuem capacidade de desmielinização periférica e central.
Quadros de meningite acompanhados de crise convulsiva foram evidenciados em pacientes acometidos por coronavirus através de exames histológicos, que denunciam partículas virais no líquido cefalorraquidiano. A apresentação clínica é inespecífica, com febre, cefaleia, náusea e vômito, junto de rigidez da nuca.
As manifestações neurológicas
Estas podem ser subdivididas em 3 grandes grupos:
- Alteração na consciência, podendo levar a quadros de coma ou alterações leves e até confusão mental.
- Alterações periféricas levando a quadros de contração muscular, mialgia e alterações da sensibilidade.
- Alterações vasculares importantes como em casos de pequenos derrames ou acidente vascular cerebral de origem isquêmica, devido a alterações abruptas da coagulação, a qual esses vírus podem induzir .
Alterações de consciência, geralmente em pacientes na UTI ou até com entubados deve se analisar minuciosamente a presença de quadro neurológico de um comprometimento direto ou indireto do Covid 19 seja em casos de alterações secundárias a está, casos de crises epilépticas, o estado do mal não convulsivo que possa se entrar no rol dos diagnósticos diferenciais. Comprometimento encefálico secundário a infecção do Covid 19 ou mesmo crises que estão sendo induzidas.
Distúrbios neurológicos pós covid
O sistema nervoso possui suas terminações amplamente distribuídas pelo corpo e a doença cursa com acometimento de múltiplos órgãos e logo causa vários danos diretos a porção cerebral. O mais recente estudo denúncia transtornos cerebrais e psiquiátricos até seis meses após a infecção em taxas superiores a 200 mil pacientes pós-covid-19.
O crescimento exponencial de várias condições clínicas no grupo selecionado, tais como perda de memória, distúrbios nervosos, ansiedade, depressão, abuso de substâncias e insônia. A sintomatologia estava presente em todas as idades, em assintomáticos, em hospitalizados e até em isolados domiciliares.
Foi demonstrado a complexidade agravante dos resultados negativos após longos períodos pela infecção pela covid-19. Os sintomas se justifiquem pelos efeitos de longo extensão no sistema imune, ou seja os vírus estimulam o corpo a sintetizar uma reação inflamatória persistente, resistente ao tratamento. Logo, casos de encefalomielite miálgica, névoa mental, transtornos de estresse pós-traumático foram relatados e caracterizados pela persistência, tempo de duração e sem melhora relevante ao longo do tempo.
Autor (a): Lanna do Carmo Carvalho
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
O corona virus: https://www.brainn.org.br/pesquisadores-do-brainn-lideram-estudo-sobre-efeitos-neurologicos-do-novo-coronavirus/
Efeitos neurológicos: https://www.brainn.org.br/pesquisadores-do-brainn-lideram-estudo-sobre-efeitos-neurologicos-do-novo-coronavirus/
As manifestações neurológicas: https://www.google.com/amp/s/pebmed.com.br/covid-19-quais-os-principais-sintomas-neurologicos-e-neuropsiquiatricos/ Distúrbios neurológicos pós covid: https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2021/04/disturbios-neurologicos-covid/