Na
faculdade de Medicina, dentre as diversas disciplinas ministradas, está a
Neuroanatomia, que é um ramo da anatomia responsável pelo estudo do sistema
nervoso.
O
simples fato de ver a palavra “neuroanatomia” te deixa nervoso? Assim como a
maioria dos alunos, você sente calafrios e se desespera?
Então,
já pode se acalmar! Nesse texto, com o auxílio de figuras e esquemas, você vai
poder aprender um pouco sobre os nervos cranianos, desde a sua localização até
suas funções no organismo.
Divisão
do Sistema Nervoso
O
sistema nervoso pode ser dividido com base em diversos critérios, por exemplo,
critérios anatômicos, resultando no seguinte esquema:

O
sistema nervoso central (SNC) corresponde à porção do sistema nervoso
localizada dentro do crânio e do canal vertebral, ao passo que o sistema
nervoso periférico (SNP) consiste na porção localizada fora dessas estruturas
anatômicas.
Por
sua vez, o sistema nervoso periférico é subdividido em nervos, terminações
nervosas e gânglios. Os nervos são responsáveis por integrar as informações
entre o sistema nervoso central e os órgãos periféricos. Como observado no
esquema acima, eles podem ser classificados como espinhais, quando tal conexão
ocorre com a medula espinhal, ou cranianos, quando tal conexão ocorre com o
encéfalo.
Tipos
de fibras nervosas
No
sistema nervoso periférico, o agrupamento de diversas fibras nervosas culmina
na formação dos nervos. Tendo como base o aspecto funcional, tais fibras podem
ser classificadas em aferentes ou sensitivas e eferentes ou motoras.
Fibras aferentes ou sensitivas
As
fibras aferentes são responsáveis por levarem a informação da periferia do
organismo até o sistema nervoso central. Além disso, elas podem ser
subdivididas em somáticas ou viscerais e gerais ou especiais, como disposto a
seguir:
- Fibras aferentes somáticas gerais: são
aquelas que conduzem impulsos exteroceptivos (relacionados à temperatura,
pressão, dor e tato) e proprioceptivos; - Fibras aferentes somáticas especiais:
são aquelas que conduzem impulsos de visão, audição e equilíbrio; - Fibras aferentes viscerais gerais: são
aquelas ligadas às vísceras e que conduzem impulsos de dor, por exemplo; - Fibras aferentes viscerais especiais:
são aquelas ligadas às vísceras e que conduzem impulsos de gustação e olfação.
Fibras eferentes ou motoras
As
fibras eferentes são responsáveis por levarem o comando do sistema nervoso
central à periferia do organismo. Ademais, elas podem ser subdivididas em
somáticas ou viscerais, as quais englobam as fibras gerais ou especiais, como
explanado a seguir:
- Fibras eferentes somáticas: são
aquelas ligadas aos músculos esqueléticos miotômicos (músculos originados a
partir dos miótomos); - Fibras eferentes viscerais gerais: são
aquelas ligadas aos músculos lisos, coração e glândulas; - Fibras eferentes viscerais especiais:
são aquelas ligadas aos músculos esqueléticos branquioméricos (músculos
originados a partir dos arcos branquiais, os quais são considerados como
vísceras).
Nervos
Cranianos
Como exposto
anteriormente, os nervos cranianos são responsáveis por integrar as informações
entre órgãos periféricos e SNC, comunicando-se com o encéfalo.

Ao
todo, existem 12 pares de nervos cranianos, que são numerados através dos
algarismos romanos no sentido craniocaudal de acordo com sua origem aparente,
como você pode notar na figura acima. Dentre esses 12 pares de nervos, a
maioria deles se liga ao tronco encefálico, com exceção do nervo olfatório (NC
I) e nervo óptico (NC II), os quais se ligam ao telencéfalo e ao diencéfalo
respectivamente.
A
seguir, os nervos cranianos serão abordados individualmente a respeito de sua
classificação (sensitivo, motor ou misto), função e origem aparente no encéfalo
e no crânio.
