A infecção por Naegleria fowleri, que é relativamente rara, pode ser grave e potencialmente fatal. Saiba mais sobre o tema com o nosso artigo!
A Naegleria fowleri é um protozoário capaz de invadir oportunamente o corpo humano e provocar condições graves, muitas vezes fatais. Essa ameba de vida livre pode ser encontrada em lagos, rios e fontes termais, além de no solo.
Embora existam várias espécies de Naegleria, apenas a Naegleria fowleri tem a capacidade de afetar humanos e ainda há muito a conhecer sobre esse protozoário e como combatê-lo efetivamente.
Como ocorre a infecção?
A infecção ocorre, na maioria das vezes, quando um indivíduo está em regiões de água doce quentes como lagos, rios e lagoas, e a água que contém essa ameba adentra no corpo humano por meio do nariz.
Uma vez que a ameba penetra na mucosa nasal, ela tente a migrar para o encéfalo, onde começa a consumir tecidos e provocar a meningoencefalite amebiana primária – infecção quase sempre fatal. Sua ação justifica o nome de “ameba comedora de cérebros”.
Devido a gravidade que um quadro de infecção por Naegleria fowleri pode causar, preparamos esse resumo com tudo o que você precisa conhecer mais sobre essa ameba e como suspeitar de meningoencefalite amebiana primária.
Características da Naegleria fowleri
A Naegleria fowleri é uma ameba de vida livre que tende a prosperar em temperaturas quentes e permanecer em águas mornas, conforme o que já se conhece a partir de sua microbiologia.
Ela tem um crescimento acentuado e rápido na faixa de 46ºC.Porém, consegue sobreviver também em temperaturas mais altas, mesmo que por tempo mais curto.
A Naegleria fowleri pode chegar às meninges por meio do trato olfatório e da placa cribiforme e então se dissemina. Ao atingir as meninges, ela as destrói e segue em direção ao parênquima. Por isso recebe o nome de “ameba comedora de cérebros”.
Ela provoca edema, hemorragia e necrose no parênquima cerebral em poucos dias. Registros relatam a morte dos pacientes acometidos por essa infecção em até 7 dias.
Onde a ameba é encontrada?
Estudos apontam que ela pode ser não é encontrada em água salgada como a do mar, mas é relativamente comum de estar em:
- Lagos e rios ou outras formas de água doce quente;
- Fontes termais ou outras águas naturalmente quentes (águas geotérmicas);
- Fontes de água quente não tratadas;
- Descarga de água quente de usinas elétricas e/ou industriais;
- Aquecedores de água.
Existem poucas evidências da presença de Naegleria fowleri em locais recreativos como piscinas ou outros que não utilizem cloro na água ou estejam em mal estado de conservação.
A Naegleria fowleri se alimenta de bactérias encontradas nos sedimentos das águas que citamos anteriormente e se replica nas condições térmicas quentes.

Embora seja difícil diferenciar as espécies de Naegleria, apenas trofozoítos ameboides são encontrados nos tecidos. Infecções de outros agentes como Acanthamoeba e Balamuthia cursam cistos além de trofozoítos.

