Com o agravo da pandemia de Covid-19 e o surgimento de novas cepas e variantes, foi vista a necessidade de intensificar as pesquisas acerca de tratamentos alternativos para a doença, além das vacinas já existentes. Nesse sentido, um estudo feito na Austrália por mais de vinte pesquisadores obteve resultado satisfatório na neutralização do vírus causador da Covid-19 através de nanocorpos produzidos por animais da família dos camelídeos, como lhamas, camelos e alpacas.
Como foi feito o experimento:

Fonte: https://www.frontliner.com.br/proteina-do-sars-cov-2-causa-danos-mesmo-sem-o-virus/
Sabe-se que o novo coronavírus tem sua superfície revestida por uma proteína chamada spike, esta proteína é que permite o encaixe, junção e entrada nas células hospedeiras através da ligação com o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). No estudo publicado em 11 de maio de 2021 no periódico PNAS, podemos ter acesso aos detalhes da pesquisa que se baseia no mecanismo de ligação entre a proteína e o ACE2 por meio do domínio de ligação do receptor (RBD). Os pesquisadores do Instituto Walter e Eliza Hall (WEHI), Instituto Peter Doherty e Instituto Kirby introduziram em duas alpacas uma versão não infecciosa e produzida em laboratório da proteína spike, o organismo delas foi capaz de reagir fabricando nanocorpos, um tipo de anticorpo minúsculo que essa família de animais produz.
O grupo de pesquisadores australianos extraiu a sequência genética que codifica os anticorpos para que pudessem replicar posteriormente em laboratório. Feito isto, observaram a dupla de nanocorpos que melhor neutralizou o vírus e as combinaram em um coquetel. Os anticorpos foram introduzidos em camundongos infectados com o SARS-CoV-2 e foram capazes de se ligar de maneira forte à proteína spike impedindo de modo satisfatório a ligação entre o RBD da proteína e o ACE2.
Os nanocorpos no combate ao vírus:
Depois de entender como a pesquisa aconteceu, pode surgir a seguinte pergunta: qual a aplicabilidade dos coquetéis de anticorpos?
Os cientistas esperam que os nanocorpos neutralizantes sejam utilizados, principalmente, por indivíduos com comprometimento do sistema imune ou aqueles que apresentam contraindicação para aplicação das vacinas existentes, como os que já sofreram reações alérgicas graves a um dos componentes dos imunizantes.
Além disso, também é possível que os coquetéis sejam potentes para prevenir surtos da doença em locais de alto risco de contaminação, como casas de idosos. Dessa forma, seria evitado que houvesse aumento repentino de casos em determinadas localidades, prevenindo que o vírus se espalhe novamente.
O diferencial dos anticorpos dos camelídeos
Pesquisadores da Universidade de Oxford usaram imagens avançadas com tecnologia de raio-x e microscópio eletrônico para estudar a ação dos anticorpos e puderam perceber que a ligação estabelecida entre os nanocorpos dos camelídeos e o RBD da proteína spike era nova e diferente de outros anticorpos que foram estudados anteriormente.
Além disso, os nanocorpos parecem ser ainda mais potentes quando combinados com o plasma convalescente utilizado para imunização passiva de indivíduos doentes. Tal plasma é coletado do sangue de indivíduos que contraíram Covid-19, se recuperaram e produziram anticorpos contra o vírus que podem ser usados como estratégia terapêutica para conter o avanço de quadros graves da doença.
Testes in vivo
Os pesquisadores envolvidos no estudo perceberam que a maioria dos nanocorpos mostraram eficácia satisfatório em testes in vitro, mas ainda precisavam ser testados mais vezes in vivo. Entretanto, o empecilho para a realização de tais testes é o fato de os anticorpos serem tão pequenos que acabam sendo excretados rapidamente através da urina. Uma das formas encontradas de contornar o problema da meia-vida dos nanocorpos foi realizar a fusão deles com proteínas maiores, mas os cientistas ainda precisam realizar testes nessa área.
Conclusão
Os avanços nas pesquisas com anticorpos tem sido cada vez mais promissores, trazendo uma outra alternativa de terapia contra o novo coronavírus. Entretanto, os cientistas por trás das pesquisas acreditam que ainda é necessário aprofundar o conhecimento acerca desses pequenos anticorpos antes que eles possam ser produzidos em larga escala. Enquanto isso, seguimos tomando todas as medidas necessárias e aguardando que toda a população seja vacinada o mais rápido possível.
Autora: Gabrielli Cantarino
Instagram: @gabicantarino
Referências
Engineered llama antibodies neutralize COVID-19 virus –
https://www.sciencedaily.com/releases/2020/07/200713104334.htm
Nanobody cocktails potently neutralize SARS-CoV-2 D614G N501Y variant and protect mice –
https://www.pnas.org/content/118/19/e2101918118
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