Começo destacando que, como o título já diz, discorrerei sobre minha experiência no internato de cirurgia geral, portanto, é uma análise pessoal e que perpassa várias ideias e expectativas individuais; ou seja, não é o reflexo da realidade da especialidade ou de como esta afeta cada um.
A cirurgia geral compõe as grandes áreas da medicina, junto com a clínica médica, pediatria, ginecologia e obstetrícia e medicina preventiva, com saúde mental tentando adentrar esse seleto grupo.
Logo, para concluir a graduação em medicina, todos temos de passar um período na especialidade cirúrgica – alegria de uns e desespero de outros. A experiência no rodízio de cirurgia geral depende muito das expectativas prévias de cada um, assim como da preferência de serviços – pronto-socorro, centro cirúrgico, enfermaria e ambulatório.
De uma forma geral, quem pretende especialidade cirúrgica tem esse interesse pelo potencial de resolutividade; excetuando alguns casos, a prática cirúrgica tende a dar resolutividade ao caso do paciente; contrapondo com a clínica médica pura que, muitas vezes, pena para controlar o paciente hipertenso e diabético. Ou pelo menos era isso que eu acreditava.
É óbvio que a cirurgia não é isenta de clínica, muito pelo contrário. Da chegada do paciente à alta no pós-operatório, há uma infinidade de variáveis e raciocínios que devem ser levados em consideração; então não ache que a especialidade é apenas “corte e costura”, não é bem por aí.
Nesse aspecto foi muito agradável, a parte de mim que defende a “clínica soberana” ficou muito satisfeita e conseguiu utilizar deste cenário para aprender muito sobre conduta cirúrgica.
Até o início dessa passagem por cirurgia geral, a especialidade era minha segunda opção de residência; estava realmente empolgado com as semanas que passaria ali. Porém tive que lidar com uma certa decepção – o fatídico “a gente só se decepciona quando cria expectativa”. O que eu descreverei a seguir talvez seja uma realidade particular do meu cenário de ensino, que deixarei anônimo, mas que não é tão incomum, visto que a realidade do Sistema Único de Saúde é realmente difícil, então você poderá reconhecer seu internato em algumas situações caso também o realize em hospitais públicos.
Antes de mais nada, deixo bem claro que sou defensor do Sistema Único de Saúde e da saúde pública; sou apaixonado pelo SUS. Todavia isso não me cega os olhos ou me tira a crítica; afinal, é reconhecendo os erros e déficits do sistema que poderemos melhorá-lo. Em segundo ponto, não estrarei aqui no mérito de financiamento do SUS e dos escândalos de corrupção das Secretarias Estaduais de Saúde pelo país – que ficaram ainda mais evidentes nessa pandemia; mas reconheçamos, o desvio de dinheiro público existe e impacta ferrenhamente a realidade a seguir. Dito isso, seguiremos.
Expectativa x Realidade no internato de cirurgia geral
Devido à pandemia do COVID-19, minhas atividades de internato foram parcialmente suspensas por um período; adiantamos algumas partes teóricas para o ambiente virtual antes do retorno a prática. Rotineiramente já existe uma certa diferença entre a realidade do livro em que você estuda o conteúdo – principalmente nas referências norte-americanas – e a realidade do seu ambiente hospitalar; mas dessa vez o que houve foi um abismo.
Enquanto os livros trazem abordagens videolaparoscópicas, a abordagem cirúrgica prática era no velho e bom bisturi; toda aquela história de menor risco para o paciente e melhor pós-operatório da laparoscopia ficou apenas no mundo das ideias. Realidade que afeta não apenas o paciente, mas o residente em formação, que não terá contato com os procedimentos por vídeo, que crescem cada vez mais em grandes centros e em breve tomará conta das salas cirúrgicas por aí – pelo menos eu espero que sim, afinal seus benefícios são mais que comprovados em determinados procedimentos.
Logo fui percebendo que a falta dos procedimentos vídeo-assistidos era o de menos; no centro cirúrgico o Propé era usado como touca, já que essa esteve em falta por um bom tempo. Cada manhã a torcida por ter sala de cirurgia, nunca sabíamos quando um paciente que precisava de UTI teria de ser internado na sala do Centro Cirúrgico por falta de vaga nos cuidados intensivos.
No pronto-socorro, uma sutura simples se tornava um desafio quando a porta-agulha era cego e a luva estéril era muito pequena ou muito grande, o que acontecia sempre. Enquanto isso a fila só enchia, pacientes que poderiam ter resolvido seu problema no posto de saúde corriam risco ali no hospital.
Na enfermaria a realidade não era muito distinta, o paciente tinha sorte quando conseguia ficar em um quarto sem goteira. No perioperatório, protocolo ACERTO também ficou só na aula, difícil um paciente que não tinha dreno por ali e mais difícil ainda era encontrar a indicação para alguns deles. A maior torcida era que aquele paciente não tivesse uma complicação pós-operatória.
Todo o contexto de resolutividade que me atraía para cirurgia tinha ficado no passado, minha realidade era “enxugar no molhado”; frustrante para dizer o mínimo. Quem era novo por ali compartilhava esse mesmo sentimento, não é possível que ninguém estivesse vendo o que acontecia de errado; quem estava a mais tempo simplesmente se acostumou; tentar mudar era esbarrar em uma burocracia e indiferença sem fim.
Terminado o rodízio, me senti bem desmotivado com cirurgia geral, que talvez nem figure mais como minha segunda opção de residência. As pessoas incríveis que conheci ali não conseguiram suplantar o cenário caótico que vi. Foi incrível vivenciar como alguns profissionais ali conseguiam fazer tanto com tão pouco; triste pensar quanto potencial é perdido por falta de estrutura e mais triste ainda ver que algumas pessoas simplesmente desistiram de lutar, apesar de – sinceramente – entendê-las; afinal, se amanhã eu não optar pela especialidade por conta apenas disso, estarei indo pelo mesmo caminho delas.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.