A lateralização patelar é uma alteração do alinhamento da patela em relação à tróclea femoral, caracterizada pelo deslocamento da patela em direção lateral, o que pode comprometer a estabilidade da articulação e gerar dor, instabilidade e limitação funcional.
Portanto, o diagnóstico adequado, que envolve a integração entre avaliação clínica e exames de imagem, é fundamental para definir a melhor conduta terapêutica, que pode variar desde medidas conservadoras até intervenções cirúrgicas mais complexas.
Anatomia e biomecânica da articulação patelofemoral
A articulação patelofemoral é composta pela interação entre a patela e a tróclea femoral, estrutura fundamental para a extensão do joelho.
A patela, um osso sesamoide localizado no interior do tendão do quadríceps, desliza sobre o sulco troclear do fêmur distal, ampliando a eficiência mecânica do aparelho extensor.
Dessa forma, para que esse deslizamento ocorra de forma adequada, é necessário o equilíbrio entre diferentes forças que atuam sobre a patela. Entre os principais elementos envolvidos nesse controle estão:
- Tendão do quadríceps (proximalmente);
- Retináculos medial e lateral associados às inserções dos músculos vasto medial e vasto lateral;
- Banda iliotibial (nas porções medial e lateral);
- Tendão patelar com sua fixação na tuberosidade tibial (distalmente).
Além disso, estruturas periarticulares, como a gordura de Hoffa e as bursas infrapatelares profunda e subcutânea, também participam da função e da avaliação clínica dessa articulação.
Em conjunto, esses componentes garantem estabilidade, alinhamento adequado e distribuição equilibrada de forças.
Causas e fatores predisponentes da lateralização patelar
Entre os principais fatores de risco associados a lateralização patelar estão:
- Sexo feminino;
- Histórico familia;
- Alterações anatômicas, como patela alta, displasia troclear, geno valgo, aumento da anteversão femoral, aumento da distância tubérculo tibial-sulco troclear, rotação externa da tíbia e inclinação lateral da patela.
Patela alta
A patela alta corresponde a uma alteração anatômica caracterizada pelo alongamento do tendão patelar, o que desloca a patela para uma posição superior. Esse posicionamento exige maior grau de flexão para que a patela acomode-se corretamente na tróclea femoral, reduzindo a área de contato patelofemoral e favorecendo a instabilidade patelar.

Displasia troclear
A displasia troclear corresponde a uma alteração estrutural do sulco troclear femoral, que geralmente compromete sua forma e profundidade, sobretudo na região superior.
Como consequência, essa anomalia modifica o encaixe da patela, resultando em deslizamento inadequado e, portanto, constituindo um dos principais fatores associados à instabilidade e ao desalinhamento patelar, sendo observada em até 85% dos casos de instabilidade.

Distância tubérculo tibial-sulco troclear
A distância tubérculo tibial–sulco troclear é um parâmetro importante para avaliar o alinhamento do aparelho extensor do joelho. Especificamente, valores aumentados indicam lateralização da tuberosidade tibial ou medialização do sulco troclear, o que reflete um ângulo Q elevado.
Como resultado, essa alteração biomecânica gera forças laterais excessivas sobre a patela durante a extensão, que, se não forem equilibradas pela ação do vasto medial, podem favorecer a subluxação lateral e a instabilidade patelar.
Na prática, uma distância superior a 20 mm está fortemente associada ao desalinhamento patelofemoral. A medição é realizada por imagens, nas quais se traça a distância entre o ponto mais proeminente da tuberosidade tibial e o ponto mais profundo do sulco troclear.
Inclinação lateral da patela
A inclinação lateral da patela é um achado frequente e, por esse motivo, é considerada um dos marcadores mais sensíveis de instabilidade patelofemoral.
Para sua avaliação, esse parâmetro pode ser mensurado de diferentes formas:
- Pelo ângulo de inclinação patelar, definido entre a linha condilar posterior e a linha correspondente ao maior eixo transversal da patela;
- Pelo ângulo patelofemoral (PFA), que compara o alinhamento da faceta lateral da patela com o aspecto anterior dos côndilos femorais.
Além disso, valores de PFA iguais a 0° ou negativos (abertura medial) são considerados patológicos, o que indica inclinação lateral excessiva.
Portanto, a inclinação lateral da patela representa uma alteração geométrica que compromete a congruência da articulação patelofemoral, consequentemente contribuindo para o desalinhamento e a instabilidade patelar.
Manifestações clínicas da lateralização patelar
A manifestação mais evidente da lateralização patelar ocorre por meio de episódios de instabilidade, que podem se apresentar como a primeira luxação lateral da patela ou como quadros recorrentes subsequentes.
Em alguns casos, o paciente pode evoluir com instabilidade crônica, geralmente associada à frouxidão ligamentar generalizada, podendo estar ou não acompanhada de dor anterior no joelho.