Nervo olfatório (NC I)
O
nervo olfatório é sensitivo, visto que é formado por fibras aferentes viscerais
especiais, cuja função é conduzir os impulsos olfatórios. A origem aparente do
NC I no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o bulbo olfatório e a lâmina
crivosa do osso etmoide.
Nervo óptico (NC II)
O
nervo óptico é sensitivo, visto que é formado por fibras aferentes somáticas
especiais, cuja função é conduzir os impulsos visuais. A origem aparente do NC
II no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o quiasma óptico e o canal
óptico.
Nervo oculomotor (NC III)
O
nervo oculomotor é motor, visto que é formado por fibras eferentes somáticas,
cuja função é inervar os seguintes músculos: elevador da pálpebra superior,
reto superior, reto inferior, reto medial e oblíquo inferior. Além disso, esse
nervo também é formado por fibras eferentes viscerais gerais, cuja função é
inervar o músculo ciliar e o músculo esfíncter da pupila.
A
origem aparente do NC III no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco
medial do pedúnculo cerebral no mesencéfalo e a fissura orbital superior.
Nervo troclear (NC IV)
O
nervo troclear é motor, visto que é formado por fibras eferentes somáticas,
cuja função é inervar o músculo oblíquo superior. A origem aparente do NC IV no
encéfalo e no crânio é, respectivamente, o véu medular superior e a fissura
orbital superior.
Nervo trigêmeo (NC V)
O
nervo trigêmeo é misto, visto que é formado por fibras aferentes somáticas
gerais, cuja função é conduzir impulsos dos ⅔ anteriores da língua, dos dentes
e da maior parte da face; e por fibras eferentes viscerais especiais, cuja
função é inervar os músculos da mastigação, tais quais músculos temporal,
masseter, pterigoideo lateral, pterigoideo medial, milo-hioideo e digástrico
(ventre anterior).
O
nervo em questão possui três ramificações, denominadas nervo oftálmico (NC V1),
nervo maxilar (NC V2) e nervo mandibular (NC V3).
A
origem aparente do NC V no encéfalo é entre a ponte e o pedúnculo cerebelar
médio. Tendo em vista os ramos do nervo trigêmeo, suas origens aparentes no
crânio são a fissura orbital superior (nervo oftálmico), forame redondo (nervo
maxilar) e forame oval (nervo mandibular).
Nervo abducente (NC VI)
O
nervo abducente é motor, visto que é formado por fibras eferentes somáticas,
cuja função é inervar o músculo reto lateral. A origem aparente do NC VI no
encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco bulbo-pontino e a fissura
orbital superior.
Nervo facial (NC VII)
O
nervo facial é misto, visto que é formado por fibras eferentes viscerais
especiais, cuja função é inervar os músculos da mímica, músculos estilo-hioideo
e digástrico (ventre posterior); por fibras eferentes viscerais gerais, cuja
função é inervar as glândulas lacrimal, submandibular e sublingual; por fibras
aferentes viscerais especiais, cuja função é conduzir impulsos de gustação dos
⅔ anteriores da língua; por fibras aferentes viscerais gerais, cuja função é
conduzir impulsos das fossas nasais e do palato mole; e por fibras aferentes
somáticas gerais, cuja função é conduzir impulsos do pavilhão auditivo e do
meato acústico externos.
Vale
lembrar que o nervo facial possui uma raiz motora, que é o nervo facial
propriamente dito, e uma raiz sensitiva, que é o nervo intermédio.
A
origem aparente do NC VII no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco
bulbo-pontino (lateralmente ao NC VI) e o forame estilomastoideo.
Nervo vestibulococlear (NC VIII)
O
nervo vestibulococlear é sensitivo e é constituído por uma parte vestibular e
uma parte coclear, sendo que ambas são formadas por fibras aferentes somáticas
especiais. Nesse sentido, as fibras da parte vestibular e da parte coclear têm
função de conduzir impulsos, respectivamente, de equilíbrio e de audição.
