Definição – Afinal, o que é a Leptospirose.
A leptospirose é uma doença bacteriana infecciosa causada por um microorganismo encontrado na urina de alguns animais, dentre eles o principal é o rato de esgoto. A bactéria Leptospira pode infectar além dos seres humanos, bovinos, suínos e cães, estes últimos também podem transmitir a moléstia para o ser humano.
É uma doença que, infelizmente, ainda apresenta elevada incidência, com ênfase no Sul e Sudeste do Brasil, principalmente relacionada às questões sanitárias e de habitação, além disso demanda alto custo hospitalar e causa grande absenteísmo, tendo risco de mortalidade elevada que chega a 40% nos casos mais graves.

Transmissão – E como ocorre o contágio.
A transmissão da leptospirose além de um grave problema de saúde pública é também um problema veterinário importante afetando tanto animais domésticos, como gatos, cães, roedores quanto animais de porte e relevância econômica, a exemplo de ovelhas, cabras, bodes, bois, cavalos, porcos. Esses animais, em sua maioria, permanecem assintomáticos e podem transmitir a bactéria pela sua urina para o homem.
O principal transmissor dessa doença é o rato devido a sua quantidade e proximidade com os domicílios urbanos. A Leptospira penetra principalmente através da pele ou das mucosas em contato com a água que contém urina contaminada (em enchentes e poças, ou por ingestão de água e alimentos contaminados).
Os seres humanos são vistos como hospedeiros finais pois a transmissão de um ser humano para outro é de muito difícil e de grande raridade.

Fisiopatologia – Como acontece o processo de adoecimento.
A bactéria causadora da leptospirose possui em seu envolto uma dupla membrana celular que vai desempenhar papel fundamental na patogenicidade da doença, uma vez que os lipopolissacarídeos do patógeno vão ter grande interação com os receptores Toll-Like ou TLR4 que são os principais responsáveis pelo início dos mecanismos ativadores da cascata da sepse.
Alguns outros pontos importantes para o entendimento da patogênese da leptospirose são a existência de uma proteína que liga-se firmemente à fibronectina, a indução a apoptose e a interferência que a bactéria causa em canais de Sódio-Potássio-ATPase dependentes nos néfrons, levando a um quadro de falência renal aguda.
A bactéria após adentrar o corpo através da passagem pela pele em contato com água contaminada atinge a corrente sanguínea e dissemina-se de forma sistêmica, atingindo vários órgãos, dentre eles o fígado onde pode causar uma disfunção hepática com a diminuição da síntese de fatores de coagulação e da albumina, causando então icterícia que pode evoluir rápida e intensamente.
Já nos rins, onde há as maiores complicações a leptospira causa graves danos nos túbulos dos néfrons pela formação de imunocomplexos que causam hipoxemia, esses danos evoluem para uma nefrite intersticial com necrose e por fim para um quadro de insuficiência renal aguda (IRA).
Quadro clínico – Quais são os sinais e sintomas.
Normalmente a leptospirose é bifásica, dividindo-se em fase septicêmica e fase imunitária.
A fase septicêmica ocorre entre o 3º e 4º dia, começando com um quadro de cefaleia holocraniana, mialgia intensa, calafrios, sudorese, febre alta, tosse e faringite com dor no peito que pode evoluir para hemoptise. Essa fase dura em média 7 dias e a febre está presente de forma recorrente ultrapassando os 39º C.
A fase imunitária, por sua vez, ocorre entre o 6º e o 12º dia, e relaciona-se com o aparecimento de anticorpos e a resposta corporal. A febre e os sintomas iniciais reaparecem e podem evoluir para um quadro de meningite e, raramente, pode-se observar neurite óptica, neuropatia periférica e iriodiciclite.
Uma das complicações da Leptospirose é a Síndrome de Weil que se caracteriza, principalmente, pela icterícia intensa devido a hemólise associada a anemia, rebaixamento do estado geral de consciência e aumento do nível de ureia e creatinina no sangue(azotemia). Devido a esse quadro hemolítico, manifestações hemorrágicas que vão de epistaxes, petéquias, equimoses até hemorragias mais sérias como as da adrenal ou do trato gastrointestinal. Ademais, pacientes também podem desenvolver trombocitopenia, anormalidades renais (como hematúria, piúria, proteinúria e diminuição da diurese) .Por fim, é visto que pacientes com quadro de Síndrome de Weil correm mais riscos de complicações e de agravamentos que levem ao óbito.
Diagnóstico – Como sabemos se estamos doentes.
Na suspeita de um quadro de leptospirose deve-se solicitar hemograma e bioquímica para ajudar na diferenciação de outras doenças, dentre esses exames os mais importantes são:
- Ureia, Creatinina, Bilirrubina total e frações, TGO, TGP, Gama-GT, Fosfatase alcalina, potássio sérico, sódio sérico e CPK. na fase tardia pode ser necessário solicitar radiografia de tórax, eletrocardiograma e gasometria arterial;
As alterações mais comuns encontradas vão ser:
- Elevação das bilirrubinas totais, com níveis mais elevados das diretas, azotemia, leucocitose neutrofílica, gasometria apresentando acidose metabólica e hipoxemia, fibrilação atrial, alterações de repolarização ventricular e bloqueio atrioventricular no ECG, potássio sérico normal, diminuído ou aumentado (nos casos de aumento o prognóstico é pior), Infiltrado alveolar uni ou bilateral na radiografia torácica, CPK elevada, Anemia normocrômica, Fosfatase alcalina elevada, Gama-GT elevado, tempo de protrombina aumentado e atividade de protrombina diminuído, proteinúria, hematúria e piúria indicando IRA, LCR com pleocitose linfomonocitária ou neutrofílica nos quadros com evolução de meningite.
Para confirmação do diagnóstico de leptospirose os métodos sorológicos são o padrão ouro, os mais utilizados hoje em dia são os testes ELISA e a microaglutinação, esses exames são realizados pelos Lacens – Laboratórios centrais de saúde pública.
Como diagnóstico diferencial devemos descartar doenças como:
- Dengue, síndromes gripais, Malária, Doença de Chagas aguda, Hepatites Virais agudas, Hantavirose, Febre Amarela, Endocardite, Pielonefrite aguda, Apendicite aguda, Colecistite aguda, síndrome hemolitico-uremica, Lupus eritematoso sistêmico.

Tratamento – Como curar essa terrível doença.
O tratamento é feito por antibioticoterapia em casos moderados e graves e tratamento sintomático em casos leves.
Na fase precoce, utiliza-se a amoxicilina 500 mg ou a doxiciclina 100 mg em adultos e a amoxicilina 50mg/kg em crianças.
Na fase tardia onde o quadro está mais agravado a primeira opção e a Penicilina G cristalina intravenosa tanto para crianças quanto para adultos, outras opções são a ampicilina, a ceftriaxona e a azitromicina, todas essas também na forma intravenosa.
Referências
1. Secretaria de saúde da Bahia: Leptospirose. – http://www.saude.ba.gov.br/temasdesaude/leptospirose/
2. Centro de Informação em Saúde para Viajantes Leptospirose (Cives): Leptospirose. – http://www.cives.ufrj.br/informacao/leptospirose/lep-iv.html
3. Biblioteca virtual em saúde: Leptospirose. – http://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/2087-leptospirose
4. Secretaria de saude do Parana: Leptospirose. – https://www.saude.pr.gov.br/Pagina/Leptospirose
5. Msd Manuals: Doenças infecciosas. espiroquetas, leptospirose. – https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/espiroquetas/leptospirose
6. MedicinaNet: Leptospirose. – https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/1524/leptospirose.htm
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