O doutor Abel Salazar afirmava que o médico que apenas sabe medicina, nem medicina sabe. Essa clássica afirmação a cada dia torna-se mais real, pois as faculdades apenas formam especialistas em doenças. Em virtude disso, a formação acadêmica é pouco humanizada e não há um ensino sobre as estratégias para uma carreira médica sólida, haja vista que não aborda as expectativas, dificuldade e atribuições que vão além da boa formação. Conforme esse cenário é fundamental discutir estratégias ligadas ao direito médico, marketing, relação médico-paciente e networking.
Nesse contexto há referências sobre o direito médico desde a antiguidade, e essa ciência evoluiu até a contemporaneidade. Diante disso foram estabelecidos os princípios básicos, direitos e deveres do binômio envolvido com a relação médico paciente. Desse modo, estabeleceu-se que, na busca pela beneficência e não maleficência, o profissional deve respeitar a dignidade e poder de escolha do paciente sem realizar atos de negligência, abuso, imperícia ou imprudência.
Nessa perspectiva, quando o profissional ignora esses pilares, que atos como negligência, imperícia e imprudência acontecem. Diante disso a negligência é a ausência de preocupação ou cuidado ao realizar atos de intervenções terapêuticas e é considerada um ato omissivo, enquanto a imperícia é a ausência ou deficiência de conhecimento técnico científico sobre a medicina ou atos de intervenção especializados, desse modo há um despreparo para o exercício seguro da profissão. Já a imprudência é falta de cautela e a irracionalidade na prática médica ao ignorar a ciência e agir por impulso sem seguir protocolos de condutas.
Em virtude disso é preciso conhecer a abrangência de termos como beneficência e não maleficência. Esses termos se relacionam com a busca constante pelo o bem-estar do paciente, atendendo aos interesses do indivíduo e respeitando a autonomia do paciente sobre o melhor tratamento terapêutico aplicado ao conhecimento médico a fim de não causar danos à saúde do mesmo. Para tanto, deve haver o diálogo e esclarecimento de condutas na relação médico paciente e a utilização dos critérios de justiça através da equidade ou garantia de prioridade de acesso dos mais excluídos socialmente aos serviços de saúde.
Além disso, o médico deve ser humilde, justo, ter compaixão e diligência em tudo que faz. Nessa visão, a medicina deve cuidar da vida, do ser humano e não se preocupar apenas com a patologia, é preciso entender e orientar o paciente e os familiares durante todo o processo de acompanhamento. Por isso, segundo Celmo Celeno Porto, a medicina precisa ser exercida com a mente e o coração, logo essa profissão requer dedicação, superação, espírito resiliente, desprendimento, alegria, pois vai além da ciência e reações biológicas.
Paralelamente, para Willian Osler, a medicina é uma arte, não um comércio, um chamado, não um negócio. Diante disso, as normas que tratam da conduta médica assim como as que tratam sobre o marketing médico estão presentes no código de ética médica. Esse código trata das ações de propagandas que podem ser realizadas no âmbito da medicina sem comprometer a seriedade da profissão. Diante disso, a publicidade não deve visar o lucro e deve ser discreta, responsável, verdadeira, de cunho informacional, que respeite a privacidade dos indivíduos e relação médico-paciente.
Desse modo Abraham Verghese é categórico ao afirmar que a prática médica deve se basear em uma curiosidade e interesse ilimitados no semelhante e por isso a relação médico-paciente é fundamental; tudo mais segue disso. Nessa perspectiva, efetividade dos processos diagnósticos, a adesão ao tratamento e o sucesso terapêutico têm relação direta com o vínculo estabelecido durante a consulta. Pode-se citar ainda benefícios como o melhor entendimento do paciente sobre a patologia que o acomete, o esclarecimento adequado para entender as investigações conduzidas que culminaram em uma melhor escolha de tratamento para o quadro clínico, além disso há menos incidência de queixas por erro médico.
Alinhado a esse conhecimento é primordial o estabelecimento de uma rede de apoio ou contatos conhecida como networking. Essa rede irá garantir trocas de experiência, aprimoramento de informações e formação técnica profissional, além de proporcionar acesso às melhores oportunidades. Essa rede é uma via de mão dupla e funciona como uma comunidade onde todos devem ser beneficiados e ter o princípio de reciprocidade, reputação e altruísmo. Desse modo não envolve capital financeiro, mas a essência humana de convivência e respeito dentro de uma sociedade.
Desse modo essas técnicas interferem no sucesso profissional ao garantir a prática segura e adequada da medicina. Além disso é fundamental a humanização dos profissionais e ações de saúde para garantir serviços que proporcionem qualidade de vida para os usuários do sistema de saúde. Deve-se, portanto, entender que o paciente não é apenas um sujeito passivo e que o médico não é soberano na sociedade e nas práticas de cuidados à saúde humana.
Autora: Ellen Raissa Coelho Rios
Instagram: @ellenrioss_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
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