A
origem aparente do NC VIII no encéfalo é o sulco bulbo-pontino (lateralmente ao
NC VII). Vale ressaltar que o nervo vestibulococlear não sai do crânio, ele
apenas penetra no osso temporal através do meato acústico interno, sendo essa a
sua origem aparente no crânio.
Nervo glossofaríngeo (NC IX)
O
nervo glossofaríngeo é misto, visto que é formado por fibras aferentes
viscerais gerais, cuja função é conduzir impulsos do ⅓ posterior da língua,
além da faringe, úvula, tonsilas, tuba auditiva, seio e corpo carotídeos; por
fibras eferentes viscerais gerais, cuja função é inervar a glândula parótida;
por fibras aferentes viscerais especiais, cuja função é conduzir impulsos de
gustação do ⅓ posterior da língua; por fibras aferentes somáticas gerais, cuja
função é conduzir impulsos do pavilhão auditivo e do meato acústico externo; e
por fibras eferentes viscerais especiais, cuja função é inervar os músculos
constritor superior da laringe e estilofaríngeo.
A
origem aparente do NC IX no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco
lateral posterior do bulbo e o forame jugular.
Nervo vago (NC X)
O
nervo vago é misto, visto que é formado por fibras aferentes viscerais gerais,
cuja função é conduzir impulsos da faringe, laringe, traqueia, esôfago,
vísceras torácicas e abdominais; por fibras eferentes viscerais gerais, cuja
função é inervar as vísceras torácicas e abdominais; por fibras eferentes
viscerais especiais, cuja função é inervar os músculos da faringe e da laringe;
por fibras aferentes viscerais especiais, cuja função é conduzir impulsos de
gustação da epiglote; e por fibras aferentes somáticas gerais, cuja função é
conduzir impulsos do pavilhão auditivo e do meato acústico externo. Note que
esse nervo é essencialmente visceral!
A
origem aparente do NC X no encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco
lateral posterior do bulbo (abaixo do NC IX) e o forame jugular.
Nervo acessório (NC XI)
O
nervo acessório é motor e é constituído por uma raiz craniana e uma raiz
espinhal. A raiz craniana é formada por fibras eferentes viscerais especiais,
cuja função é inervar os músculos da laringe, e por fibras eferentes viscerais
gerais, cuja função é inervar as vísceras torácicas; ao passo que a raiz
espinhal é formada por fibras eferentes viscerais especiais, cuja função é
inervar os músculos trapézio e esternocleidomastoideo.
Sabendo-se
da existência das duas raízes do nervo acessório, a sua origem aparente no
encéfalo é o sulco lateral posterior do bulbo (raiz craniana) e medula espinhal
(raiz espinhal). Já a sua origem aparente no crânio é o forame jugular.
Nervo hipoglosso (NC XII)
O
nervo hipoglosso é motor, visto que é formado por fibras eferentes somáticas,
cuja função é inervar os músculos da língua. A origem aparente do NC XII no
encéfalo e no crânio é, respectivamente, o sulco lateral anterior do bulbo e o
canal do hipoglosso.
Visão
geral dos nervos cranianos
Para
te auxiliar na memorização do conteúdo exposto acima, observe atentamente o desenho
esquemático que se segue:

Reconhecendo
os nervos cranianos
Além
do conhecimento teórico acerca dos nervos cranianos, é importante que você
saiba reconhecê-los em uma peça anatômica do laboratório de neuroanatomia.
Para
treinar, tente reconhecer os nervos cranianos na foto abaixo.

A identificação dos nervos cranianos, baseada na imagem, é: nervo olfatório, que sai do bulbo olfatório (16); nervo óptico (19); nervo oculomotor (22); nervo troclear (23); nervo trigêmeo (24); nervo abducente (9); nervo facial (25); nervo vestibulococlear (26); nervo glossofaríngeo junto ao nervo vago (28); nervo acessório (30); e nervo hipoglosso (29).
Autoria: Raissa Cardoso
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