1.
Aspectos
epidemiológicos
A cisticercose é a infestação do organismo humano pela larva
do helminto da tênia. Sua patogenia humana está na localização do parasita em
tecidos nobres, como o globo ocular e o SNC. E nesse caso, a infestação do SNC
pelo cisticerco da Taenia solium é
conhecida por neurocisticercose e afeta ambos os sexos, sendo encontrada em
qualquer idade na faixa de 5 a 75 anos, com pico de incidência entre os 25 e os
35 anos.
A cisticercose humana e animal tem estrita relação com a
questão socioeconômica de muitos países em desenvolvimento. Nesse contexto,
apesar dessa doença ter grande potencial de erradicação, a falta de saneamento
básico associado à negligencia dos métodos de inspeção em animais nos
abatedouros fomentam sua persistência.
2. Relação Hospedeiro-Parasita

O homem é o hospedeiro definitivo nesse processo
infecção-doença, podendo também ser intermediário, uma vez que, se estiver
contaminado pelo verme adulto, pode liberar proglotes maduras ou gravídicas que
se desprendem da extremidade distal da tênia, sendo eliminadas junto com as
fezes humanas. Dessa forma, se eliminadas ao ar livre, esses ovos sobrevivem
por dias, possibilitando que suínos ou o próprio homem adquira cisticercose
pela ingesta dos ovos do parasita, que pode ser por contaminação fecal-oral
própria (ovos-ânus-mão-boca) ou por alimentos contaminados na manipulação por
portadores do verme adulto.
Quando um hospedeiro intermediário ingere os ovos e os
embrióforos (casca de ovo), sofrem a ação da pepsina no estômago. Assim, chegando
ao intestino, as oncosferas sofrem a ação dos sais biliares, que são de grande
importância na sua ativação e liberação. Depois de ativas, as oncosferas
liberam o embrióforo e o movimentam no sentido da vilosidade, onde penetram com
auxílio dos acúleos.
Eles permanecem nesse local durante alguns dias para se adaptarem
às condições fisiológicas do novo hospedeiro. Em seguida, penetram nas vênulas
e atingem as veias e os linfáticos mesentéricos, sendo transportados por via
sanguínea a todos os órgãos e tecidos do organismo até atingirem o local de implantação,
preferindo os músculos de maior movimentação e com maior oxigenação.
No interior dos tecidos, perdem os acúleos e cada oncosfera transforma-se em um pequeno cisticerco. Essas oncosferas apresentam um grande tropismo pelo SNC. As localizações mais frequentes dos cisticercos no SNC são leptomeninge e córtex (substância cinzenta), sendo mais raras no cerebelo e medula espinhal.
3. Identificação do parasita
A cisticercose no sistema nervoso central pode acometer o
paciente por:
- Cisticercos
parenquimatosos, localizando-se preferencialmente nas áreas mais vascularizadas
dos gânglios da base e do córtex cerebral; - Cisticercos
intraventriculares, que podem ser encontrados em qualquer dos ventrículos
cerebrais, pequenos ou grandes, geralmente únicos e localizando-se de
preferência no IV ventrículo; - Cisticercos
espinais, que podem situar-se no parênquima medular ou no espaço subaracnóideo
espinal, tendo morfologia semelhante à dos cisticercos cerebrais.
4. Manifestações clínicas
As manifestações clínicas em geral aparecem alguns meses após
a infecção. Em cerca de seis meses, o cisticerco está maduro e tem uma
sobrevida entre dois e cinco anos no SNC. Nesse processo, são identificados os
quatro estágios do cisticerco:
vesicular, coloidal, granular nodular e granular calcificado. Porém, até
o momento, não foi possível determinar o tempo de permanência da larva em cada
estágio. Contudo, sabe-se que, no início da fase de degeneração da larva, as
reações inflamatórias acentuam-se notavelmente, podendo ocorrer graves consequências,
como encefalite focal, edema dos tecidos, vasculite e ruptura da barreira hematoencefálica.
Outra manifestação advinda dos cisticercos parenquimatosos da
etapa coloidal é a epilepsia, que pode ser causada pela gliose formada pela proliferação
de células da micróglia, edema difuso e infiltrado inflamatório perilesional decorrente
da membrana de colágeno ao redor membrana vesicular, podendo comprometer o parasita dos
cisticercos.
Concomitantemente,
outras formas do cisticerco, como os meníngeos e ventriculares, podem desencadear
manifestações de hidrocefalia.
5. Diagnóstico
Para se ter um diagnóstico mais
assertivo, é essencial que se priorize a clínica e a epidemiologia,
complementando com exames de neuroimagem como tomografia computadorizada (TC) e
ressonância magnética (RMN), que ampliam a precisão dos achados.
Além disso, podem ser feitas provas imunológicas, como do líquido
cefalorraquidiano (LCR), que possibilita uma caracterização adequada da
neurocisticercose por detectar os antígenos anticisticerco nesse líquido.
6. Tratamento
Em relação ao tratamento, é preciso levar em consideração o
estágio dos cisticercos para decidir a abordagem. Nesse caso, pacientes com
cistos viáveis requerem administração de drogas anticisticercosas, como albendazol
e praziquantel, a depender da quantidade de cistos. Esses anti-helmintos podem
ser associados a corticoterapia para evitar edema e hipertensão intracraniana.
Entretanto, se o paciente já tiver uma neurocisticercose calcificada, é ideal
usar anticonvulsivantes como carbamazepina e fenitoína para conter as crises
convulsivas.
Alguns casos podem necessitar intervenção cirúrgica devido a
uma hidrocefalia obstrutiva – condição de alta mortalidade dessa parasitose –
ou para remoção dos cistos que podem vir a comprimir estruturas do SNC.
Autora: Paula Mendes, Estudante de Medicina
Instagram: @paulamendees_