A Liga Acadêmica já é rotina entre os estudantes universitários no Brasil, principalmente nos cursos de saúde. Mesmo aqueles que nunca participaram formalmente de uma liga acadêmica como diretor ou “ligante” já participaram, pelo menos, de um simpósio, congresso ou de uma sessão organizados por uma liga.
Neste post, nós explicamos tudo sobre a liga acadêmica – o que é, como surgiu, como funciona e se vale a pena participar.
Bons estudos!
O que é liga acadêmica?
A liga acadêmica é uma associação civil e científica livre, sem fins lucrativos, criada e organizada por discentes, docentes e profissionais que apresentem algum interesse acadêmico em comum.
Podemos enxergar uma liga como um grupo de estudos reconhecido pela instituição de ensino em que atua, mas que apresentam atividades além do simples ato de estudar.
Entre essas atividades, destacam-se aulas, ou sessões, sobre os mais diversos temas, a serem ministradas pelo estudantes membros da liga, ou “ligantes”, pelos professores orientadores ou profissionais convidados.
Projetos com maior abrangência e menor periodicidade podem (e devem) estar entre as atividades exercidas pela liga, como simpósios, encontros, feiras, congressos, cursos, etc.
Além dos já citados, é essencial para que haja um maior aproveitamento do aluno dentro de uma liga que essa ofereça vagas em campos de estágio, possibilidade de realizar pesquisas científicas, etc., sempre buscando variar o rol de atividades oferecidas ao ligante.
Como surgiu a liga acadêmica?
A primeira Liga acadêmica brasileira surgiu em 1920, na Faculdade de Medicina da USP: era a Liga de combate à Sífilis, criada por estudantes buscando intervir tanto médica quanto socialmente nesse agravo de saúde pública.
Durante a ditadura militar, muitas associações estudantis levantavam questionamentos acerca do ensino universitário no país, levando ao surgimento de muitas Ligas Acadêmicas, visto que nessas o estudante assume maior controle sobre o que é estudado e discutido.
A partir de 1990 e, principalmente a partir dos anos 2000, houve um aumento significativo no número total de ligas, especialmente no curso de Medicina, onde os eventos organizados pelas mesmas fazem parte do cotidiano do estudante.
Devo fazer parte de uma liga acadêmica?
No curso de medicina a cultura da liga acadêmica está tão enraizada que em algumas instituições é difícil encontrar alunos que não façam, tenham feito ou planejem fazer parte de uma liga. Em outros cursos essa prática não está tão difundida.
Exclusivamente falando sobre o curso de medicina, há uma preocupação principalmente por parte dos discentes de que as ligas guiem os alunos a um tipo de “especialização precoce”.
Ou seja, o estudante se insere no contexto de uma liga que atua especificamente direcionada para alguma especialidade, e com isso os interesses desse estudante também acabam sendo direcionados.
Por outro lado, muitas vezes o aluno tem interesse em uma área pouco trabalhada no currículo de sua faculdade, ou deseja se aprofundar mais em determinado assunto, e nas ligas esse aluno encontra campo fértil para seguir seus estudos da forma que lhe for mais interessante.
Como abrir uma liga acadêmica?
1. Idealização
Primeiro devemos fazer duas perguntas: o que quero estudar e por que? A principal motivação para a abertura de uma liga é a deficiência apresentada no currículo da universidade acerca de uma determinada área de estudo.
Primeiro passo deve ser definir a área de atuação da liga, estando certo de que é relevante buscar uma complementariedade de estudos na área escolhida.
2. Conjunto
Depois, encontre pessoas que compartilhem do mesmo propósito. Criar uma liga, montar estatuto, passar por toda a burocracia da implementação da liga, realizar processo seletivo, compor diretoria, etc.: tudo isso é muito cansativo.
Certifique-se de que está cercado por pessoas que têm o mesmo interesse e a mesma empolgação que você.
3. Estatuto
Toda liga tem que ter um estatuto. O estatuto deve estar pronto antes de partirmos para a burocracia porque ele será apresentado como o projeto de criação da liga a ser avaliada pelos órgão institucionais competentes (NUPE, colegiado, diretoria departamental, etc.).
No estatuto deve constar a definição da liga e suas finalidades, quais são os princípios que a regem e suas competências dentro da instituição, o regimento no que diz respeito às atividades dos membros, a estrutura de diretoria, funcionamento, os deveres da liga frente aos órgãos supracitados dentro da universidade, além de previsões sobre créditos acadêmicos e sanções.
Muitas vezes o melhor a fazer é usar os modelos de estatuto pré-determinados pela instituição ou seguir o modelo de ligas já em atividade no seu departamento.
Modelo de estatuto no link: http://ablam.org.br/diretrizes-nacionais/
4. Orientador
Toda liga acadêmica deve ter um profissional responsável. Há instituições que requerem que esse orientador seja professor da casa. Outras requerem apenas que o mesmo apresente competência para atuar na área.
