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Mieloma múltiplo: uma visão para generalistas | Colunistas

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Por que estudar o Mieloma Múltiplo?

Apesar de não ser a doença mais frequente, o mieloma múltiplo é uma condição que merece muita atenção por acarretar importante morbidade e, também, mortalidade. Estima-se que mais de 110.000 pessoas morrem anualmente em função dessa doença. Nesse sentido, esse texto busca dar uma visão geral para estudantes e generalistas acerca do comportamento epidemiológico do mieloma múltiplo, bem como sua fisiopatologia, seu diagnóstico e as condutas iniciais.

Epidemiologia

Estima-se que o mieloma múltiplo seja responsável por 1 a 2% do total de neoplasias. Ainda, atinge níveis que chegam aos 10% de todas as doenças hematológicas. Acomete mais homens que mulheres (1,4:1), principalmente na faixa etária de 65 a 74 anos e é mais frequente em negros e afro-americanos do que em brancos (3:1). A maior parte dos casos é esporádica, mas ter um parente de primeiro grau com mieloma múltiplo aumenta a chance de desenvolver a doença em 3 vezes, quando comparado a uma outra pessoa com história familiar negativa. Por fim, a exposição ao agente laranja parece ser um fator de risco para desenvolvimento do mieloma múltiplo.

Fisiopatologia

O mieloma múltiplo é um câncer que acontece como via final de dois processos consecutivos: a resposta inadequada de um linfócito B, dando origem à gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS), seguido de progressão da MGUS para mieloma múltiplo. Ambos processos não são completamente conhecidos, mas acredita-se que acontecem devido a anomalias citogenéticas, bem como respostas inadequadas às interações com antígenos por parte dos linfócitos B.

As células sanguíneas anormais acabam se infiltrando na medula óssea em diversas partes do corpo e lá configuram-se no que resulta na doença mieloma múltiplo.

As células do mieloma múltiplo perdem sua capacidade de realizar apoptose e produzem imunoglobulinas monoclonais de maneira exacerbada. Ao realizar esse processo, comprometem o funcionamento da medula óssea aumentando a atividade dos osteoclastos, diminuindo a atividade dos osteoblastos e ocupando o espaço pertencente às células precursoras dos demais componentes.

Dessa forma, há o surgimento de lesões osteolíticas, hipercalcemia, anemia normocítica e normocrômica, além de lesão renal. A lesão renal acontece devido ao acúmulo das cadeias leves das imunoglobulinas produzidas em excesso, gerando dano importante ao órgão. A anemia, nesse contexto, surge tanto por dano ao tecido hematopoiético, na medula óssea, quanto por redução dos níveis de eritropoetina, devido à injúria renal.

Lesões líticas características de mieloma múltiplo – aboutcancer.com

Diagnóstico

Primeiramente, em qual “tipo de paciente” devemos considerar a hipótese diagnóstica de mieloma múltiplo?

Uma dica é lembrar que a apresentação clínica dos pacientes com mieloma múltiplo é classicamente recordada pelo acrônimo C.R.A.B: C de Cálcio aumentado; R de Rim comprometido; A de anemia; O de Osso (lesões osteolíticas e dor óssea). Uma alternativa boba (mas funcional) para nos ajudar a nos lembrarmos do acrônimo CRAB – e relacioná-lo ao mieloma múltiplo – é pensar, também, no signo de câncer, simbolizado por um caranguejo. Uma outra característica importante que guia o raciocínio clínico no sentido do diagnóstico de mieloma múltiplo é o aumento sérico de proteínas monoclonais.

Um vez levantada essa hipótese, devemos proceder com a avaliação inicial por meio da propedêutica estendida com hemograma, cálcio e creatinina séricos, eletroforese de proteínas, imunofixação séricas e urinária, quantitativo de imunoglobulinas e ensaio sério de FLC (Ensaio de cadeia leve livre). Por meio dessas medidas, conseguimos uma sensibilidade de até 93% para a identificação de mieloma múltiplo, de tal forma que a ausência de alterações nesses exames afasta a probabilidade de doença clonal de células plasmáticas. 

Quando há alterações sugestivas nesses exames, surge uma forte suspeita de mieloma múltiplo, que deve ser confirmada com a realização de aspiração e biópsia de medula óssea com imunofenotipagem e hibridização fluorescente in situ (mielograma com análise FISH).

O diagnóstico é consolidado quando há mais de 10% de células clonais na presença de sintomas característicos (CRAB) ou lesões típicas na imagem e, adicionalmente, nos pacientes assintomáticos com >60% de células clonais segundo o mielograma.

Infiltrado de células plasmáticas na medula óssea – (Brunning RD, McKenna RW. Tumores da medula óssea. Atlas of tumor pathology (fascículo eletrônico), terceira série, fascículo 9, 1994, Washington, DC. Instituto de Patologia das Forças Armadas.)

Outro parâmetro que deve ser avaliado é o acometimento ósseo, havendo indicação de tomografia computadorizada de corpo todo.

O que fazer ao atender um paciente com mieloma múltiplo?

Tais pacientes devem ser imediatamente encaminhados aos serviços de oncologia, hematologia e nefrologia, porém, pode ser que em função das circunstâncias você, enquanto generalista, tenha de fazer um manejo inicial bem feito. Abaixo temos alguns pontos importantes a serem avaliados nessa circunstância.

Manejo inicial

Anemia e hipercalcemia

O paciente que gera suspeita de mieloma múltiplo é, em geral, grave e vai exigir algumas medidas importantes para que possa se estabilizar. Nesse sentido, devemos dedicar importante atenção inicialmente ao controle da anemia e da hipercalcemia.

Podemos fazer isso por meio da análise de hemoglobina sérica, com indicação de transfusão sanguínea com níveis abaixo de 7g/dL e uso de inibidores de osteoclastos, como o Pamidronato, com dose corrigida para a função renal e acompanhamento, analisando a possibilidade de hipocalcemia reativa à medicação. Em casos de hipercalcemia muito grave com níveis acima de 18 mg/dL, devemos indicar a diálise.

Insuficiência renal aguda

Outro ponto muito importante á o manejo da insuficiência renal aguda que deve ser feito com retirada de fármacos prejudiciais nesse contexto (IECA/BRA’S, nefrotoxinas, AINES), hidratação intensa – nos pacientes que tolerem – com meta de 3l de diurese por dia. Se houver possibilidade, o paciente deve ser encaminhado ao setor de nefrologia. Há necessidade de muita atenção, pois esses pacientes podem necessitar de terapia de substituição renal, se apresentarem edema pulmonar refratário, hipercalemia >6,5mEq/l, sinais de uremia, acidose metabólica grave (ph<7,1) ou envenenamento.

Aumento da viscosidade sanguínea

Apesar de não ser frequente, é muito importante garantir que seu paciente não está fazendo um aumento da viscosidade sanguínea, porque isso pode levá-lo a óbito. Um ponto relevante é que a propedêutica (imunoglobulina sérica monoclonal) não tem boa relação com o deterioramento clínico, sendo a anamnese e o exame físico as principais armas na identificação desse quadro por meio da avaliação de sangramento oronasal, insuficiência cardíaca agudizada, visão turva e alterações neurológicas. Na vigência desse quadro, o paciente se beneficia da realização de plasmaférese.

Outros aspectos relevantes

Os pacientes com mieloma múltiplo estão em risco aumentado para infecções, sendo indicada a profilaxia, com vacinação e a atenção a qualquer infecção vigente, que deve ser tratada imediatamente. Ademais, em função dos danos ósseos estão sob ameaça de sofrerem fraturas e/ou sentirem dor óssea. A proteção dos ossos pode ser feita com os inibidores de osteoclastos, com cuidado devido aos riscos de seu uso prolongado, e o manejo da dor se dará com analgesia e com a quimioterapia.

Conclusão

O mieloma múltiplo é uma doença infrequente, mas comumente fatal. Devemos sempre considerar a hipótese nos pacientes com hipercalcemia, anemia, injúria renal aguda e acometimento ósseo. O diagnóstico rápido e o adequado manejo inicial salvam vidas.

Autor: Vinícius Nunes Soares

@vinicius_n.s


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

Kidney disease in multiple myeloma and other monoclonal gammopathies: Etiology and evaluation –

https://www.uptodate.com/contents/kidney-disease-in-multiple-myeloma-and-other-monoclonal-gammopathies-etiology-and-evaluation?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&topicRef=6660&source=see_link#H3425434104

Multiple myeloma: Pathobiology –

https://www.uptodate.com/contents/kidney-disease-in-multiple-myeloma-and-other-monoclonal-gammopathies-etiology-and-evaluation?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&topicRef=6660&source=see_link#H3425434104

Multiple myeloma: Clinical features, laboratory manifestations, and diagnosis –

https://www.uptodate.com/contents/multiple-myeloma-clinical-features-laboratory-manifestations-and-diagnosis?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1#H18

Multiple myeloma: The use of osteoclast inhibitors

https://www.uptodate.com/contents/multiple-myeloma-the-use-of-osteoclast-inhibitors?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&source=search_result&selectedTitle=8~150&usage_type=default&display_rank=8

Multiple myeloma: Treatment of complications –

https://www.uptodate.com/contents/multiple-myeloma-treatment-of-complications?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&source=search_result&selectedTitle=6~150&usage_type=default&display_rank=6#H17

Overview of the management of acute kidney injury (AKI) in adults-

https://www.uptodate.com/contents/overview-of-the-management-of-acute-kidney-injury-aki-in-adults?search=mieloma%20m%C3%BAltiplo&topicRef=7210&source=see_link#H2500612706

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