Estamos vivendo a pandemia há quase dois anos por conta do novo coronavírus (SARS-CoV-2), que causa a Covid-19, uma doença infecciosa que atua de diferentes maneiras no organismo. Seus principais sintomas são febres, cansaço e tosse seca, mas os pacientes podem apresentar também dores, congestão nasal, dor de cabeça, dor de garganta, diarreia, perda de paladar e/ou olfato, erupção cutânea ou descoloração dos dedos das mãos e dos pés.
Sabemos que a maioria que se contagia com o vírus é assintomática, apresenta poucos sintomas e nem precisa ser internada, mas apesar do quadro não evoluir, é importante ficar atento às sequelas que podem vir a ocorrer mesmo com um teste negativo, e estudos indicam que cerca de um terço das pessoas que testaram positivo para SARS-CoV-2 não voltaram ao seu estado normal de saúde depois de três a seis semanas do diagnóstico. Esses sintomas se enquadram no termo Long Covid, que também é conhecido como Síndrome pós-Covid.
A experiência que temos com outros coronavírus, como SARS (2003), e o MERS (2012), dá algumas pistas sobre essa “nova” síndrome. Uma pesquisa realizada e pulicada em 2009 no Journal of the American Medical Association (Jama), revelou que 40% das pessoas em recuperação do SARS ainda apresentava sintomas de fadiga crônica três anos e meio após o diagnóstico. Um outro estudo, feito em 2010, mostrou um comprometimento persistente e significativo no estado de saúde de sobreviventes da SARS depois de até dois anos.
O termo foi oficializado pela Comunidade Científica Internacional com a intenção de definir a condição dos pacientes após o período de infecção pelos sintomas se prolongarem por um longo período, mesmo depois da recuperação da doença. As complicações podem ir desde a perda prolongada do paladar e/ou olfato e queda de cabelo, até sequelas respiratórias, motoras, cognitivas, ansiedade e depressão. Alguns pacientes relatam também alterações gastrointestinais, mal-estar e fadiga.
No Reino Unido, segundo uma matéria da BBC de 17 de setembro deste ano, os sintomas da Long Covid podem se estender até 12 semanas após a infecção.
Segundo o NSH (National Health Service), os sintomas podem incluir, além dos mencionados acima, falta de ar, palpitações, dores no peito ou sensação de aperto, dor abdominal e dores articulares e pesquisas já identificaram centenas de outros sintomas, como alucinações, insônia, mudanças na visão e audição, perda de memória de curto prazo e problemas na fala e linguagem.
Como grande parte dos sintomas que são considerados parte do Long Covid ainda estão sendo estudados e apenas recentemente os médicos começaram a registrar como um diagnóstico e também considerando que cada organismo reage de forma diferente, fica difícil determinar quem pode ter Long Covid e quão comum é.
Devemos nos atentar na diferença que há entre sintomas persistentes e sequelas, pois a maioria dos sintomas pós-Covid não podem ser considerados sequelas, por terem efeitos temporários, mesmo que, em alguns casos, por um período relativamente longo. Já em uma minoria dos casos, há sequelas de fato, danos ao organismo que podem ser considerados permanentes.
Segundo o pneumologista e professor da Universidade de São Paulo (USP), André Nathan, também membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), uma sequela é aquela que acontece quando se tem uma lesão irreversível em algum órgão, que pode ser vista e comprovada por meio de exames complementares, “uma urticária crônica pode ser tratada e desaparecer em algum momento, mas uma queimadura, mesmo depois de tratada, deixa cicatriz.”
Nenhum estudo foi capaz de descobrir o que exatamente causa o Long Covid, mas uma das possibilidades é que a infecção ataca o sistema imune da pessoa de tal forma que ele não ataca somente o vírus, mas também o próprio organismo. Podendo isso acontecer, especialmente, em pessoas que tem um sistema imune de resposta muito forte. Outra teoria é a de que fragmentos do vírus ficam no corpo, mesmo após a recuperação, possibilitando, assim, uma reativação.
Um pesquisador da Universidade de Arkansas, John Arthur, disse ao Business Insider que “não podemos dizer com certeza se é uma doença autoimune, mas é assim que realmente está começando a parecer”
Em uma publicação recente, Arthur, junto com outros pesquisadores, sugerem que pacientes com Covid-19 desenvolvem anticorpos que atacam suas próprias proteínas, o que acontece em doenças autoimunes, e esse processo inflamatório pode desencadear o Long Covid.
Isso pode ocorrer, pois após a infecção pelo vírus e o desenvolvimento de anticorpos para neutralizá-lo, o sistema imune de alguns pacientes identifica erroneamente estes anticorpos como uma ameaça ao organismo. Caso essa teoria seja confirmada, os tratamentos contra a doença poderão sofrer modificações.
É importante entender também que nem todo mundo terá sequelas, mas muitas pessoas poderão ter sintomas crônicos e que ainda não se sabe por quanto tempo e se irão desaparecer. Assim como a Covid-19 pode afetar o corpo de diferentes formas, a Síndrome pós-Covid também, por isso sintomas persistentes e sequelas relatadas até o momento são tão variadas e podem aparecer em diferentes sistemas, como o cardiovascular, o respiratório e os sistemas nervoso central e periférico.
Ainda serão necessários mais estudos para identificar corretamente as principais características clínicas, sorológicos, de imagem e epidemiológicas da Covid em todas as suas fases, e pós recuperação, para podermos entender melhor e chegar às mais eficientes práticas clínicas para cada etapa da doença.
Autora: Elisa Salomão Henrique
Instagram:@elisa_salomao
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
https://www.bhf.org.uk/informationsupport/heart-matters-magazine/news/coronavirus-and-your-health/long-covid#Heading5 – Long Covid: the symptoms and tips for recovery
https://spiral.imperial.ac.uk/bitstream/10044/1/88014/13/1-s2.0-S2589537021001796-main.pdf – Characteristics and predictors of acute and chronic post-COVID syndrome: A systematic review and meta-analysis
https://newsbeezer.com/brazil/long-covid-pode-ser-uma-doenca-auto-imune-o-estudo-indica/ – Long covid pode ser uma doença auto-imune, o estudo indica
https://www.sbmt.org.br/portal/covid-longa-pode-representar-nova-crise-de-saude-global/ – COVID longa pode representar nova crise de saúde global?
https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/long-term-effects/index.html – Post-COVID Conditions
https://setorsaude.com.br/pesquisador-do-hospital-moinhos-integra-grupo-de-trabalho-sobre-enfrentamento-da-long-covid/ – Pesquisador do Hospital de Moinhos integra grupo de trabalho sobre enfrentamento da Long Covid
https://clinicaseom.com.br/para-voce/o-que-e-long-covid-e-como-a-osteopatia-pode-ajudar/ – O que é Long covid e como a osteopatia pode ajudar
https://www.bbc.com/news/health-57833394 – Long Covid: What is it and what are the symptoms?
https://www.nhs.uk/conditions/coronavirus-covid-19/long-term-effects-of-coronavirus-long-covid/ – Long-term effects of coronavirus (long COVID)