
A medicina é uma ciência dinâmica. Desde o tempo de Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.) até a atualidade, ela vive em evolução contínua. Porém, mesmo depois desses mais de 2.300 anos de história, algo permanece intacto: o médico, um ser humano, lidando com outro ser humano, o paciente.
Baseado nisso, vem ganhando força a discussão a respeito do Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP), e em como essa abordagem do paciente pode solucionar interrogações não esclarecidas do método tradicional, elevando a qualidade do atendimento e colaborando para um melhor cuidado em saúde.
O QUE É O MCCP?
A construção do MCCP contou com vários profissionais. Primeiro, cito o médico húngaro Michael Balint que, na década de 1970, trouxe à tona o termo: “Medicina Centrada no Paciente”, buscando inserir na prática médica a contextualização da vida do paciente. A partir de então, vários profissionais iniciaram estudos acerca de uma abordagem mais ampliada no atendimento médico, e destes, destacam-se Ian Mcwhinney e Moira Stewart no Canadá e Joseph Levenstein na África do Sul.
COMO ELE FUNCIONA?

O MCCP divide-se em 4 componentes:
- EXPLORANDO A SAÚDE, A DOENÇA E A EXPERIÊNCIA DA DOENÇA
Existe aqui uma discussão sobre a diferença entre os conceitos de “disease” e “illlness”. O primeiro termo em tradução literal significa doença, e refere-se às alterações patológicas observadas no paciente, atribuindo, ao seu quadro clínico, uma definição mais técnica. O segundo termo também possui o significado de doença, mas se entende como a vivência do adoecer do indivíduo de forma subjetiva e particular.
É nesse momento que o profissional de saúde deve estar atento a todos os sinais que o paciente apresenta na hora do seu atendimento. Não só as técnicas convencionais como anamnese, exame físico e complementar, mas fatores coadjuvantes como linguagem corporal e verbal, história de processos de adoecimentos anteriores, sentimentos e expectativas em relação ao que se passa agora. Eles podem nos dizer muito mais a respeito da situação que o diagnóstico clínico.
O método mnemônico SIFE pode auxiliar o profissional a avaliar a dimensão da experiência da doença:

2. ENTENDENDO A PESSOA COMO UM TODO – O indivíduo, a família e contexto
Nesse ponto, avalia-se a compreensão da história de vida do indivíduo, as particularidades de sua vivência que o fizeram se tornar a pessoa que está ali na sua frente. Assim, nos casos em que há dúvidas sobre a doença investigada, deve-se avaliar o ciclo de vida, a estrutura familiar, e a rede existente entre ele, sua família e a comunidade. Não é um processo feito em apenas um atendimento, mas sim com um acompanhamento contínuo.
É importante ressaltar que ao apresentar essa abertura com a pessoa para discutir a respeito de sua vida como um todo, além de fortalecer a própria relação médico-paciente, dá-se liberdade a ela de discutir questões que talvez, dentro de sua realidade de convivência, não tenha a oportunidade de falar, o que poderia contribuir até mesmo para o agravo do seu estado.
3. ELABORAR UM PLANO EM CONJUNTO PARA MANEJO DOS PROBLEMAS
Deve haver a criação de um plano entre o médico e o paciente para resolução do problema. Ele deve ser montado abordando: a definição do problema da pessoa; o estabelecimento de metas para o tratamento e condução do seu quadro e identificar os papéis que cada um deve ocupar nesse processo.
Tal plano deve ser de comum acordo em todas as suas etapas. Para isso, o profissional deve tirar todas as dúvidas, usar uma linguagem acessível, avaliar discordâncias e dificuldades que possa haver e entender tais pontos, a fim de que as metas sejam adaptadas e resolutivas.
Essa etapa ajuda para que o paciente se torne mais ativo em relação ao seu cuidado em saúde, estimulando-o a adquirir essa autonomia. Em alguns casos, isso pode não ocorrer de início, assim, o médico deve orientá-lo a como começar, ou também o próprio paciente pode estar muito debilitado, o que exige um suporte maior.
É importante que só o tempo e o acompanhamento irão mostrar se as metas e o tratamento serão efetivos ou não. Se necessário, ajustes e mudanças de estratégias devem ser feitas para que se alcance a cura.
4. INTENSIFICANDO A RELAÇÃO ENTRE A PESSOA E O MÉDICO
O objetivo do profissional é ajudar seu paciente, enxergando-o em toda sua complexidade como indivíduo. Assim, é necessário que se desenvolva estratégias a fim de garantir uma relação de alta qualidade com esse, o que pode colaborar e ser a própria terapêutica do processo de tratamento.
O cuidado nesse caso exige do profissional: estar presente, conversar, sensibilidade, agir no melhor interesse do outro, sentimento, ação e reciprocidade. Tais ferramentas se mostram essenciais para construir essa relação de qualidade, porém, algumas situações com pacientes podem levá-lo a ter desgastes que pode afetar sua atuação no atendimento e até a sua vida em geral. Assim, é fundamental que o médico possua autoconhecimento e consciência de seus limites.
Aliado a todos os componentes anteriores, é essencial ao médico saber que a sua atuação junto a uma equipe interdisciplinar é indispensável para auxiliar no processo de abordagem do paciente e nos diversos nichos que compõem sua vida. A interação e o trabalho entre os profissionais devem se basear em respeito e confiança a fim de que haja uma comunicação, um planejamento e uma execução de qualidade para se alcançar os objetivos do plano estipulado para o paciente.
QUAIS SEUS BENEFÍCIOS?

