Introdução à Patologia
A Patologia é a ciência que estuda os processos das doenças, desde sua causa até os seus desdobramentos clínicos. O processo de uma doença compreende a sua etiologia, a sua patogenia, as suas alterações morfológicas, e as suas desordens funcionais e manifestações clínicas.
A etiologia da doença é a sua causa, o estímulo primordial que desencadeou o processo da doença. A patogenia é sequência de eventos de respostas celulares desde estímulo inicial até a expressão final da doença. As alterações morfológicas são as modificações na estrutura microscópica, a nível celular, e macroscópica, já disseminadas pelos tecidos e órgãos, resultantes da patogenia. Por fim, as desordens funcionais e as manifestações clínicas ocorrem simultaneamente, expressando, respectivamente, a perda da função orgânica e a sinalização de que algo está errado no organismo.
Na fibrose cística, temos como etiologia um gene defeituoso, que provoca como patogenia a síntese celular de proteínas defeituosas. Em consequência disso, uma série de alterações morfológicas provoca, por exemplo, a formação de cistos e fibrose nos pulmões. Dessa forma, a função pulmonar de expansão durante a respiração fica comprometida e o indivíduo manifesta clinicamente dificuldade em respirar.
Adaptação celular
O nosso organismo está sempre buscando o equilíbrio, por meio de mecanismos de homeostase, a fim de se manter funcional e saudável. Quando nossas células sofrem algum tipo de estresse ou estímulos nocivos, esse equilíbrio é colocado em cheque. Então, são convocadas algumas respostas celulares no intuito de diminuir ou cessar essas injúrias.
Caso a célula sofra uma lesão reversível, ela passa por um período de estresse adaptativo, modificando suas características para a sua nova realidade. Contudo, às vezes, o estímulo nocivo é tão forte que a célula é incapaz de se adaptar, sendo lesionada e podendo evoluir para situações de irreversibilidade e até à morte celular.
Temos seis principais respostas celulares adaptativas: hiperplasia, hipertrofia, atrofia, hipoplasia, hipotrofia e metaplasia.
Na hiperplasia, ocorre o aumento do número das células pelo aumento do número de mitoses. Ela ocorre, devido à estimulação excessiva das células-alvo por hormônios ou fatores de crescimento e é exclusiva de tecidos cuja capacidade regenerativa é elevada. Pode ocorrer pela proliferação de células indiferenciadas, patológica, no caso de tumores e células-tronco, ou diferenciadas, fisiológica, no caso de regeneração hepática após hepatectomia parcial.
Já na hipertrofia, as células aumentam em tamanho, pois passam a sofrer maiores estímulos dos fatores de crescimento e hormônios, recrutados por conta da alta demanda e do forte estímulo trófico. Esse processo pode ser fisiológico, quando é hormonal ou compensatório, ou patológico, quando há a sinalização da proteína G ligada ao receptor. A hipertrofia das fibras musculares lisas do útero durante a gravidez, por ação mecânica e hormonal é um exemplo fisiológico e a hipertrofia cardíaca na cardiopatia chagásica é um exemplo patológico. É importante destacar que hiperplasia e hipertrofia podem acontecer concomitantemente.
Denominamos a diminuição em tamanho e em atividade metabólica da célula de hipotrofia ou atrofia, dependendo do seu curso. As principais causas dessa resposta adaptativa são sete: desuso, desnervação, diminuição do suprimento sanguíneo, nutrição inadequada, perda de estimulação endócrina, senil e (com)pressão. Pode ser fisiológica, como a atrofia da notocorda durante a embriogênese ou patológica, como a hipotrofia do endométrio, devido à compressão por leiomioma submucoso.
A hipoplasia consiste na diminuição no número de células de um tecido. Esse processo pode ser fisiológico, provocado pela diminuição do uso ou do estímulo hormonal, ou patológico, provocado por agentes tóxicos, tumores ou infecções. Como exemplo de hipoplasia fisiológica, temos a involução do timo durante a puberdade e das gônadas durante o climatério, e de hipoplasia patológica, temos a hipoplasia linfoide, devido à infecção por HIV.
A substituição de uma célula adulta epitelial ou mesenquimal por outro tipo de célula adulta é a metaplasia. O tipo de metaplasia mais frequente ocorre em razão da agressão do epitélio colunar ciliado respiratório, que pode ser provocada pela fumaça do cigarro ou pela irritação crônica por agente infeccioso na paracoccidioidomicose, por exemplo. O epitélio saudável é agredido até que sofre metaplasia para um epitélio escamoso estratificado.
Devemos ressaltar que se o estresse for eliminado ainda na fase adaptativa, a célula volta à homeostase e essas respostas deixam de acontecer e só retornam caso tenhamos algum estímulo futuro.
Outras respostas celulares além das adaptativas são as lesões, os acúmulos e o envelhecimento (senescência) celulares.
As lesões ou degenerações celulares são provocadas por alterações bioquímicas, que levam ao acúmulo de substâncias químicas no interstício ou no interior das células. Podem ocorrer por acúmulo de água e eletrólitos, hialina e/ou muco; por esteatose; ou por erros inatos do metabolismo, como lipidoses, glicogenoses e mucopolissacaridoses.
Os acúmulos intracelulares podem ser de constituintes celulares normais, como água, lipídeos, proteínas e carboidratos; substâncias anormais endógenas, como glicídeos, lipídeos e proteínas, ou exógenas, como sílica e produtos de agentes infecciosos; pigmentos endógenos, como a lipofuscina; pigmentos exógenos, como antracose por carvão inspirado do ar e fagocitado por histiócitos, pigmentos de tatuagem fagocitados por histiócitos e partículas de prata pela sua manipulação e/ou inalação em minas.Por fim, o envelhecimento celular se dá por uma conjuntura de fatores, dentre os quais podemos citar questões genéticas, teloméricas, imunológicas e a ação dos radicais livres. O processo senil é contínuo, progressivo, deteriorativo e irreversível, culminando com a morte celular, tecidual, orgânica e, finalmente, do indivíduo.
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Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
BRASILEIRO FILHO, G. Bogliolo Patologia. 9 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
CRUZ, I.B.M. Histologia do sistema linfático. Disponível em:
KUMAR, V.; ABBAS, A.K.; ASTER, J.C. Robbins & Cotran Patologia – Bases Patológicas das Doenças. 9 ed. São Paulo: Elsevier, 2016.
UFRJ. Departamento de Patologia. Faculdade de Medicina. Adaptação, lesão e morte celulares. Disponível em:
UNICAMP. Anatpat. Glioblastoma. Disponível em:
UNICAMP. Anatpat. Leiomioma uterino. Disponível em:
UNICAMP. Anatpat. Miocardite chagásica crônica. Disponível em:
UNICAMP. Anatpat. Paracoccidioidomicose. Disponível em:




