Monkeypox: confira o artigo da Dra. Maitê Dahdal sobre esse tema cada vez mais recorrente no campo da medicina.
Vamos imaginar João, um homem de 35 anos, previamente saudável, que chega à unidade de saúde relatando febre, cefaleia e uma erupção cutânea que evoluiu ao longo de cinco dias. As lesões cutâneas, inicialmente máculas, evoluíram para pústulas dolorosas, localizadas no rosto, palmas das mãos, plantas dos pés e, de forma especialmente incômoda, na região perianal, onde ele sentia desconforto e prurido intenso.
Além disso, João apresentava linfadenopatia inguinal palpável e dolorosa. Frente a esse quadro, a principal suspeita clínica foi de Mpox, anteriormente conhecida como varíola dos macacos.
O que é a Monkeypox?
A Mpox é uma infecção viral zoonótica causada pelo vírus Monkeypox (MPXV), pertencente à família Poxviridae. Embora tenha sido identificada pela primeira vez em macacos de laboratório em 1958, o primeiro caso humano foi registrado apenas em 1970, na República Democrática do Congo.
Assim, a despeito do nome, a maioria dos animais suscetíveis ao vírus são roedores, como ratos, e não macacos. Inicialmente restrita a algumas regiões da África, a Mpox ressurgiu em 2022 com um surto global, ressaltando a capacidade do vírus de se disseminar em populações fora das áreas endêmicas. Em 2024, a OMS voltou a expressar preocupação global devido a um novo surto e à identificação de uma nova cepa do vírus.
Epidemiologia e transmissão da Monkeypox
Você sabia que a transmissão do MPXV ocorre principalmente pelo contato próximo com lesões cutâneas, secreções respiratórias ou objetos contaminados? A transmissão sexual, embora ainda em estudo, é altamente provável, especialmente durante o surto recente, em que muitas das lesões têm sido observadas na área genital e perianal. Além disso, o MPXV pode ser transmitido verticalmente, ou seja, de mãe para filho, durante a gestação ou no parto.
Formas de transmissão
- Entre seres humanos:
- Contato próximo com lesões cutâneas, secreções respiratórias ou objetos recentemente contaminados.
- Contato prolongado, face a face, com secreções respiratórias.
- Transmissão vertical (transplacentária ou durante o parto).
- Entre animais e humanos:
- Contato direto com sangue, fluidos corporais ou lesões de animais infectados.
Sinais e sintomas da Monkeypox
Os sintomas iniciais incluem febre alta, dor de cabeça intensa, linfadenopatia (inchaço dos gânglios linfáticos), dores musculares e cansaço. As erupções cutâneas são características da doença, começando como manchas planas que evoluem para pústulas e, eventualmente, crostas. No surto recente, lesões na área genital e perianal têm sido comuns, como no caso de João.
Frequência dos sintomas
- Erupções cutâneas: 95% (podendo ser múltiplas ou únicas, especialmente na região genital).
- Febre: 62%.
- Linfadenopatia: 56%.
- Letargia: 41%.
- Mialgia: 31%.
- Cefaleia: 27%.
Diagnóstico e diagnóstico diferencial
O diagnóstico de Mpox é confirmado por exames laboratoriais, como a PCR, que identifica o DNA viral em amostras coletadas das lesões cutâneas. A presença de linfadenopatia, como a que João apresentou, juntamente com erupções cutâneas, ajuda a diferenciar Mpox de outras doenças com apresentações clínicas semelhantes, como varicela, sarampo ou sífilis secundária.
Coinfecções com outras ISTs são comuns, observadas em até 31% dos casos, o que ressalta a importância de uma abordagem diagnóstica abrangente.
Tratamento e abordagem terapêutica da Monkeypox
Se você estivesse no lugar do médico de João, como conduziria o tratamento? O manejo da Mpox é predominantemente de suporte, focando no alívio dos sintomas e na prevenção de complicações. João recebeu analgésicos e antitérmicos para controle da dor e febre, além de cuidados locais para as lesões cutâneas.
Em casos mais graves, como em pacientes imunocomprometidos ou com envolvimento cutâneo extenso, antivirais como tecovirimat podem ser indicados. Entretanto, a eficácia desses antivirais ainda precisa de mais estudos em humanos.
Prevenção e controle de transmissão
A identificação precoce dos casos e o isolamento dos pacientes são fundamentais para prevenir a disseminação da Mpox. A vacinação, especialmente para profissionais de saúde e grupos de risco, desempenha um papel crucial. Vacinas como Jynneos e ACAM2000, desenvolvidas originalmente contra a varíola, têm mostrado eficácia na prevenção da Mpox.
A vacinação pós-exposição, administrada logo após o contato com um caso confirmado, pode ajudar a prevenir o desenvolvimento da doença.
Conclusão
A Mpox, embora rara até recentemente, emergiu como uma preocupação global significativa. Na APS, a identificação precoce e o manejo adequado são essenciais para controlar a doença e prevenir sua disseminação.
Casos como o de João nos lembram da importância de manter o conhecimento atualizado e adotar uma abordagem cuidadosa no enfrentamento desse desafio de saúde pública. Como profissionais de saúde, estamos na linha de frente para garantir que possamos identificar, tratar e prevenir essa doença de maneira eficaz.
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Referências bibliográficas
- Oliveira, M. S. et al. (2023). Monkeypox: Uma Abordagem Geral para Profissionais de Saúde. Campo Grande: Fiocruz Pantanal.
- Mansour, R. et al. (2023). Human monkeypox: diagnosis and management. BMJ, 380, e073352. Disponível em: BMJ.
- Ministério da Saúde. (2024). Saiba quais são os sintomas e as formas de transmissão da doença. Disponível em: Ministério da Saúde.
- UOL. (2024). Epidemia atual de Mpox não é como anterior: veja quais são as diferenças. Disponível em: UOL.
- Di Giulio, D. B., & Eckburg, P. B. (2004). Human monkeypox: an emerging zoonosis. The Lancet Infectious Diseases, 4(1), 15-25.
- McCollum, A. M., & Damon, I. K. (2014). Human monkeypox. Clinical Infectious Diseases, 58(2), 260-267.
Veja também o vídeo sobre o surto de Monkeypox com a Dra. Maitê: