A covid-19 fragilizou o Brasil em todos os seus setores, principalmente no referente à saúde. Desde 2019, com o início do que viria a ser uma pandemia de quase 2 anos, todas as alas da saúde, principalmente do SUS, se ajustaram para conter e gerir cuidados, quase que exclusivamente, aos pacientes infectados pelo Sars-CoV-2. Entre essa mudança protocolar nas unidades e redes de saúde, muitos brasileiros foram sujeitos a uma mudança drástica ao acesso da mesma, que antes eram amplamente abrangentes, mas se tornaram utilizáveis apenas em casos realmente necessários ou em decorrência do próprio vírus. Neste artigo será correlacionado o aumento de Doenças Cardiovasculares (DCV) neste período de pandemia, expondo os principais fatores associado a essa inflação de diagnósticos e como essa situação está atrelada a cofatores que vão além da promoção de saúde em si.
Doença Cardiovasculares
O Brasil é um vasto país, que embora seja rico étnicamente, apresenta uma discrepância socioeconômica que reflete entre muitos fatores, na mortalidade decorrente de doenças não transmissíveis, como as doenças Cardiovasculares (DCV). No geral, as DCV são responsáveis por um total de vinte por cento de todas as mortes na população brasileira (em cidadãos acima de 30 anos), sendo o sul e o sudeste responsáveis pelas maiores taxas do país. No ano de 2010 cerca de 73,9% dos óbitos foram em decorrência de agravos CV.
O perfil epidemiológico da doença se associa a uma relação multifatorial, entre influenciadores externos como; fumo, sedentarismo, idade (para homens acima de 45 anos e mulheres acima de 55 anos), obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial e dislipidemias, e a fatores genéticos. As principais complicações encontradas na porta de entrada ao atendimento emergencial são: cardiopatia isquêmica, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca. É perceptível o aumento dos óbitos por DCV, já que de acordo com Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), o total de óbitos por DCV variou de 261 mil, em 2000, para 359 mil, em 2017.
Covid sob seu temido pedestal
Sabe-se que os efeitos da covid-19 podem estar atrelados a fisiopatologias cardiovasculares, mas que são casos menos recorrentes que as patologias respiratórias. Durante a pandemia do SARS-CoV-2, houve um aumento de mortalidade causada por doenças cardiovasculares. O Brasil é o quinto país com mais mortes por COVID-19. As medidas restritivas feitas para a tentativa de conter a propagação do vírus trouxeram aos Brasileiros, muitas mudanças cotidianas e, algumas delas, tornaram-se fator precursor para o aumento de mortes por doenças cardiovasculares. O acesso às redes integrativas de saúde tornou-se menor com o avanço da pandemia, esse fator está associado a monopolização das estruturas e atendimentos amplamente voltados para pacientes com covid.
As consultas rotineiras e exames eletivos foram realocados, assim como os acompanhamentos longilíneos de pacientes previamente tratados, a baixa adesão aos tratamentos e consultas também são resultado da catastrófica disseminação e contaminação do vírus, confirmado quando 4 a cada 10 pacientes deixaram de ir em busca de tratamentos médicos. Desde o começo da pandemia, em 2019, é evidente um decréscimo de 15% no índice de internações hospitalares e de 9% de óbitos em ambiente hospitalar decorrente de DCV (entre março e maio de 2020), ambos decorrentes em pacientes na faixa etária de 20-59 anos.

Fonte: https://www.scielo.br/j/abc/a/YNHQRxqZLCMZVYt7qyPcxSF/?format=pdf
Fonte: https://www.scielo.br/j/abc/a/YNHQRxqZLCMZVYt7qyPcxSF/?format=pdf
Um dos fatores mais preocupantes se evidenciou com aumento drástico (figura 2) de pacientes que vieram a óbito devido a letalidade e fatalidade do quadro de DCV. No começo da pandemia é notório o decréscimo de internações associado à letalidade em pacientes cardiopatas, isso é reflexo do planejamento inadequado de gestão dos cuidados à estes pacientes, pois quando se lida com uma população já com altas porcentagem de cardiopatias, faz-se necessário o contínuo atendimento, mesmo em cenário epidêmico.
Fonte: https://www.scielo.br/j/abc/a/YNHQRxqZLCMZVYt7qyPcxSF/?format=pdf
A saúde é um conjunto.
A base da saúde vai além de medicamentos e centros de atenção, mas começa em níveis básicos como educação e tecnologia. A gestão de recursos financeiros e investimentos, entre tantos pontos negativos, anunciou em meados de março de 2021, o corte de verbas, em áreas centrais, para combate ao covid-19 . De acordo com a proposta, as áreas de ciências e tecnologia, foram os principais setores prejudicados com tal ação. A ideia de corte e não investimento em áreas da tecnologia e desenvolvimento colocou o Brasil, inicialmente, no final da corrida contra o tempo, já que o país não conseguirá investir na fabricação da vacina, e naquela fase somente 8% da população já estava vacinada.
As medidas restritivas apresentadas desde o começo da quarentena, indagaram a necessidade de procurar assistência médica somente em casos urgentes, além, é claro, de muitos indícios sobre a necessidade do uso do ‘kit covid’. Isso refletiu no aumento de mortes por DCV em casa, além da falta de diagnóstico precoce em casos letais que tiveram acesso ao setor emergencial do SUS.
Conclusão
Sob a luz dos holofotes, o coronavírus colocou à prova qualquer sistema de saúde e planejamentos de cuidados ao paciente. Por um conjunto de fatores, as principais patologias, que vêm assombrando os brasileiros há décadas, foram colocadas de lado, instantaneamente. A pandemia trouxe muitas mudanças na estruturação do acesso ao cuidado médico e ao cotidiano do Brasileiro, mas não diminuiu os diagnósticos de DCV. A A promoção de acompanhamento e prevenção foram estagnados, pelo paciente apreensivo ao ter acesso à uma área onde casos positivos são tratados, por falta de profissionais capacitados ou em condições de exercerem sua profissão, por falta de investimentos governamentais e priorização das vidas e não de disputa partidária, mas acima de tudo, há muitos anos, pela base que o Brasil sempre se estabeleceu, onde a prevenção sempre foi a exceção e o tratamento a regra.
Autora: Maria Eduarda Garcia Viana Paiva
Instagram: @mariaduddag
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
título da página web – Excess of cardiovascular deaths during the COVID-19 pandemic in Brazilian capital cities https://heart.bmj.com/content/heartjnl/106/24/1898.full.pdf
Epidemiologia das Doenças Cardiovasculares no Brasil: A Verdade Escondida nos Números – https://www.scielo.br/j/abc/a/SDMMLfctRNHMFMsb5vm53qF/?lang=ptRedução na Hospitalização e Aumento na Mortalidade por Doenças Cardiovasculares durante a Pandemia da COVID-19 no Brasil – https://www.scielo.br/j/abc/a/YNHQRxqZLCMZVYt7qyPcxSF/?format=pdf