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Mudanças na saúde mental e as medidas de conter o coronavírus | Colunistas

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Entenda como a saúde mental tem sido afetada durante o período das medidas contra o covid. “O sentimento que prevalece neste momento é o medo”.

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou situação pandêmica e estado de emergência, de saúde pública de interesse internacional, a infecção causada pelo SARS-CoV-2, conhecida como COVID-19 ou doença pelo novo coronavírus.

Contudo, as infecções causadas pela espécie coronavírus são conhecidas desde a década de 1960, sendo sete os tipos de vírus dessa espécie com potencial de infecção em humanos, e três com risco de gravidade a nível respiratório, dentre os quais o responsável pela atual pandemia.

O SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome) foi detectado em dezembro de 2019 em Wuhan, capital da província de Hubei, na China, e espalhou-se de forma acelerada e indiscriminada pelo mundo nos últimos meses. Até a presente data, 06 de abril de 2021, foram diagnosticados 13.013.601 casos e 336.947 mortes, no Brasil.

Medidas de contenção da COVID-19 e a saúde mental

No intuito de conter a disseminação da COVID-19, foram efetivadas diversas manobras, dentre elas a orientação ao isolamento domiciliar, lockdown do comércio, igrejas, escolas e outras instituições, proibiu-se aglomerações públicas e ou familiares.

Dentro deste cenário, ou apesar deste cenário, se viu o aumento progressivo do número de casos, de pessoas com sequelas pós-Covid, e óbitos.

Dados de 2020 mostram um aumento de cerca de 80% nos quadros de ansiedade. Levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 23 estados mostra que os casos de depressão aumentaram 90% já no início da pandemia no Brasil.

A doença é a principal causa de suicídio, seguida pelo transtorno bipolar e abuso de substâncias. Em suma, 96,8% das mortes por suicídio estão relacionadas a transtornos mentais.(2)

Efeitos sobre as restrições

Os efeitos de uma realidade de restrições, em meio às drásticas mudanças, começam a se tornar evidentes e intensificam a discussão de uma quarta onda da doença: a emergência de saúde mental como consequência da crise sanitária.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que quase 1 bilhão de pessoas vivem com transtorno mental, 3 milhões morrem todos os anos devido ao uso nocivo de álcool, e uma pessoa morre a cada 40 segundos por suicídio. Com os reflexos da pandemia, os números devem piorar.(3)

A separação da pandemia em ondas foi inicialmente proposta pelo pneumologista do Hospital Universitário Emory, em Atlanta (EUA), Victor Tseng. Na definição do médico, a quarta onda se dá com o adoecimento mental da sociedade, quando uma série de doenças provocadas pelas mudanças bruscas e pelo medo da covid-19 geram consequências na saúde mental. Esse estágio é antecedido por outras três ondas.(2)

A primeira se trata da pandemia em si, com os adoecimentos e mortes pelo vírus. Já a segunda, refere-se ao colapso do sistema de saúde, com a superlotação dos hospitais e a incapacidade de atendimento a todos os doentes do novo coronavírus. A terceira está relacionada ao agravamento de outras doenças crônicas pelo não tratamento durante a pandemia, fazendo com que pacientes que deixaram de lado os cuidados e consultas rotineiras em razão do isolamento social piorem o quadro clínico ou até mesmo morram.(2)

As ondas, no entanto, podem ocorrer concomitantemente, como explica o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva. O médico destaca que a quarta onda teve início quando ocorreram as primeiras mortes por covid-19. “É o momento em que começam as restrições de liberdade”, pontua.

“As ondas dão uma subida e, depois, começam a cair, porém, a quarta onda começa ali, ainda na primeira onda, quando começam as mortes, perdas e restrições; e continua subindo. Isso ocorre porque as doenças mentais, quando desencadeadas, permanecem por meses e, em alguns casos, por anos. Ela não vai cair, ela faz um platô e se mantém.”

Casos de crises ou surtos de ansiedade

Casos de crises ou surtos de ansiedade e estresse são demandas cada vez mais frequentes nos consultórios. De acordo com uma pesquisa realizada em maio de 2020, pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 47,9% dos psiquiatras entrevistados perceberam haver um aumento nos atendimentos realizados após o início da crise.

Vale destacar, ainda, que 89,2% dos médicos entrevistados relataram agravamento de quadros psiquiátricos nos pacientes.

O levantamento revelou, também, que 67,8% dos entrevistados receberam novos pacientes após o início da pandemia. Outros 69,3% atenderam a pacientes que já haviam recebido alta médica. A pesquisa ouviu psiquiatras de 23 estados e do Distrito Federal.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, entre os pontos negativos para o adoecimento mental está a falta de espaço, infraestrutura para trabalho, instabilidade econômica, atividade física, luz solar, rotina, restrição de interações sociais e restrição de liberdade. “A sociabilidade é fator protetor para as doenças mentais”.(2)

É importante perceber que as pessoas reagem de maneira diferente a situações estressantes. Como cada um responde à pandemia pode depender de sua formação, da sua história de vida, das suas características particulares e da comunidade em que vive.

