O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença inflamatória multissistêmica incluída nas doenças autoimunes e caracterizada por manifestações clínicas apresentando períodos de remissão e de exacerbação, porém alguns pacientes apresentam uma doença de atividade contínua.
Suas manifestações se devem principalmente a alterações humorais e celulares, que dão origem a uma excessiva produção de auto anticorpos, que podem tanto causar danos citotóxicos quanto formar imunocomplexos, resultando em uma inflamação tecidual de natureza imunológica.
O termo “lúpus” se deve ao aspecto erosivo de algumas de suas lesões de pele, principalmente por se assemelhar ao dano causado pela mordida de um lobo.
Sua prevalência é maior no sexo feminino, tendo um pico de incidência durante os anos reprodutivos. Há estudos de que crianças e idosos possuem determinantes antigênicos e mecanismos deflagradores diferentes.
O pior prognostico da doença esta encontrado em pessoas de raça negra, sexo masculino, baixo nível socioeconômico e que apresentam trombocitopenia e nefrite importantes.
Nos primeiros cinco anos, a morte geralmente se deve principalmente a atividade da doença e a altas doses de esteroides e infecções, já após esse tempo, normalmente se deve a complicações cardiovasculares decorrentes do seu tratamento, que é realizado com corticoides, e seu uso contínuo pode levar ao desenvolvimento de osteoporose, pois os glicocorticóides estão associados a um alto índice de incapacitação devido à fraturas.
Etiologia
É uma doença que não está totalmente definida, porém fatores como hormonais, ambientais e genéticos, são importantes na sua patogênese.
Os fatores ambientais podem exacerbar ou desencadear o início da doença, como drogas (desenvolvimento de anticorpos antinucleares), luz ultravioleta (pode precipitar o início ou produzir a agudização da doença quiescente e pode também agravar as manifestações cutâneas e viscerais), o estresse (podem apresentar aumento da atividade da doença durante períodos de fadiga ou estresse emocional) ou infecções (vírus e bactérias têm sido apontados como agentes etiológicos de LES, principalmente o Epstein-Barr (VEB)).
A predisposição genética a doença foi associada a genes localizados no complexo de histocompatibilidade principal e os que codificam componentes do sistema complemento (produção de auto anticorpos anti-antígenos nucleares (FAN), antígenos citoplasmáticos, antígenos de superfície celular e antígenos solúveis na circulação, como IgG e fosfolipídeos).
Os subtipos FANS podem ajudar a estabelecer o diagnóstico, detectar algumas manifestações da doença e, em alguns casos, monitorar a evolução do LES. A presença dos auto anticorpos precede o desenvolvimento dos sinais e sintomas da doença, e os pacientes acumulam diferentes auto anticorpos até que a doença seja diagnosticada.
Há evidências que o IFNα se mostrou presente de maneira exacerbada em 50% dos pacientes.
Relacionado ao fator hormonal, tem-se que os hormônios sexuais, principalmente em mulheres, podem contribuir para o início da doença, indicando que mulheres em idade precoce, uso de anticoncepcionais orais e uso de hormônio pós menopausa, aumentariam o risco de desenvolver LES.
Sobre fatores ambientais, o tabagismo é um grande fator de risco, já que é associado à produção do anticorpo anti-dsDNA nos pacientes com LES.
Complicações
Osteoporose:

Uso de corticoides é um fator de risco para desenvolver osteoporose em pacientes com LES. Deve-se fazer um rastreamento rotineiro de densidade mineral óssea, e enfatizar o uso de suplementos diários de cálcio e vitamina D (devido à fotoproteção, que faz parte do tratamento, e que tem como efeito adverso a deficiência dessa vitamina) em pacientes com uso contínuo dessas medicações.
O uso desses medicamentos promove a perda de massa óssea, levando a altos riscos de fraturas, que podem ocorrer até mesmo com uso de pequenas doses.
