O objetivo principal desta discussão é compreender a importância do mecanismo de maturação das células de defesa, em especial os granulócitos, com a finalidade de interpretar alterações no hemograma de acordo com a clínica e individualidade do seu paciente. Boa leitura!
Gênese dos leucócitos granulócitos na medula óssea
As células-tronco iniciais, chamadas de pluripotentes ou hematopoéticas, se comportam como células-mãe, pois têm a capacidade de seguir duas linhagens distintas, mielóide e linfóide, dependendo do indutor enviado pela medula. Sabe-se que as células tronco caracterizam-se pela autorrenovação, logo, ao dividir-se, parte da célula fica responsável pela autorrenovação e o restante, compromete-se em diferenciar-se em células específicas.
Sabendo-se que a linhagem linfóide compromete-se com a diferenciação em linfócitos no timo, a linhagem mielóide será o objeto de estudo dessa discussão, sendo produzida, necessariamente, na medula óssea. Tendo como produto final as células sanguíneas (eritrócitos e plaquetas), leucócitos granulócitos (eosinófilos, basófilos e neutrófilos) e mononucleares (monócitos), a linhagem mielóide participa da defesa imunológica inata, limitada em relação à memória imunológica. Dessa forma, os leucócitos granulócitos não possuem capacidade de promover memória, visto que reconhecem a maioria dos antígenos, possuindo um amplo espectro de ação.

Fonte: https://statics-shoptime.b2w.io/sherlock/books/firstChapter/45889875.pdf
Granulócitos e defesa imunológica
Neutrófilos segmentados e infecções bacterianas e fúngicas
Os neutrófilos são células com núcleo lobulado, possuindo de 3 a 5 lóbulos, sendo classificados como polimorfonucleares. A principal atividade realizada por essas células é a fagocitose, pela presença de pseudópodes, após a ação de enzimas digestivas presentes em seus grânulos, principalmente a elastase, a colagenase e a lisozima.
Quando essas células estão segmentadas, significa que houve um desvio à direita (fig. 2) em sua maturação, tornando essas células maduras e ainda mais potentes em sua atividade. Ainda que realizando uma resposta inata, essas células são hiper especializadas e possuem um alto poder de ataque contra os antígenos. Dessa forma, o excesso dessas células no sangue (neutrofilia com desvio à direita) sugerem infecções bacterianas ou fúngicas, na qual o sistema imune acaba trabalhando mais para gerar uma resposta mais fugaz.
Neutrófilos bastonetes e infecções em fase aguda
Os neutrófilos em bastonete referem-se ao neutrófilo imaturo em formato de bastão, derivado de um desvio à esquerda (fig.2) na produção. O excesso dessas células no sangue (neutrofilia com desvio à esquerda), sugerem problema na produção de neutrófilos pela medula óssea, isto é, a medula óssea não está conseguindo enviar para o sangue uma quantidade suficiente de neutrófilos maduros, liberando os imaturos. Geralmente ocorre em processos infecciosos mais graves, no qual o organismo não obteve tempo de maturar suas células.

Fonte: Imagem adaptada de Medical Lab Lady Gill/YouTube
Eosinófilos e defesa parasitária
Os eosinófilos são leucócitos bilobulados (2 lóbulos) que apresentam proteínas básicas que se coram com corantes ácidos quando submetidos à coloração Hematoxilina-Eosina (HE), ou seja, proteínas eosinofílicas. Ao compará-los com os demais granulócitos, os eosinófilos são mais potentes em seu processo de defesa. Devido a sua localização estritamente intracelular, a produção excessiva de eosinófilos (eosinofilia) está associada à lesão de órgãos-alvo, podendo comprometer estruturas importantes como o coração. Além disso, mediam respostas imunológicas contra parasitas, em especial os helmintos, devido à uma característica específica: liberação de PBM (proteína básica maior) que intoxica e mata os parasitas, através da defesa inata.
Basófilos, mastócitos e reações alérgicas
Os basófilos são células bilobuladas, de difícil visualização, que contêm grânulos que se coram com corantes básicos, quando submetidos à coloração HE. Essas células possuem histamina em seus grânulos e são muito similares aos mastócitos em sua atuação, contudo existem diferenças que não podem ser confundidas. O basófilo sai da medula óssea no seu estado maduro e os mastócitos circulam na sua forma imatura, apenas amadurecendo no tecido de atuação.
A hipersensibilidade é uma resposta imune devido a atuação dos basófilos em nosso corpo. Essa reação é resultado da ligação do IgE com a superfície do basófilo, o qual vai secretar os mediadores bioativos (histamina) para reparar a atividade antígena.
Conclusão
Finalizo essa discussão reiterando a importância de entender o mecanismo de maturação dos leucócitos granulócitos, como base para interpretação de exames e diferencial na prática clínica. Deve-se compreender as características particulares de cada célula, a fim de entender seu processo de atuação na prática.
Espero que tenham aproveitado a leitura!
Autora: Camila Epitácio.
Instagram: @camila_epitacio
Referências bibliográficas
- ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 6ª ed. Rio de Janeiro, Elsevier, 2008.
- QUIRINO, Henver. Resposta Imunológica Mediada pelos Eosinófilos contra Parasitas. In: QUIRINO, Henver. Atividade dos Eosinófilos. 2006. Artigo de conclusão de curso de pós-graduação (Hematologia Laboratorial) – Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, [S. l.], 2007.
Schwartz, BL. MD, PhD. Hajjar, J. MD
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