Confira um artigo completo que falamos sobre Moscas e Miíases para esclarecer todas as suas dúvidas. Ao final, confira alguns materiais educativos para complementar ainda mais os seus estudos.
Boa leitura!
Moscas e Miíases: Introdução
Com exceção feita aos mosquitos, os dípteros mais importantes para a medicina humana e veterinária encontram-se na infraordem Muscomorpha, principalmente na secção Calyptratae. O representante clássico deste grupo é Musca domestica, praga importante para saúde pública por frequentar ambientes insalubres, pousar sobre alimentos e utensílios domésticos, veiculando bactérias, vírus, cistos e oocistos de protozoários, além de ovos e larvas de nematódeos.
SE LIGA! O estudo tanto da Musca domestica, como o de outras espécies importantes para agropecuária, foge dos propósitos deste material. Apenas moscas cujas larvas se alimentam de tecidos humanos causando miíases, aplicáveis na terapia larval ou larvária ou na entomologia forense serão aqui descritas.
Moscas
O ciclo vital das moscas é holometábolo e compreende as fases de ovo, larva (três estágios, alcançados por meio de ecdises), pupa e imago (adulto alado). As fêmeas das moscas estudadas neste material botam os ovos no meio exterior, onde eles se desenvolvem; a única exceção são as moscas Sarcophagidae, que parem larvas de primeiro estágio.

Imagem: Organização externa geral dos insetos e estruturas características de muscomorfas. A. Diagrama de inseto primitivo, mostrando a segmentação da cabeça, tórax e abdome. B. Cabeça típica de um muscomorfa. C. Asa típica de um muscomorfa, mostrando a venação e os lóbulos bem desenvolvidos situados na base das asas de insetos da secção Calyptratae, denominados calíptera (= caliptra ou esquama) Fonte: Parasitologia Contemporânea, 2017.
O estudo dos dípteros muscoides está novamente tomando grande impulso, tendo em vista não somente a capacidade de algumas larvas de causar miíases, bem como dos adultos de veicular inúmeros patógenos para homens e animais domésticos.
Dentre os estudos atuais, ainda destacam-se os que focam a dispersão e a sinantropia (associação entre homens, animais e meio ambiente), emergindo um interesse progressivo também no uso de dípteros para atender a questões dentro dos âmbitos forense e terapêutico (esta última denominada terapia larval), com especial ênfase às espécies pertencentes as famílias Calliphoridae, Sarcophagidae, Muscidae, Fanniidae e Anthomiidae.
Miíases
Entende-se por miíase “a infestação de vertebrados vivos por larvas de dípteros que, pelo menos durante certo período, se alimentam dos tecidos vivos ou mortos do hospedeiro, de suas substâncias corporais líquidas ou do alimento por ele ingerido”. Assim, larvas de moscas que completam seu ciclo, ou pelo menos parte do seu desenvolvimento normal dentro ou sobre o corpo de um hospedeiro vertebrado, podem ser classificadas como causadoras de miíases.
A incidência de miíases humanas em nosso meio não é muito elevada, mas em algumas regiões podem provocar sérios danos nos homens e animais domésticos. O termo miíase tem essa etimologia: myia = moscas; ase = doença. No meio mais popular, as infestações por miíases são conhecidas como “bicheiras”.
Classificação
Existem várias classificações para miíases, conforme seja a localização, a biologia da mosca e o tipo do tecido em que ocorre.
Quanto ao local de ocorrência, elas podem ser: cutânea, subcutânea, cavitárias (nariz, boca, seios paranasais), ocular, anal, vaginal etc. Esta classificação, por agrupar espécies biologicamente distintas sob o mesmo termo e por não levar em conta o diagnóstico do agente causador da miíase, tem sido pouco usada, mais recorrente na rotina clínica.
Já a classificação com base nas características biológicas da mosca é mais aceita atualmente e divide as miíases em: obrigatórias, facultativas e pseudomiíases.
As miíases obrigatórias também são conhecidas por miíases primárias. São as miíases causadas por larvas de dípteros que naturalmente se desenvolvem sobre ou dentro de vertebrados vivos. Neste grupo estão incluídas as seguintes famílias de moscas no Brasil:
Calliphoridae (gêneros Cochliomyia, Chrysomya e Lucilia – as quais podem ser encontradas nos tecidos cutâneo e subcutâneo de vários mamíferos), Muscidae (gênero Philornis – as larvas podem ser vistas nos tecidos cutâneo e subcutâneo de aves, ou ainda raras espécies hematófagas) e Oestridae (gêneros Cuterebra, Dermatobia, Hypoderma, Gasterophilus e Oestrus – nos três primeiros gêneros as larvas são encontradas nos tecidos cutâneo e subcutâneo de vários mamíferos, em Gasterophilus as larvas estão comumente associadas ao aparelho digestório de cavalos e outros mamíferos, e em Oestrus as larvas são vistas desenvolvendo-se nas cavidades nasofaríngeas de vários mamíferos). Antes eram denominadas moscas biontófagas.
As miíases facultativas também são conhecidas por miíases secundárias. São as miíases causadas por larvas de dípteros que, em geral, desenvolvem-se em matéria orgânica em decomposição (vida livre), mas eventualmente e oportunamente podem atingir tecidos necrosados de um hospedeiro vivo. Nessa situação, atuam como parasitos, podendo completar o seu ciclo biológico. Neste grupo estão várias espécies das famílias Calliphoridae, Fanniidae, Muscidae e Sarcophagidae. Essas moscas eram chamadas de necrobiontófagas anteriormente.
As pseudomiíases são as ocasionadas por larvas de dípteros ingeridos com alimentos e que passam pelo tubo digestório sem se desenvolver, contudo podem ocasionar distúrbios de maior ou menor gravidade.
Dentre as espécies mais comuns têm sido relatadas: Psychoda sp. (Psychodidae, conhecido como mosquitinho do banheiro), Eristalis tenax e Ornidia obesa (Syrphidae, larvas que apresentam um tipo de “cauda” característica), Hermetia illuscens (Stratiomyidae, “larva da laranja” usada para pesca), Musca domestica (Muscidae), Ceratitis spp. (Tephritidae, conhecida como mosca-das-frutas, ou também “bicho da goiaba”), entre outros. Anteriormente essa miíase era denominada como do tipo “acidental”.