A infecção causada pelo novo coronavírus 2019 (COVID-19) denominado SARS-CoV-2, desde o início da propagação na China (dezembro 2019) se apresentou com uma emergência de saúde a nível global pelo seu caráter pandêmico. A infecção pode evoluir para a síndrome respiratória aguda grave (SRAG), entretanto sua apresentação clínica é altamente variável podendo ser desde assintomática até a apresentar manifestações clínicas graves com acometimento de diversos sistemas, como sistema nervoso central (SNC) e periférico (SNP).
Com isso, estudos relacionaram o acometimento neurológico com a infecção por SARS-CoV-2 e indicaram a correlação com os marcadores como interleucinas séricas, nitrogênio ureico, cistatina C, proteína C reativa e rompimento da barreira hematoencefálica com acometimento do SNC.
Acometimento Neurológico
Os sintomas mais comuns associados à COVID-19 são geralmente leves, caracterizando uma síndrome gripal, tais como, tosse, febre, fadiga e cefaleia. Estudos sugerem complicações neurológicas com gravidade variável, sendo que um estudo transversal constatou que mais da metade da coorte de pacientes positivos para SARS-CoV-2 apresentou acometimento neurológico (59,8%). Os resultados mostram e classificam os danos em inespecífico contando principalmente com fraqueza geral (mialgia), declínio cognitivo, delírio (24.5%), envolvimento médio com anosmia, hiposmia e ageusia (9,8%) e acometimento severo com isquemia cerebral (23.5%), outros estudos apontam também manifestações como encefalite, meningite, convulsões, acidente vascular cerebral, hemorragia e doença desmielinizante (Síndrome de Guillain-Barré). Sendo notório que há associação de sintomas respiratórios com acometimento neurológico mais grave.
Fisiopatologia e aspectos funcionais
Em relação a prováveis mecanismos fisiopatológicos: um aspecto constatado é o aumento de interleucina no líquor (LCR), sem presença de anticorpos SARS-CoV-2, com rompimento de barreira hematoencefálica (BHE), ambos acarretam déficits neurológicos, levando a se pensar que não há invasão direta viral no SNC.
Outro mecanismo citado na literatura é a invasão direta, onde SARS-CoV-2 se insere no SNC por meio do receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), que é expresso nos pulmões, mas também no tecido cerebral sendo o local de entrada para o vírus. O neurotropismo pode ocorrer por meio da circulação ou através da lâmina cribriforme localizada na cavidade nasal superior, que permite ao vírus atingir o cérebro que contém receptores para ACE2 e possivelmente se torna alvo para lesões neurológicas secundárias à COVID-19. Tal mecanismo é afirmado pela presença de anosmia nos pacientes e explicaria o mecanismo dessa sintomatologia, assim como justifica a hipótese de invasão viral direta ao SNC.
Biomarcadores
As manifestações neurológicas se relacionam com níveis mais elevados de nitrogênio ureico, cistatina C e proteína C reativa de alta sensibilidade e menor contagem de basófilos. E não demonstrou relação com a invasão viral direta do sistema nervoso, somente a reação exagerada do sistema imunológico com hiper resposta de interleucinas séricas. Não sendo considerada o rompimento de BHE e identificou que os casos graves de COVID-19 têm níveis muito mais elevados de interleucina séricas (IL) -2, IL-7, IL-10.
Em relação a resposta imunológica ao SARS-CoV-2, são discutidas duas hipóteses da resposta imune: uma em que as células imunes são recrutadas para o local da infecção e assim podem causar mais danos aos tecidos infectados, processo denominado de “tempestade de citocinas”, que consiste em uma resposta desregulada associada a pior prognóstico e quadros mais graves. E outra em que há indução das citocinas por meio da liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, IL-12, IFN-γ e TNF-α,). Mecanismo assegurado pela presença das citocinas pro-inflamatórias elevadas em pacientes com COVID-19 que contribuem com agravamento do quadro neurológico pela inflamação exacerbada. Com isso, os pacientes mais graves seriam devido ao excesso de citocinas locais (a tempestade de citocinas) ou o efeito sinérgico de ambos os mecanismos de resposta imune, que contribuiriam para a disfunção de múltiplos órgãos em pacientes graves com COVID-19, incluindo as manifestações neurológicas.
Conclusão
Com isso, infere-se que há uma discordância entre o mecanismo fisiopatológicos para infecção do SNC por SARS-CoV-2, enquanto algumas teorias afirmam sobre a invasão direta e outras relatam sobre o rompimento da BHE, hipótese apoiada por várias pesquisas, associadas com aumento de interleucinas do LCR definindo uma resposta imune causando uma hiper inflamação do SNC. Esse envolvimento inflamatório devido à ruptura da BHE e a liberação de citocinas impulsiona a um processo de inflamação neural, em vez da invasão viral direta. Outro fator preditor é o aumento de citocinas seja por recrutamento local ou indução pelas citocinas pró-inflamatórias ou sinergismo de ambos os mecanismos contribuiriam para agravamento e um desfecho neurológico desfavorável do paciente com COVID-19, sabendo que em pacientes com quadro respiratório e neurológico associados demonstram pior prognóstico.
Autor: Danielle Oliveira
Instagram: @_danielleoliveira
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