Como fator de risco também temos mulheres pós-menopausa e homens acima dos 50 anos.
Os efeitos são principalmente sobre as células ósseas, atingindo a formação e a função dos osteoblastos maduros e levando a apoptose dos osteoblastos. Ele atua também nos osteócitos, alterando os mecanismos sensoriais responsáveis pela regulação da reparação óssea, agindo na osteonecrose.
Mecanismo da osteoporose induzida pelos glicocorticóides:
Nosso osso é continuamente renovado, onde os osteoblastos irão produzir matriz proteica, que é o osteóide que posterior a isso será mineralizado, e então teremos uma unidade composta por osteoclastos que são responsáveis por absorver o osso antigo. tudo isso é realizado em equilíbrio, fazendo com que a quantidade de osso reabsorvido e formado seja o mesmo.
O mecanismo deletério dos corticóides levam a uma perda óssea, principalmente devido a ação da droga sobre as células ósseas e sobre suas funções, mas pode também ser por efeitos indiretos, como pela ação sobre o metabolismo do cálcio e vitamina D, pela secreção dos hormônios sexuais e pelo seu efeito sobre a produção de prostaglandinas, citocinas e fatores de crescimento.
Profilaxia:
- Usar uma menor dose e com menor meia vida.
- Nutrição adequada.
- Cessar tabagismo.
- Prevenção para hiperparatireoidismo secundário com medidas para diminuir hipercalciúria, melhorando a absorção de cálcio.
- Reposição de hormônios gonadais em mulheres na pós-menopausa ou com ciclo menstrual irregular e em homens com níveis de testosterona reduzidos.
- Avaliação da densidade mineral óssea antes do uso e a cada 6 meses, e após isso, realizar anualmente.
Tratamento
O tratamento é principalmente sobre a prevenção, já que a perda óssea é assintomática, tendo seu diagnóstico após uma fratura atraumática.
- Calcitonina: é um inibidor da reabsorção óssea, que inibe a ação dos osteoclastos provocando aumentos moderados da massa óssea, ele também previne a perda da densidade mineral óssea, principalmente quando combinada com a reposição de cálcio e de vitamina D.
- Bisfosfonatos: também inibem a reabsorção óssea pelos osteoclastos, porém faz isso através da estimulação da apoptose, retardando a absorção óssea. Possuem ação anti reabsortiva, mostrando efeitos satisfatórios na prevenção e tratamento da osteoporose.
- Fluoreto de sódio: é um potente estimulador da formação de osso trabecular. Ele aumenta a formação óssea e incrementa de forma progressiva a densidade molecular óssea, porém tem ação insignificante no risco de fraturas vertebrais, além de aumentar o risco de fraturas não vertebrais. Sua dose tóxica é muito próxima da dose efetiva, limitando a utilização desses medicamentos, então para minimizar os efeitos ela deve ser associada ao cálcio e a vitamina D.
Autor (a): Kéturi Alves – @ketigabriela
Referências:
- Imboden, John, B. e John H. Stone. ATUAL Reumatologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (3ª edição). Grupo A, 2014. Pág. 187- 203.
- Noções práticas de reumatologia- Vol II/Coord. Caio Moreira e Marco Antônio P. Carvalho. Belo Horizonte: Livraria e Editora Health, 1996, vol. 2.
- Gregório, Luiz Henrique. Eventos Médicos. Osteoporose induzida por glicocorticóides-OIG. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM. Maio de 2007.
- AGUIAR, Igor Antunes ET al. A AÇÃO DOS GLICOCORTICÓIDES NO METABOLISMO ÓSSEO LEVANDO A OSTEOPOROSE. Revista Científica UNIFAGOC-Saúde, v. 3, n. 2, 2018.
- Lazaretti-Castro, M., Borba, Vitória C.Z. Osteoporose induzida por glicocorticóides. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, Volume: 43, Número: 6, Publicado: 1999.
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