Os grupos que podem responder mais intensamente ao estresse de uma crise incluem pessoas idosas ou com doenças crônicas que apresentam maior risco se tiverem Covid-19, profissionais de saúde que trabalham no atendimento à Covid-19, pessoas que têm transtornos mentais, incluindo problemas relacionados ao uso de substâncias. (4)

O aumento dos sintomas psíquicos e dos transtornos mentais durante a pandemia pode ocorrer por diversas causas. Dentre elas, pode-se destacar a ação direta do vírus da Covid-19 no sistema nervoso central, as experiências traumáticas associadas à infeção ou à morte de pessoas próximas, o estresse induzido pela mudança na rotina devido às medidas de distanciamento social ou pelas consequências econômicas, na rotina de trabalho ou nas relações afetivas e, por fim, a interrupção de tratamento por dificuldades de acesso.(4)

Algumas reações são comuns

  • Medo de ficar doente e morrer;  
  • evitação de procurar um serviço de saúde por outros motivos, por receio de se contaminar;
  • preocupação com a obtenção de alimentos, remédios ou suprimentos pessoais;  
  • medo de perder a fonte de renda, por não poder trabalhar, ou ser demitido;
  •  alterações do sono, da concentração nas tarefas diárias, ou aparecimento de pensamentos intrusivos;
  •  sentimentos de desesperança, tédio, solidão e depressão devido ao isolamento;
  • raiva, frustração ou irritabilidade pela perda de autonomia e liberdade pessoal;
  • medo de ser socialmente excluído ou estigmatizado por ter ficado doente;
  • sentir-se impotente em proteger as pessoas próximas, ou medo de ser separado de familiares por motivo de quarentena/isolamento;
  • preocupação com a possibilidade de o indivíduo ou de membros de sua família contraírem a Covid-19 ou a transmitirem a outros;
  • receio pelas crianças em casa não receberem cuidados adequados em caso de necessidade de isolamento;
  • risco de deterioração de doenças clínicas e de transtornos mentais prévios ou, ainda, do desencadeamento de transtornos mentais;
  • risco de adoecimento de profissionais de saúde sem ter substituição adequada;
  • medo, ansiedade ou outras reações de estresse ligadas a notícias falsas, alarmistas ou sensacionalistas, e mesmo ao grande volume de informações circulando.

Nesse período de pandemia, além da incerteza e do medo, vêm também os agravos por não poder despedir-se de seus entes queridos de maneira adequada, dificultando assim a vivência do luto e fazendo com que haja propensão ao transtorno do estresse pós-traumático.

Mudanças no cotidiano das pessoas

 Ocorreram diversas mudanças no que tange a vida cotidiana, a rotina considerada normal. Tentamos recondicionar essa visão do presente e amenizar os efeitos de tudo isso repetindo a nós mesmos que, pra atual circunstância é o “novo normal”.

Talvez estejamos tentando minimizar os efeitos? Talvez estejamos utilizando tal colocação para nos dar uma perspectiva de futuro? Tudo isso é possível, porém, o que nos cabe enquanto humanos e profissionais da saúde é ter sensibilidade suficiente para reconhecer os sinais de que talvez o indivíduo a nossa frente esteja vivendo o que costumo chamar de transtorno do estresse pós-Covid-19.

Este nada mais é que um transtorno caracterizado por efeitos psíquicos após a pandemia ou pós-infecção por Sars-cov-2, são sintomas correspondentes ou parecidos com os de uma crise de ansiedade, o que pode incluir sensação de medo intenso, relacionado à contaminação pessoal, familiar e ou profissionais de saúde pelo novo coronavírus, acrescido de alguns dos seguintes sintomas:

  • aumento da transpiração
  • insônia
  • cansaço
  • agitação
  • irritabilidade
  • dificuldade de concentração, 
  • tensão muscular,
  • boca seca,
  • taquicardia,
  • dispneia,
  • anedonia.

Tratamento

Tal transtorno necessita de adequado acolhimento, acompanhamento terapêutico e, em sua maioria, de medicamento de controle especial, e uma abordagem o mais completa possível, buscando identificar os principais pontos, sejam sociais, econômicos, familiares, ideação/tentativa de suicídio, e outros mais associados a clínica.

Quanto à duração do tratamento e possíveis complicações, não se pode estabelecer ou afirmar uma vez que a pandemia e suas complicações a nível de saúde, econômico e social e os efeitos devastadores no núcleo familiar ainda não se podem mensurar ou prever. Enquanto durar a pandemia, precisaremos seguir nos adaptando e tentando da maneira mais resolutiva possível lidar com as mudanças e danos.

Autor: Dr. Carlos Eduardo de Oliveira

Instagram: drcarloseduardooliveira2018


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

1.      https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/download/1007/1437/1521

2.      Correio braziliense, n. 20924, 06/09/2020. Brasil, p. 6

3.      https://anec.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Realidades-e-Desafios-do-Assistente-Social-frente-a%CC%80-Pandemia-05.11.20.pdf

4.      http://bvsms.saude.gov.br/ultimas-noticias/3427-saude-mental-e-a-pandemia-de-covid-19

5.      MAGALHÃES, Ricardo Antonio. GARCIA, July Mesquita Mendes. Efeitos Psicológicos do Isolamento Social no Brasil durante a pandemia de COVID-19. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 01, Vol. 01, pp. 18-33. Janeiro de 2021.

6.      https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#transmissao

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