Epidemiologia e incidência em diferentes países e faixas etárias
É possível encontrar esse protozoário em águas doces e quentes por todo o mundo, especialmente em meses mais quentes do verão devido o calor e a propriedade termofílica que a Naegleria fowleri possui.
Incidência pelo mundo
Quanto a epidemiologia, o CDC Americano apenas teve o registro de 29 infecções nos Estados Unidos entre os anos de 2013 e 2022. Isso fez com que a infecção por Naegleria fowleri seja classificada como rara nessa população.
Dentre os indivíduos infectados, observou-se que a maioria das infecções ocorrem em adolescentes do sexo masculino, mas não foi determinado o motivo desse publico ser o mais afetado.
Especula-se que isso ocorra devido a maior propensão de garotos nessa idade se envolverem mais em atividades de lazer como mergulhar e/ou brincar próximo ou em lagos e rios onde a Naegleria fowleri está presente.
As mudanças climáticas que provocam o aumento da temperatura ao redor do mundo têm sido encaradas pela comunidade científica como um fator que desencadeia preocupação em relação a possibilidade de proliferação e o aumento de casos.
Incidência no Brasil
No contexto do Brasil, em entrevista concedida ao jornal O Globo, a parasitologista Denise Leal dos Santos, afirmou que ocorreram dois casos registrados de infecção por Naegleria fowleri em bovinos no Rio Grande do Sul.
Na mesma entrevista, foi aventada a possibilidade da existência de casos subnotificados em território nacional, sendo importante que a comunidade médica esteja ciente da existência dessa infecção no país.
Fatores de risco para a contaminação por Naegleria fowleri
Por conta das características relacionadas ao ambiente de desenvolvimento e proliferação da Naegleria fowleri, segundo o Centers for Disease Control and Prevention, o CDC, dois grupos podem apresentar maior risco:
- Nadadores e mergulhadores, devido o contato com água potencialmente contaminada;
- Pessoas que realizam a lavagem nasal com água contaminada derivada de lagos e rios.
Manifestações clínicas e complicações pela infecção por Naegleria fowleri
A infecção por Naegleria fowleri é muito rara, como vimos.
Seus primeiros sintomas são bem similares ao da meningite bacteriana, incluindo:
- Dor de cabeça;
- Febre súbita;
- Vômito;
- Rigidez de nuca.
Outros sintomas como dor de garganta, entupimento nasal com alteração do paladar e do olfato também podem estar presentes.
Alguns pacientes também tiveram um quadro de ceratite amebiana associada a meningoencefalite amebiana primária. Esse tipo de ceratite é muito rara e trata-se de uma infecção da córnea.
De forma geral, entre as amebas que podem provocar ceratites, a mais comum é a espécie Acanthamoeba.
A história do paciente ajuda a pensar mais nessa infecção quando existe o relato de contato recente com água doce e morna.
A recomendação por buscar atendimento médico em caso de sintomas como o da meningite bacteriana é a primeira medida recomendada.
Vale destacar ainda que ela tem a potencialidade de atingir indivíduos de qualquer idade e saudáveis, sem nenhum tipo de fragilidade imunológica.
Como diagnosticar uma infecção por Naegleria fowleri?
Para realizar o diagnóstico da infecção, de forma geral, é recomendado colher amostra do líquido espinhal, seguindo o método de coleta estéril e submetendo a amostra a exame microscópico, direto a fresco ou com coloração permanente e a cultura.
Além disso, pode-se realizar uma punção venosa, buscando pela sorologia e o PCR.
Desses métodos, o esfregaço e o concentrado de líquido cefalorraquidiano são os padrões para a detecção de trofozoítos da Naegleria fowleri.
Nessas condições, o líquor cefalorraquidiano pode ser encontrado com muitos eritrócitos, amebas móveis e ter característica purulenta.
É importante que sejam realizados exames de imagem como uma ressonância magnética ou tomografia computadorizada para descartar outras possíveis causas de infecção, embora não seja possível ver os trofozoítos por esses métodos.
Dessa forma, a meningoencefalite amebiana primária entra na lista de possíveis diagnósticos diferenciais de meningite e não necessariamente como hipótese principal.
Contaminação por Naegleria fowleri: como prevenir?
Não existe teste padronizado e rápido para identificar a contaminação de rios e lagos.
As investigações ambientais para encontrar a Naegleria fowleri na água podem demorar semanas, mas sabe-se que ela é mais comum em água doce quente.
Por conta disso, as ações preventivas se concentram em instruções gerais para evitar que a água suba pelo nariz. Para isso, algumas sugestões são:
- Evitar pular ou mergulhar em águas doces quentes durante o verão;
- Utilizar clipes nasais ou manter a cabeça acima da água nesse contexto;
- Evitar colocar a cabeça debaixo de águas de fontes termais ou qualquer outra fonte de água geotérmica (isto é, águas naturalmente aquecidas);
- Evitar cavar ou agitar os sedimentos depositados no fundo de lagoas, lagos e rios.
Abordagem terapêutica para o paciente com infecção por Naegleria fowleri
Devido a progressão rápida da infecção e a baixa incidência de casos, não foi possível encontrar um tratamento realmente eficaz.
Conforme a literatura atual, apenas 4 de 157 indivíduos infectados sobreviveram, fazendo com que a taxa de mortalidade pela infecção esteja estimada em superior a 97%.
Por conta disso, a meningoencefalite amebiana primária é tratada com uma combinação de medicamentos, os quais estão inclusos:
- Dexametasona;
- Fluconazol;
- Rifampicina;
- Azitromicina;
- Anfotericina B;
- Miltefosina
Dentre esses medicamentos, a miltefosina é o mais novo dentre os pesquisados para a finalidade de tratar essa forma de meningite.
A miltefosina é utilizada no tratamento da leishmaniose, sendo eficaz no tratamento das formas viscerais, mucocutânea e cutânea e é utilizada em associação com a anfotericina B.
É importante ressaltar que a miltefosina tem efeito teratogênico conhecido, sendo necessário proceder com muita cautela diante do seu uso em gestantes. Contudo, pela gravidade da infecção e a alta possibilidade de óbito, a prioridade deve ser realizar o tratamento.
Segundo o CDC, o uso da miltefosina em laboratório foi eficaz contra a Naegleria fowleri e tem sido usada para tratar três pacientes que sobreviveram à infecção.
Contudo, não há dose padrão para nenhum desses medicamentos diante a infecção, sendo necessário avaliar caso a caso de forma individual.

Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (cdc.gov)
- Ameba comedora de cérebros: ‘Podemos ter casos no Brasil não diagnosticados’, diz parasitologista (globo.com)
- Siqueira-Batista R, Gomes AP, Oddó BD, Viana LEO,Pinto RCT, Braga BD, Rôças G, Geller M, Antonio VE. Neuroinfecção por Naegleria fowleri: aspectos clínico-terapêuticos, epidemiológicos e ecológicos. Revista Neurociências, n. 15, 310-316, 2007.
- GOERING, R. V. Mims microbiologia e imunologia. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
- MURRAY, Patrick R; ROSENTHAL, Ken S.; PFALLER, Michael A. Microbiologia médica. 8. ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. 848 p.: il.; 27 cm
- TORTORA, G.J., FUNKE, B.R., CASE, C.L. Microbiologia,10ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. 967p.
- Siqueira Batista R, Gomes AP, Santos SS, Almeida LC, Figueiredo CES, Pacheco SJB. Manual de Infectologia. Rio de Janeiro: Editora Revinter, 2003, 578 p.
- Wiwannitkit V. Review of clinical presentations in Thai patients with primary amoebic meningoencephalitis. Med Gen Med 2004;6(1):2.
Sugestão de leitura complementar
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