Medicina endocanabinoide: confira o artigo da Dra. Maitê Dahdal sobre esse tema cada vez mais recorrente no campo da medicina.
Nos últimos anos, a discussão sobre a cannabis medicinal e seus potenciais terapêuticos em diversas doenças tem ganhado destaque. O estigma e a criminalização dessa substância atrasaram o avanço da ciência no estudo e na publicação de pesquisas sobre o tema.
No entanto, com o acúmulo de estudos favoráveis e a comprovação crescente dos benefícios dos fitocanabinoides, esses compostos estão sendo cada vez mais incorporados aos tratamentos médicos em diversos países, inclusive no Brasil. Aqui, a capacidade de prescrever e acompanhar o uso de cannabis medicinal pode ser um grande diferencial para os médicos, oferecendo uma nova perspectiva de tratamento para seus pacientes.
Cannabis medicinal
A cannabis medicinal representa uma nova possibilidade terapêutica para diversas doenças e, de acordo com a situação regulatória atual no Brasil, é denominada “produtos à base de cannabis” e ainda não “medicamentos” devido ao processo regulatório da ANVISA.
Como qualquer substância terapêutica, deve-se realizar a integração na prática clínica com cautela pelos médicos prescritores devido à individualidade das respostas clínicas e às possíveis interações farmacológicas. Não se deve presumir que, por ser “natural”, tenha menos riscos.
Cannabis medicinal durante a história
Apesar de parecer uma novidade, a planta Cannabis, popularmente conhecida como “maconha”, é uma planta utilizada há séculos para fins medicinais, especialmente no alívio de sintomas associados a doenças neuropsiquiátricas. Na China, a planta era indicada para tratar doenças como malária, tuberculose e constipação intestinal. Os primeiros registros do uso desta fibra datam de 4000 a.C., tornando a cannabis uma das plantas medicinais mais antigas.
Utilizou-se a planta cannabis até o início do século XX, sendo empregada para tratar uma variedade de condições médicas, incluindo transtornos mentais, como hipnóticos e sedativos, além de doenças como malária e tuberculose. No entanto, a partir da década de 1930, a criminalização da cannabis e o aumento do estigma associado ao seu uso recreativo levaram à sua exclusão gradual das práticas médicas. A falta de conhecimento (e tecnologia na época) sobre seus princípios ativos, resultava em variações na composição e potência dos extratos, contribuindo para o declínio do uso medicinal da planta.
A proibição e o estigma persistentes atrasaram significativamente a pesquisa científica sobre os potenciais terapêuticos dos canabinóides, limitando seu uso clínico até as recentes mudanças nas regulamentações e a crescente evidência de seus benefícios.
Na década de 70, a descoberta dos receptores de canabinóides e a compreensão do papel do sistema endocanabinoide na regulação da homeostase dos sistemas biológicos foram marcos cruciais que impulsionaram a pesquisa nesta área. Desde então, indentificou-se ao longo dos anos uma ampla gama de constituintes químicos na Cannabis sativa. Atualmente, mais de 750 desses constituintes são conhecidos.
O sistema endocanabinoide
A planta, também usada como droga ilícita, ainda enfrenta um estigma que muitas vezes prejudica seu uso clínico. No entanto, quando utilizada de forma correta, ela pode oferecer inúmeros benefícios terapêuticos devido à interação com o sistema endocanabinóide que “habita entre nós”.
Entre os canabinóides encontrados na planta, o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e o CBD são os mais estudados. Além destes, outros canabinóides como:
- Canabiciclol (CBL)
- Canabielsoína (CBE)
- Canabinol (CBN)
- Canabinodiol (CBND)
- E canabitriol (CBT).
Mecanismo de ação dos canabinoides
O mecanismo de ação dos canabinóides em humanos foi elucidado após a descoberta de dois receptores principais: o receptor canabinoide tipo 1 (CB1) e o receptor canabinoide tipo 2 (CB2). Os efeitos farmacológicos dos canabinóides resultam de sua interação com esses receptores.
Naturalmente, nosso corpo produz substâncias semelhantes às presentes na planta que se conectam com esses receptores e são chamadas de endocanabinoides, você sabia disso? São eles o 2-AG (2-araquidonilglicerol) e a anandamida.
Os endocanabinoides são compostos endógenos que atuam de maneira semelhante aos canabinóides presentes nas plantas. A descoberta do sistema endocanabinoide, que sabemos hoje ser um sistema regulatório da homeostase, ajudou a entender como os canabinóides afetam diversos estados fisiológicos, incluindo dor, cognição, regulação do sistema endócrino, função metabólica, resposta emocional e processos motivacionais. Isso abriu novas perspectivas de tratamento para uma variedade de distúrbios neurológicos e psiquiátricos.
Em relação aos fitocanabinoides das plantas, o THC é responsável pela maioria dos efeitos farmacológicos e adversos da cannabis, incluindo seu efeito psicoativo. Clinicamente, destaca-se por sua atividade analgésica, antiespasmódica, antiemética, estimulante do apetite e pela redução da motilidade intestinal. Por outro lado, o CBD não possui efeito psicotrópico semelhante ao do THC e atua por mecanismos distintos, sendo reconhecido principalmente por suas propriedades analgésicas, anticonvulsivantes, anti-inflamatórias, antipsicóticas e ansiolíticas.
Tratamento utilizando medicina endocanabinoide
Na prática, é essencial avaliar se existe uma indicação clínica específica para cada paciente. Caso confirme-se a indicação, deve-se investigar possíveis contraindicações, interações farmacológicas e o histórico de uso anterior da cannabis, seja recreativo ou medicinal.
No Brasil, tem-se substâncias à base de cannabis disponíveis nas farmácias, e também é possível importar produtos autorizados pela ANVISA mediante emissão de autorização de importação. Em alguns casos, pacientes solicitam habeas corpus para produzir seu próprio óleo, embora este último careça de análises laboratoriais mais fidedignas dos fitocanabinoides e outras substâncias.
Deve-se realizar a prescrição de produtos à base de cannabis em conformidade com os princípios da ética médica e mediante termo de consentimento, alertando os pacientes sobre possíveis efeitos adversos como sedação e comprometimento cognitivo.
Para um tratamento eficaz com canabinóides, é necessário:
- Determinar quais doenças e sintomas serão tratados e se há indicação clínica
- Verificar possíveis contraindicações ou interações farmacológicas
- Escolher o canabinóide adequado (CBD ou THC) ou um produto balanceado
- Selecionar o tipo de produto a ser utilizado (full spectrum, broad spectrum ou isolado)
- Definir a concentração de cada canabinóide e o produto específico
- Utilizar receituários de acordo com as exigências da ANVISA
- Estabelecer objetivos clínicos claros e expectativas para o tratamento.
Perspectiva do tratamento utilizando a medicina endocanabinoide
A medicina endocanabinoide é um campo promissor que abre novas perspectivas de tratamento para uma ampla gama de condições de saúde. Continuaremos explorando seus benefícios e desafios, buscando constantemente melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Como médica de família e estudiosa dos fitocanabinoides para a prática clínica, tenho me encantado cada vez mais com os benefícios potenciais dessas substâncias.
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Referências bibliográficas
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- Alves, Josefa de Moura Santos. Cannabis medicinal: usos terapêuticos e implicações legais no Brasil. 2022.
Autoria do artigo
Dra. Maitê Dahdal, médica de família e comunidade
CRM-SP 192730
RQE Medicina de Família e Comunidade 93794
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