A mácula melanótica labial é uma alteração pigmentada dos lábios que, embora geralmente benigna, merece atenção clínica devido à possibilidade de confusão com lesões malignas, como o melanoma oral.
Nesse contexto, compreender suas características clínicas, identificar sinais de alerta e diferenciar de outras condições pigmentadas é essencial para conduzir o manejo adequado e assegurar a segurança do paciente.
Epidemiologia da mácula melanótica da mucosa
As máculas melanóticas da mucosa são mais frequentemente observadas na porção vermelha do lábio inferior, com maior prevalência em adolescentes e mulheres jovens brancas.
Etiologia e fisiopatologia da mácula melanótica labial
A mácula melanótica labial pode ocorrer isoladamente ou estar associadas a condições específicas. Quando múltiplas, são características de síndromes como Peutz-Jeghers, Laugier-Hunziker e Bannayan-Riley-Ruvalcaba (relacionada a mutações no gene PTEN). Além disso, também podem surgir em doenças adquiridas, como o líquen escleroso genital.
A lesão associada à síndrome de Laugier-Hunziker apresenta etiologia ainda desconhecida, sem relação comprovada com distúrbios sistêmicos, fatores familiares ou risco aumentado de malignidade.
Do ponto de vista fisiopatológico, as lesões surgem devido ao aumento da atividade melanocítica, resultando em acúmulo de melanina na camada basal do epitélio ou epiderme, enquanto o número de melanócitos permanece normal.
Além disso, observa-se incremento de melanófagos na lâmina própria ou derme superficial, caracterizando incontinência pigmentária.
Manifestações clínicas da mácula melanótica labial
As manifestações clínicas da mácula melanótica labial caracterizam-se por lesões pigmentadas geralmente assintomáticas, de cor que varia do cinza ao marrom ou preto, com superfície plana e bordas bem definidas ou discretamente irregulares.
As máculas têm formato lenticular, oval ou irregular, medindo habitualmente entre 2 e 5 mm, e podem ocorrer isoladas ou múltiplas, ocasionalmente confluentes.
O lábio inferior é o local mais comumente afetado, seguido da mucosa oral, língua, gengiva e mucosa palatina, sendo que áreas acrais e genitais também podem apresentar pigmentação.

Diagnóstico da mácula melanótica labial
O diagnóstico da mácula melanótica labial baseia-se na avaliação clínica detalhada, complementada por métodos auxiliares como dermatoscopia e análise histopatológica, com o objetivo de diferenciar lesões benignas de possíveis condições malignas.
Características dermatoscópicas
Na dermatoscopia, as lesões apresentam padrões variados, incluindo sulcos paralelos, linhas reticulares, padrões granulares e homogêneos, muitas vezes associados a vasos lineares ou pontilhados em áreas rosa-esbranquiçadas.

Características histopatológicas
Ao exame histopatológico, observa-se acúmulo de melanina na camada basal do epitélio ou epiderme, com número de melanócitos preservado.
Há aumento de melanófagos na lâmina própria, caracterizando incontinência pigmentária, sem presença de células névicas.
Em alguns casos, podem ser observadas alterações discretas como acantose, hiperqueratose, hiperparaqueratose, espongiose ou alongamento das cristas epiteliais, mas sem sinais de malignidade. Essas características confirmam que a hiperpigmentação resulta da atividade melanocítica aumentada, e não de proliferação celular.
Diagnóstico diferencial da mácula melanótica labial
O diagnóstico diferencial da mácula melanótica labial é amplo, já que a hiperpigmentação oral, labial ou cutânea pode estar associada a alterações benignas, reativas, induzidas por fármacos ou até a doenças sistêmicas e síndromes genéticas. Portanto, em muitos casos, trata-se de um diagnóstico de exclusão.
Entre as causas locais destacam-se:
- Tatuagem de amálgama.
- Melanose do fumante.
- Pigmentação induzida por medicamentos.
- Mácula melanótica.
- Nevos melanocíticos.
- Melanoacantoma.
- Melanoma oral.
- Pigmentação fisiológica (racial).
Tatuagem de amálgama
O depósito acidental de fragmentos metálicos nos tecidos moles da cavidade oral, durante procedimentos restauradores com amálgama dentário, pode originar a chamada tatuagem de amálgama.
Clinicamente, essas lesões aparecem como máculas assintomáticas, únicas ou múltiplas, variando de poucos milímetros até mais de um centímetro. As regiões mais acometidas são a gengiva e a mucosa alveolar. Do ponto de vista histológico, identifica-se material negro, de aspecto fibrilar ou granular, presente no tecido conjuntivo ou próximo a vasos, geralmente sem reação inflamatória significativa.