Importante é escolher alguém que seja autorizado a ocupar esse cargo e que se apresente disponível para auxiliar nos trâmites burocráticos e nas questões acadêmicas.
5. Burocracia
Muitas vezes ficamos pulando entre diversas diretorias e núcleos dentro do departamento para finalmente descobrirmos qual o trâmite correto a seguir. A realidade é que cada universidade tem seu trâmite específico. Algumas, principalmente de cursos criados mais recentemente, por vezes nem tem isso bem estabelecido.
Por isso, sugiro que busque o Núcleo ligado a pesquisa e ensino do seu departamento (NUPE) para se orientar sobre os passos subsequentes. Por vezes a entrada é dada no NUPE, outras, via colegiado ou diretoria de departamento.
O NUPE, entretanto, é o órgão que tem a “obrigação” de te orientar. Assim, havendo dificuldade para transpor a parte burocrática da criação de uma liga, tenha o responsável pelo NUPE como parceiro nesse processo.
6. Processo Seletivo
A primeira diretoria provavelmente será composta pelos membros fundadores. Agora é hora de convidar novos colegas para que sua liga comece a funcionar a todo vapor.
Adendo importante!
Organização de Eventos e emissão de certificados: Para organizar eventos de maior porte como simpósios ou cursos, ou para emitir certificados aos ligantes ou aos alunos que comparecem aos eventos da liga, mais uma vez o NUPE entra em ação.
Todo evento deve ser formalizado frente ao NUPE e o certificado só tem valor se for gerado com autorização do dele.
Como se divide a diretoria de uma liga acadêmica?
As diretorias se dividem das mais diversas formas. Sugerimos um modelo básico, contendo:
- Presidente;
- Vice-Presidente;
- Secretário;
- Tesoureiro;
- Diretor de Pesquisa;
- Diretor de Extensão.
Por vezes os cargos de diretor de pesquisa e extensão são ocupados por um único ligante. Consideramos mais adequado que haja um ligante responsável por cada área para que haja maior probabilidade de êxito na inclusão dos membros em campos de estágio ou projetos de pesquisa. Os diretores não devem ser sobrecarregados, mas não por isso deve-se ter cargos ociosos.
Qual a rotina de um “ligante”?
O ligante deve-se fazer presente em, pelo menos, 75% dos eventos organizados pela liga para ter direito ao certificado (isso deve constar no seu estatuto).
Muitas ligas cobram mensalidade dos seus membros para poder arcar com custos operacionais como coffee break, banner, pôster, capital inicial para realização de um evento, etc.
Os ligantes devem participar ativamente da organização das atividades realizadas pela liga, por vezes sendo responsáveis por ministrar aulas. Além disso, é muito interessante que haja participação ativa dos mesmos nos projetos de pesquisa nos quais a liga esteja inserida além de ocuparem as vagas de campos de estágio ofertadas.
Como fazer parte de uma liga acadêmica de sucesso?
Varie as atividades da mesma
Uma liga de sucesso apresenta uma rotina de eventos (semanais, quinzenais) de menor porte, como sessões científicas, mas vive inovando.
Por vezes há aulas com professores renomados, discussões de casos clínicos, cursos teórico-práticos, simpósios, congressos, etc.
Crie um “evento-identidade”
Sabe aquele curso de sutura famoso que acontece todo ano? Ou aquele VIII simpósio de determinada especialidade em que você pretende apresentar seu trabalho?
Pois bem, muitos desses eventos são organizados por ligas. Pense em um projeto que atraia seus colegas e o ponha em prática da melhor forma possível. No próximo semestre, quando sua liga lançar a segunda edição daquele mesmo evento, os alunos já vão estar mais interessados.
Por mais que deva haver alternância dos temas discutidos, crie um modelo a ser repetido. Muitas vezes os estudantes podem não conhecer a sua liga pelo nome, mas já participaram ou têm interesse em participar daquele evento específico. Esse é o “evento-identidade” da sua liga acadêmica.
Invista em estágio e pesquisa
Aqui está a grande diferença entre ser ligante ou ser um aluno que assiste às aulas da liga. Muitas vezes quando as atividades da liga se restringem ao campo teórico, não há muito ganho para o estudante que faz parte da liga, visto que o mesmo só está assistindo às aulas ministradas.
As atividades práticas devem ser valorizadas, porque é exatamente aí que se encontra o grande benefício de fazer parte de uma liga. Diversifique os campos de prática, envolva todos os ligantes em projetos de pesquisa. Uma liga de sucesso é muito mais do que uma liga de bom conteúdo. É um liga de boas experiências.
Boa sorte na sua Liga Acadêmica!
Referências
Clique para acessar o 1981-5271-rbem-39-3-0410.pdf
Clique para acessar o a13v35n4.pdf
http://ablam.org.br/diretrizes-nacionais/
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