O nervo vago,
décimo par craniano e o maior dos nervos dessa categoria, é considerado um
nervo misto (contém tanto fibras sensitivas quanto motoras).
2.
A anatomia
do nervo vago
A origem aparente do nervo vago ocorre no terço médio do sulco posterolateral do bulbo, com uma série de raízes nervosas imediatamente dorsais à oliva inferior, que se juntam e saem do crânio pelo forame jugular.
A essa altura, observam-se os gânglios superior, também chamado de jugular, e inferior, também nomeado de nodoso, após os quais se visualiza o tronco principal do nervo vago, descendo pelo pescoço na bainha carotídea, lateralmente às artérias carótidas interna e comum e medialmente à veia jugular interna, aí permanecendo até chegar à cavidade torácica e, posteriormente, na cavidade abdominal. Neste longo trajeto, o nervo vago dá origem a numerosos ramos, como:
- O nervo auricular, que fornece pequena inervação à parte do pavilhão da orelha e ao meato acústico externo;
- O nervo meníngeo, que inerva parte da dura-máter da fossa posterior;
- Os nervos faríngeos, que emitem pequenos ramos terminais em direção à superfície anterior da faringe, formando o plexo faríngeo;
- O nervo laríngeo superior, que se divide em laríngeo interno, para inervação sensorial da mucosa da laringe e das cordas vocais, e laríngeo externo, que inerva o músculo constritor da faringe inferior e o músculo cricotireóideo da laringe;
- Os nervos laríngeos recorrentes, que, após terem um trajeto descendente até as artérias subclávia e arco aórtico, sobem e inervam toda a musculatura intrínseca da laringe (com exceção do músculo cricotireóideo), a traqueia e o esôfago.
A respeito dos
núcleos do vago cabe salientar a presença do núcleo ambíguo e do núcleo motor
do vago.
O núcleo dorsal
do vago está situado no bulbo, no nível do trígono do vago no assoalho do
quarto ventrículo, em posição posterolateral ao núcleo do hipoglosso. Essa
coluna de células estende-se tanto rostral como caudalmente, além do núcleo do
hipoglosso, enviando fibras pré-ganglionares que fazem sinapse em gânglios das
vísceras torácicas e abdominais. Células desse núcleo dão origem às fibras
pré-ganglionares parassimpáticas. Axônios dessas células emergem da superfície
lateral do bulbo, atravessando o trato espinal do trigêmeo e o respectivo
núcleo.
O nervo vago
possui além das conexões aferentes ao trato solitário, por meio do gânglio
jugular cujas fibras se projetam no trato solitário, apresenta também fibras
motoras branquiais, que têm origem no núcleo ambíguo, e fibras viscerais
parassimpáticas, responsáveis pela inervação das vísceras torácicas e
abdominais.
Cabe ressaltar
que o núcleo ambíguo contém todos os neurônios motores que inervam todos os
músculos da faringe e da laringe, e que o nervo vago inerva toda essa
musculatura, exceto os músculos estilofaríngeo e tensor do véu do paladar.
Assim, o núcleo ambíguo é de importância crucial para o controle da fala e da
deglutição.
3.
Funções do
nervo vago
O nervo vago, com fibras do núcleo dorsal do vago, supre a inervação parassimpática das glândulas e mucosas da laringe, assim como de todas as vísceras torácicas e abdominais, exceto o cólon descendente e sigmoide, reto e ânus.
Além disso, é o responsável pela sensibilidade gustativa da epiglote, sensibilidade geral para o revestimento mucoso da faringe, laringe e palato mole, além da inervação do corpo carotídeo, assim como a inervação dos quimiorreceptores dos corpúsculos aórticos e barorreceptores do arco aórtico, com fibras que se dirigem ao núcleo do trato solitário.
O nervo vago,
junto com o glossofaríngeo, é o responsável pela inervação do pavilhão da
orelha e do canal auditivo externo, com fibras que se dirigem ao núcleo do
trato espinal do trigêmeo.
4.
Aplicação clínica
As lesões do
nervo vago proporcionam mais comumente paresias (perda parcial da motricidade)
e paralisias (perda da capacidade de movimento voluntário de um músculo) das
musculaturas faríngea e laríngea. Desse modo, é comum perceber nessas lesões
rouquidão (disfonia), dificuldade na deglutição (disfagia), queda do palato
mole do lado afetado e desvio da úvula em direção oposta ao lado da lesão
(sinal da cortina) e ausência do reflexo do vômito.
Por apresentar
importante e extensa inervação do trato respiratório inferior e superior e do
trato digestivo, destacam-se diversas neuropatias associadas à lesões nesse
nervo, como por exemplo: a neuropatia laringofaríngea crônica, doença
que acomete o trato respiratório e que associa sintomas como irritação
laríngea, irritação da garganta, disfonia, sensação de corpo estranho na
garganta, pigarro, estridor e sobretudo a tosse crônica; e a doença do
refluxo gastroesofágico, que hostiliza o trato digestório a partir da
diminuição da motilidade gástrica e o esvaziamento gástrico retardado.
Outras lesões
mais comuns do nervo vago, associadas ao nervo glossofaríngeo, são: na
paralisia motora unilateral com déficit sensorial – acidentes vasculares
cerebrais bulbares, tumores da fossa posterior, siringobulbia e processos
expansivos próximos ao forame jugular; na paralisia motora pura – poliomielite
e ações de toxinas; na paralisia bilateral do neurônio motor superior – doença
cerebrovascular bilateral (paralisia pseudobulbar), parkinsonismo avançado e
esclerose lateral amiotrófica; na paralisia bilateral do neurônio motor
inferior – poliomielite, ação de toxinas e paralisia bulbar progressiva; nos
déficits motores por fadiga.
5.
Conclusão
O estudo anatômico e fisiológico do nervo vago apresenta uma evidente importância clínica, uma vez que lesões nesse par craniano podem causar complicações severas em quase todas as vísceras torácicas e abdominais. Além disso, é de extrema relevância o seu perfeito estado de funcionamento para a continuidade da homeostase corporal, já que uma boa parte da sensibilidade dessas vísceras perpassa por este nervo, bem como os impulsos motores provenientes do núcleo ambíguo.
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Autor: Rhyan Coelho, Estudante de Medicina
Instagram: @rhyan_coelho