Ademais, entre 15% e 45% dos indivíduos podem evoluir para instabilidade patelar recorrente após a primeira luxação, condição dolorosa e limitante.
Avaliação clínica da lateralização patelar
A avaliação clínica deve considerar o mecanismo e a frequência dos episódios, além de um exame físico completo, que inclui:
- Análise da frouxidão ligamentar e do alinhamento dos membros inferiores;
- Avaliação da presença de derrame;
- Localização da dor;
- Análise do grau de translação patelar;
- Teste de apreensão;
- Observação do sinal de J;
- Mensuração do ângulo Q;
- Investigação de possíveis lesões meniscais, ligamentares e comprometimento neurovascular distal.
Diagnóstico por imagem da lateralização patelar
A investigação inicial do desalinhamento patelar pode ser feita por radiografias, utilizando projeções anteroposterior, lateral e axial da patela. Esse exame é especialmente útil em situações agudas, quando há suspeita de fraturas associadas a lateralização patelar, embora sua sensibilidade seja limitada. Além disso, a radiografia pode fornecer indícios de alterações anatômicas que favorecem a instabilidade, como a presença de patela alta ou displasia troclear.
Ademais, a ressonância magnética (RM) destaca-se como o principal método de avaliação do desalinhamento patelar, dada a capacidade de analisar com maior precisão a morfologia óssea e as estruturas de partes moles. Entre os parâmetros avaliados pela RM estão a displasia troclear, a posição da tuberosidade tibial, a altura da patela e a inclinação lateral patelar.
Por fim, a tomografia computadorizada (TC) também pode ter valor complementar, principalmente na avaliação de parâmetros anatômicos específicos e de alterações ósseas relacionadas ao desalinhamento. No entanto, a ressonância que permanece como a modalidade de escolha para compreender os fatores predisponentes e as consequências do desalinhamento patelar.
Tratamento da lateralização patelar
O principal objetivo do tratamento da instabilidade patelar é alcançar um joelho estável, indolor e funcional, além de prevenir ou retardar a evolução para osteoartrite.
Dessa forma, as abordagens podem ser não cirúrgicas ou cirúrgicas, sendo a escolha dependente das características clínicas e anatômicas de cada paciente.
Abordagem não cirúrgica
Indica-se a abordagem não cirúrgica, principalmente, após a primeira luxação, quando não há lesões condrais graves ou corpos livres intra-articulares.
Normalmente, envolve anti-inflamatórios, breve período de imobilização (3–6 semanas) e reabilitação fisioterapêutica progressiva, com foco em ganho de amplitude, exercícios em cadeia cinética fechada e fortalecimento do vasto medial oblíquo.
Além disso, utiliza-se métodos auxiliares, como drenagem articular ou uso de órteses estabilizadoras, embora não existam evidências conclusivas sobre sua eficácia.
Apesar dessas medidas, entre 15% e 45% dos pacientes evoluem com instabilidade recorrente, e o retorno ao esporte pode ser limitado.
Abordagem cirúrgica
Reserva-se a abordagem cirúrgica para casos de instabilidade recorrente ou quando há fraturas osteocondrais significativas.
Mais de cem técnicas já foram descritas, refletindo a ausência de consenso sobre um procedimento padrão. Nesse contexto, divide-se as opções em:
- Procedimentos de partes moles, como liberação lateral, imbricação medial e, sobretudo, reconstrução do ligamento femoropatelar medial, que ganhou destaque por sua maior previsibilidade e melhores resultados em instabilidade recorrente sem alterações ósseas significativas.
- Procedimentos ósseos, como as osteotomias de transferência do tubérculo tibial (Elmslie-Trillat, Fulkerson ou distalização), que reposicionam a inserção do tendão patelar para melhorar o encaixe da patela na tróclea e reduzir a sobrecarga articular.
- Trocleoplastia, indicada em casos de displasia troclear grave com instabilidade persistente, consistindo no aprofundamento cirúrgico do sulco troclear para aumentar a contenção da patela.
Em suma, a escolha terapêutica deve ser individualizada, considerando fatores clínicos, anatômicos e funcionais, sempre equilibrando riscos e benefícios de cada abordagem.
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Referências
- Jibri Z, Jamieson P, Rakhra KS, Sampaio ML, Dervin G. Patellar maltracking: an update on the diagnosis and treatment strategies. Insights Imaging. 2019 Jun 14;10(1):65. doi: 10.1186/s13244-019-0755-1. PMID: 31201575; PMCID: PMC6570735.
- Moore BR, Bothner J. Recognition and initial management of patellar dislocations. UpToDate, 2025.
- O’Connor FG, Mulvanney SW. Patellofemoral pain. UpToDate, 2025.