Melanose do fumante
A melanose do fumante corresponde a uma hiperpigmentação oral em tom marrom-escuro, observada principalmente em indivíduos com consumo intenso de tabaco. A condição apresenta maior prevalência em mulheres e costuma afetar a gengiva inserida da região labial e as papilas interdentais.
Pigmentação induzida por medicamentos
A pigmentação mucocutânea induzida por fármacos manifesta-se de forma difusa e está relacionada ao uso sistêmico de determinados medicamentos.
Entre os principais agentes implicados estão tetraciclinas, antimaláricos, antifúngicos, antimicobacterianos, antirretrovirais, quimioterápicos, além de amiodarona, psicotrópicos e anticoncepcionais orais. Geralmente, esse tipo de pigmentação surge após uso prolongado da medicação e tende a regredir quando o fármaco responsável é suspenso.
Nevo melanocítico
Os nevos melanocíticos intraorais tendem a surgir principalmente na terceira e quarta décadas de vida, manifestando-se como máculas ou pápulas pigmentadas, geralmente assintomáticas e variando do marrom ao preto ou azul.
Do ponto de vista histológico, cerca de metade corresponde ao tipo intramucoso (intradérmico) e aproximadamente um terço ao tipo nevo azul. Como essas lesões apresentam semelhanças clínicas com o melanoma oral, sobretudo quando localizadas no palato duro, recomenda-se a excisão completa como medida diagnóstica e terapêutica.
Melanoacantoma
O melanoacantoma oral é uma condição de caráter reativo, mais observada em mulheres negras na terceira e quarta décadas de vida.
Geralmente, manifesta-se como uma lesão única na mucosa bucal, apresentando-se clinicamente como uma placa pigmentada, bem delimitada e de superfície irregular.
Histologicamente, nota-se a presença de melanócitos dendríticos aumentados, dispersos por todo o epitélio, embora normalmente restritos à camada basal.
Melanoma
O melanoma oral é uma condição rara, observada com maior frequência em asiáticos, hispânicos e negros, predominando na quinta década de vida e afetando mais homens, com uma proporção aproximada de 2,5 a 3,1 em relação às mulheres.
Os locais de maior acometimento são o palato e, em seguida, a gengiva labial anterior. Clinicamente, manifesta-se como uma mácula marrom-escura, de crescimento lento, assintomática, com bordas irregulares e assimétricas, mas muitos casos chegam ao diagnóstico em fase avançada, já apresentando massa de rápido crescimento, dor, ulceração, sangramento, mobilidade dentária e comprometimento ósseo.
Do ponto de vista histopatológico, é semelhante ao melanoma cutâneo, mostrando células epitelioides ou fusiformes e disseminação pagetoide no epitélio superficial, com células tumorais isoladas ou agrupadas em ninhos.
Condições sistêmicas
No âmbito sistêmico, algumas condições que associam-se à pigmentação oral e entram no diagnóstico diferencial da mácula melanótica labial incluem:
- Síndrome de Peutz-Jeghers, marcada por máculas mucocutâneas e risco elevado de neoplasias gastrointestinais e extraintestinais.
- Doença de Addison, em que a hiperpigmentação pode ser sinal inicial, acompanhada de sintomas endócrinos.
- Síndrome de McCune-Albright e neurofibromatose tipo 1, ambas caracterizadas pela presença de manchas café com leite.
- Complexo de Carney, caracterizado por lentigos, mixomas e tumores endócrinos.
- Síndrome LEOPARD, marcada por múltiplos lentigos e alterações cardíacas, genitais e auditivas.
- Síndrome de Cronkhite-Canada, que combina hiperpigmentação cutânea a polipose gastrointestinal difusa.
Condutas clínicas na mácula melanótica labial
Na maioria dos casos, a mácula melanótica labial não requer intervenção, pois não apresenta risco de complicações sistêmicas ou transformação maligna. No entanto, alguns pacientes podem buscar tratamento por motivos estéticos, visando a remoção das áreas pigmentadas.
Entre as opções terapêuticas disponíveis estão a criocirurgia e o uso de lasers Q-switched, como Nd:YAG e alexandrita. Entretanto, é importante destacar que há possibilidade de recorrência após o procedimento, sendo a proteção solar fundamental para reduzir esse risco.
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Referências
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- Duan N, Zhang YH, Wang WM, Wang X. Mystery behind labial and oral melanotic macules: Clinical, dermoscopic and pathological aspects of Laugier-Hunziker syndrome. World J Clin Cases. 2018.
- Schaffer, JV; Bolognia, JL; Hunt, R. Benign pigmented skin lesions other than melanocytic nevi (moles). UpToDate, 2025.
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