Moira Stewart traz no livro Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico evidências que mostram que esse método clínico de abordagem, ao estabelecer uma visão partilhada entre o médico e o paciente, apontam para um desfecho clínico mais resolutivo.
Dentro dessa análise trazida na obra, fatores como o estabelecimento de uma boa comunicação entre o médico e o paciente é primordial em muitos casos para a adesão completa do tratamento. Além disso, ela traz outros trabalhos relatando que o MCCP apresenta vantagens como: maior satisfação da pessoa atendida, benefícios para os desfechos dos pacientes, redução com a preocupação e melhora da saúde e de outras condições fisiológicas, diminuição do uso de serviços de saúde, diminuição da solicitação de exames complementares e de queixas por má prática.
Discute-se hoje o fato de os pacientes serem mais empoderados sobre saúde graças à tecnologia e ao acesso democrático à informação. Esse movimento de busca de informação mostra que o indivíduo está disposto a aprender sobre sua saúde, a discutir com o médico sobre suas preocupações e expectativas. O profissional através do MCCP incentiva essa postura mais ativa do paciente e gera uma experiência de troca e aprendizado para ambos.
O QUE ELE PODE MUDAR NA CONDUTA MÉDICA HOJE?
Esse modelo de abordagem pode ajudar a estabelecer uma relação de fraternidade entre o médico e seu paciente e lançar uma nova ótica sobre a doença. Tratar alguém não é apenas promover melhora do corpo, mas reavaliar todo um contexto de vida do indivíduo e a partir daí seguir em uma jornada terapêutica junto a ele para ajudá-lo a reconstruir um estado de bem-estar. Em seu livro A Morte é um dia que vale a pena viver, Ana Cláudia Quintana Arantes traz a frase: “O fracasso do médico acontece se a pessoa não vive feliz quando se trata com ele”. Aqui não cabe a discussão a respeito do conceito de felicidade, mas essa colocação traz algo que é constantemente pregado na faculdade de medicina, mas pouco observado em sua ambiência prática. O médico não pode garantir a felicidade, mas tem o dever de buscar se aprimorar a fim de poder dar ao seu paciente um atendimento humanizado e de qualidade, utilizando os recursos que lhe couberem, sejam estruturais ou intelectuais.
Autora: Gabriella de Oliveira Lorenzoni
Instagram: @gabilorenzoni
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
ARANTES, Ana Cláudia. A morte é um dia que vale a pena viver. Leya, 2018.
BARBOSA, Mírian Santana; RIBEIRO, Maria Mônica Freitas. O método clínico centrado na pessoa na formação médica como ferramenta de promoção de saúde. Rev Med Minas Gerais, v. 26, n. Supl 8, p. S216-S222, 2016.
FUZIKAWA, ALBERTO KAZUO. Método clínico centrado na pessoa: um resumo. NESCON/UFMG-Curso de Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família Belo Horizonte, 2013.
STEWART, Moira et al. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. Artmed Editora, 2010.