
O QUE FOI RELATADO?
Um relatório apresentado ao Ministério da Saúde de Israel em 1° de junho concluiu que 1 entre 3.000 e 1 entre 6.000 homens entre as faixas etárias 16 a 24 anos que receberam a vacina Pfizer e BioNTech desenvolveram miocardite. Porém, os casos relatados apresentados foram leves e evoluíram para cura em poucas semanas.
Desde abril, autoridades de saúde israelense e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos mencionaram o surgimento da doença em pessoas vacinadas e começaram a rastrear os casos. O Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) em 17 de maio de 2021, por meio do Grupo de Trabalho Técnico de Segurança da Vacina COVID-19, relatou apresentações de miocardite após uso de vacinas de RNA mensageiro (mRNA) em adolescentes e adultos jovens, a maioria do sexo masculino, geralmente após a 2ª dose e 4 dias depois da vacinação. Apesar disso, as taxas relatadas pelo CDC não extrapolaram as taxas basais esperadas para o período de janela pós-vacina, porém, alegaram que mais informações devem ser coletadas e os eventos adversos em potencial devem ser informados aos médicos para auxiliar o diagnóstico precoce do quadro e seu manejo posteriormente.
O QUE É MIOCARDITE?
Segundo Lopes, miocardite é “inflamação do músculo cardíaco secundária a agentes tóxicos, infecciosos ou autoimunes”. Pode ser desencadeada tanto por agentes infecciosos como os vírus Parvovírus B19 e enterovírus quanto por condições autoimunes como sarcoidose, psoríase, vitiligo, doenças vasculares do colágeno e outras.
O quadro clínico varia de acordo com a etiologia do quadro, assim é preciso individualizar cada caso e avaliar a história do paciente a fundo afim de estabelecer hipóteses diagnósticas congruentes com o quadro e, então, seguir com a investigação através de exames complementares. O diagnóstico sendo comprovado, dá-se seguimento ao tratamento e a resolução da doença.
O EXISTE RELAÇÃO ENTRE A VACINA E A MIOCARDITE?

Os dados ainda são inconclusivos. Segundo Dror Merorach, chefe de medicina interna do Centro Médico da Universidade de Hadassah em Israel, foi montado um painel pelo ministério da saúde israelense para avaliar a incidência de miocardite como efeito colateral pela vacina contra COVID-19 usada no país, a Pfizer-BioNTech. Segundo a análise, foram identificados 110 casos de miocardite entre 5 milhões de pessoas vacinadas com as 2 doses, o que representa 1 caso a cada 50.000 vacinados. Esse número não apresenta preocupações em comparação a taxa de miocardite causada por infecções virais e bacterianas na população geral, que é maior.
Além da vacina Pfizer-BioNTech, a vacina Moderna que igual a primeira depende de RNA mensageiro, está sendo investigada quanto a risco de miocardite. Segundo Peter Liu, cardiologista e diretor científico do Instituto do Coração da Universidade de Ottawa, não existem dúvidas quanto a imunogenicidade das vacinas, porém há hipóteses de que em raros casos, os níveis muito elevados de anticorpos gerados após a vacinação em jovens podem gerar uma reação imunológica exagerada que inflama o coração. Porém, Mevorach afirmar que apesar das hipóteses é preciso que se amplie essa análise para outros grupos populacionais antes de se afirmar a existência de relação entre as vacinas e os imunizados.
O QUE ISSO MUDA NO CONTEXTO DA VACINAÇÃO?

Atualmente Israel e alguns países europeus vem debatendo sobre o início da imunização de jovens e adolescentes contra COVID. Jovens de 12 anos ou mais já começaram a ser vacinados tanto no estado judeu quanto no Estados Unidos da América. Os casos decorrentes de reações das vacinas em homens jovens não devem ser ignorados, porém, como tudo dentro da medicina, é preciso que a questão seja aprofundada e que o risco-benefício seja avaliado.
Recentemente, ativistas antivacina vem analisando o Sistema de Notificação de Efeitos Adversos do governo americano com o intuito de usar casos raros de reações adversas pelas vacinas da COVID -19 como justificativa para criticar o potencial de segurança dos imunizantes. É preciso muita cautela ao abordar um tema como efeitos adversos com os pacientes, pois a magnitude desse debate na mídia hoje dá voz tanto aos profissionais realmente capacitados para discutir sobre a questão de forma coerente e ética, mas também dá voz a aqueles que se utilizam de uma pseudociência para basear suas ideias e isso é algo ao qual a população leiga está sujeita a crer.
O QUE PODEMOS CONCLUIR COM ISSO?

É preciso ampliar as investigações para outros grupos populacionais a fim de se obter dados mais contundentes para se estabelecer possíveis hipóteses e assim, comprovar ou não, a relação entre as vacinas de mRNA e o desenvolvimento de miocardite. Ademais, quando essa doença se apresenta, os quadros são leves e podem ser tratados com uso de anti-inflamatórios, ao contrário da COVID que pode causar doenças graves e complicações por longo tempo.
É importante que os médicos estejam atentos a conscientizar os vacinados e seus parentes a cerca dos possíveis efeitos adversos das vacinas e orientá-los, caso haja manifestação, a como devem agir. Além disso, é primordial os profissionais estarem mais alertas aos possíveis efeitos adversos, e seus sinais e sintomas, o que permite um diagnóstico em tempo hábil e uma abordagem de tratamento direta e eficiente.
Outro ponto importante é que os profissionais de saúde assumam seus papeis como educadores em saúde e orientem a população leiga a como saber se informar a respeito de dados científicos, seja em relação a imunização ou mesmo ao contexto da pandemia. Mesmo sendo um trabalho que não gere mudanças em curto período, é uma forma de ensinar as pessoas a aprimorarem seu pensamento crítico a cerca de informações sobre saúde no geral e assim não se deixarem levar por qualquer falácia.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
ISRAEL. Israel reports link between rare cases of heart inflammation and COVID-19 vaccination in young men. Disponível em https://www.sciencemag.org/news/2021/06/israel-reports-link-between-rare-cases-heart-inflammation-and-covid-19-vaccination?utm_campaign=news_weekly_2021-06-04&et_rid=754621270&et_cid=3798041 . Acesso em: 10 jun. 2021.
LOPES, Antonio Carlos Tratado de clínica médica, volume 1 / Antonio Carlos Lopes. 3.ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016.
ANTIVACCINE ACTIVISTS USE A GOVERNMENT DATABASE ON SIDE EFFECTS TO SCARE THE PUBLIC. Antivaccine activists use a government database on side effects to scare the public. Disponível em: https://www.sciencemag.org/news/2021/05/antivaccine-activists-use-government-database-side-effects-scare-public . Acesso em: 10 jun. 2021.