Nos últimos dois anos, a tirzepatida (Mounjaro) tornou-se um dos medicamentos mais comentados tanto na endocrinologia quanto na psiquiatria, impulsionada por resultados expressivos em perda de peso e melhora metabólica. Desenvolvida inicialmente para diabetes tipo 2, rapidamente passou a ser vista como uma das intervenções mais potentes para manejo da obesidade, superando a eficácia de agonistas de GLP-1 isolados. Como resultado, a procura cresceu de forma acentuada em diversos países.
Esse fenômeno — amplificado por redes sociais e pela divulgação de relatos de supressão acentuada de apetite ou redução do chamado food noise — consolidou a tirzepatida como a “nova febre” entre pacientes que buscam alternativas farmacológicas para controle de peso ou de compulsões alimentares. Esse contexto reforça a necessidade de esclarecer o papel de Mounjaro no transtorno de compulsão alimentar.
Além disso, o entusiasmo social e clínico levou muitos pacientes a buscar Mounjaro no transtorno de compulsão alimentar como solução rápida. No entanto, essa é uma indicação off-label e sustentada apenas por evidências iniciais. Portanto, torna-se essencial separar expectativas populares dos dados científicos disponíveis. Também é importante entender os mecanismos envolvidos e avaliar possíveis impactos comportamentais e psiquiátricos do uso da tirzepatida.
O texto a seguir sintetiza o que se sabe sobre TCA, seus tratamentos consolidados e o que estudos emergentes indicam — ou ainda não elucidam — sobre a aplicação da tirzepatida no manejo dessa condição.
Conceitos fundamentais e diagnóstico
O Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) é caracterizado por episódios recorrentes de ingestão exagerada de alimentos acompanhados de perda de controle, ocorrendo em média ≥1 vez/semana por 3 meses. O TCA não envolve comportamentos compensatórios, distinguindo-se da bulimia nervosa.
Além disso, é o transtorno alimentar específico mais prevalente. Ele também costuma coexistir com TDAH, depressão, transtorno bipolar, ansiedade, uso de álcool, tabagismo e obesidade. Por isso, o cuidado deve sempre integrar os componentes psiquiátricos e metabólicos.
Tratamentos validados
A Terapia Cognitivo-Comportamental é o tratamento de primeira linha. Ela reduz episódios compulsivos e melhora o sofrimento associado. No campo medicamentoso, a lisdexanfetamina é o fármaco aprovado para TCA em alguns países. O topiramato também apresenta bons resultados.
O manejo das comorbidades é essencial.
• Para TDAH: atomoxetina e lisdexanfetamina.
• Para depressão e ansiedade: ISRS e IRSN.
• Para transtorno bipolar: aripiprazol, lamotrigina, lurasidona e lumateperona.
• Para uso de álcool: naltrexona.
• Para tabagismo: bupropiona.
• Para obesidade: liraglutida, semaglutida e bupropiona-naltrexona.
Por outro lado, medicamentos que induzem ganho de peso, como olanzapina, clozapina, mirtazapina, tricíclicos e valproato, devem ser evitados, pois podem agravar o TCA.
Tirzepatida e regulação alimentar
A tirzepatida, agonista dual GIP/GLP-1, reduz ingestão calórica, apetite e responsividade a estímulos alimentares em estudos metabólicos iniciais. Embora ainda seja incerto se agonistas triplo-hormonais ou dual-hormonais como tirzepatida e retatrutida podem tratar diretamente o TCA, estudos preliminares relatam redução de compulsões em indivíduos com obesidade ou sobrepeso — sugerindo mecanismo potencialmente útil, mas ainda sem evidência robusta suficiente para recomendação formal.
Efeitos neurocomportamentais e considerações psiquiátricas
A tirzepatida afeta circuitos de recompensa, reduz craving e diminui a ativação do estriado ventral — mecanismos que explicam por que alguns pacientes relatam melhora ao usar Mounjaro no transtorno de compulsão alimentar. No entanto, essa modulação pode ser temporária. Alguns pacientes relatam retorno gradual das compulsões após semanas de estabilização da dose.
Além disso, incretinomiméticos podem modificar aspectos emocionais e corporais. Muitas pessoas percebem melhora na relação com a comida. Por outro lado, pessoas com histórico de transtornos alimentares podem apresentar risco de restrição excessiva, aumento da preocupação com o peso ou instabilidade emocional.
Até agora, não existe evidência de que Mounjaro aumente risco de comportamento suicida. Mesmo assim, é fundamental monitorar pacientes com vulnerabilidades psiquiátricas.
Síntese clínica: quando considerar Mounjaro no TCA
O uso de Mounjaro no transtorno de compulsão alimentar deve ser excepcional. Ele pode ser considerado apenas em casos bem selecionados, dentro de um plano multidisciplinar com acompanhamento psicológico e nutricional. Além disso, é essencial explicar ao paciente que se trata de uma indicação experimental. Os estudos ainda são preliminares e os resultados, incertos.
A decisão terapêutica precisa incluir:
• análise individualizada de riscos e benefícios;
• monitorização contínua;
• definição clara de objetivos;
• comunicação transparente sobre limitações e expectativas.
Referências
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