Confira neste artigo tudo que você precisa saber sobre intoxicação por anticonvulsivantes em adultos e crianças.
Os anticonvulsivantes são medicamentos essenciais no manejo de diversas condições neurológicas, como epilepsia, transtornos bipolares e neuropatias. No entanto, o uso inadequado, erros na administração ou até interações medicamentosas podem levar à intoxicação, uma condição potencialmente grave que exige atenção médica imediata.
Assim, entre crianças e adultos, as diferenças nas causas, manifestações clínicas e abordagens terapêuticas tornam o tema ainda mais desafiador e relevante para os profissionais de saúde.
Desse modo, o objetivo deste artigo é explorar os principais aspectos relacionados à intoxicação por anticonvulsivantes para orientar médicos na prevenção, diagnóstico e manejo dessa condição complexa.
Discussão da intoxicação por anticonvulsivantes em crianças
Os acidentes na infância são problemas de saúde pública e, por isso, devem ser debatidos. Dessa forma, a cultura da automedicação, no Brasil, está cada vez mais consolidada e a posse de remédios nunca esteve tão fácil. Em decorrência disso, o descuido de pais pode acarretar em possível intoxicação por medicação em crianças (principalmente por anticonvulsivantes).
Diversos estudos apontaram que o tipo de intoxicação varia de acordo com a faixa etária do paciente em questão. Até o primeiro ano de idade, a intoxicação pode ocorrer por uso de broncodilatadores e de descongestionantes nasais, devido a quantidade maior de infecções respiratórias nesse momento da vida (a criança saudável apresenta, em média, de 4 a 6 infecções ao ano; caso tenha irmãos ou frequente creches, a frequência sobe para 8 a 10).
De 1 a 4 anos, além desses medicamentos, os incidentes com psicofármacos são relevantes, visto que são casos mais comuns e, ao mesmo tempo, mais graves. Na faixa etária de 5 a 12 anos, contudo, esses tipos de intoxicações são substituídos por tentativas de suicídio, principalmente aos nove anos.
Os principais sintomas de intoxicação em crianças são: vômito, diarreia, desidratação, hipertermia e acidose metabólica, podendo facilmente ser confundidos com outras patologias. Devido a isso, é ainda mais essencial a anamnese completa em crianças, já que a dificuldade de diagnóstico favorece a ocorrência dos casos graves.
Intoxicações acidentais
Diversos fatores favorecem as intoxicações por anticonvulsivantes de maneira acidental na faixa etária de 1 a 4 anos: o aumento da curiosidade da criança, seu maior desenvolvimento motor e o fato de a maioria dos pais guardar os remédios na cozinha, um local que a criança geralmente possui acesso.
Desse modo, como forma de diminuir esse tipo de acidente na infância, foi adotada a Embalagem Especial de Proteção à Criança (EEPC) em medicamentos e em produtos químicos domiciliares.
Além disso, devido ao crescente número de crianças com intoxicação, um projeto de lei determinou a divulgação da advertência “Mantenha fora do alcance de crianças” na embalagem e na bula.
Erro de administração em adultos
Os anticonvulsivantes, por sua capacidade de deprimir o Sistema Nervoso Central (SNC), são designados para o tratamento de crises epilépticas.
Sabendo-se que os mecanismos de geração e de propagação das crises são diferentes, é essencial se identificar o tipo de epilepsia e fazer a escolha do anticonvulsivante adequado ao tratamento.
| Anticonvulsivante | Tipo de crise |
| Carbamazepina | Crises parciais simples e complexas e nas generalizadas tônico-clônicas secundárias a uma descarga focal |
| Clonazepam | Mioclônus e outras formas de epilepsia em crianças |
| Diazepam | Tratamento de emergência do estado de mal epiléptico |
| Fenitoína | Tratamento de crises parciais simples e complexas, com ou sem generalização secundária, e de crises tônico-clônicas generalizadas primárias. Em estado de mal epiléptico é dada em sequência ao diazepam |
| Fenobarbital | Eficácia em quase todos os tipos de epilepsia, exceto nas crises de ausência. Contudo, atualmente, não é utilizado como primeira escolha em nenhum tipo de crise |
| Sulfato de magnésio | Prevenção de convulsões em pré-eclampsia e eclampsia |
Principais pontos da intoxicação em anticonvulsivantes
Carbamazepina:
Dose Tóxica: Acima de 20 mg/kg
Sinais e Sintomas: Geralmente afetam o sistema nervoso central (SNC), cardiovascular e respiratório. Assim, podem apresentar sonolência, agitação, alucinações, coma, visão borrada, distúrbio da fala, disartria, nistagmo, ataxia, discinesia, hiper-reflexia inicial, hipo-reflexia tardia, convulsões, distúrbios psicomotores, mioclonia e hipotermia; taquicardia, hipotensão (em alguns casos, hipertensão) e distúrbio de condução com ampliação do complexo QRS; depressão respiratória e edema pulmonar.
Clonazepam:
Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é de 20 mg/dia e não deve ser excedida.
Sinais e Sintomas: Sonolência, ataxia (perda da coordenação dos movimentos), disartria, nistagmo, confusão mental, excitação e lentidão de movimento.
Obs: Não é recomendado para Insuficiência Hepática (IH) grave. Na IH moderada, diminuir a dose em 50%.
Diazepam:
Dose Tóxica: Os seguintes valores são referentes à dosagem máxima por dia
- Mal epiléptico: 3 mg/kg
- Eclâmpsia: 100 mg
Sintoma: Depressão Respiratória
Obs: Reduzir a dose em 50% caso haja IH ou Insuficiência Renal (IR).
Fenitoína:
Fenitoína 5%:
→ Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é 30 mg/kg/dia
Fenitoína sódica 100 mg:
→ Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é 600 mg/dia
Sinais e Sintomas: Nistagmo, ataxia e disartria. O paciente torna-se comatoso, com pupilas não responsivas, e ocorre uma hipotensão. Além disso, outros sinais são: tremores, hiper-reflexia, letargia, fala arrastada, náuseas, vômitos. A morte pode ocorrer devido à depressão respiratória e apneia.
Obs: Pode haver um aumento da concentração de fenitoína livre em pacientes com IH ou renal; a análise das concentrações de fenitoína livre pode ser útil nestes pacientes
Fenobarbital:
Fenobarbital 200 mg:
→ Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é de600 mg/dia
Fenobarbital sódico 100 mg:
→ Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é de 3 mg/kg/dia
Fenobarbital sódico 40 mg/mL:
→ Dose Tóxica: A dose máxima recomendada é de 3mg/kg/dia
Sinais e Sintomas: Em crianças, principalmente, ele causa não só hipercinesia (motilidade patologicamente excessiva), como também alterações comportamentais. Já em adultos, pode causar desde uma ataxia ou depressão até o coma e a morte.
Obs:
IR: ClCr<10mL/min aumentar o intervalo entre as doses para 12-16h.
IH: reduzir a dose e monitorar
Sulfato de magnésio 50%:
Dose Tóxica: 40 g/dia
Sinais e Sintomas: O desaparecimento do reflexo patelar é um sinal clínico do início de intoxicação por magnésio.
Obs: Quando o paciente possuir IR, ele deve ser administrado com extrema cautela (excreção renal exclusiva).
Conclusão
A intoxicação por anticonvulsivantes mostrou-se presente, principalmente, em crianças na faixa etária de 1 a 5 anos. Seja em decorrência de falha na administração desse medicamento ou em caso de acidente, esse dado reforça a importância da atenção constante no cuidado com as crianças, da revisão da prática de prescrição médica e do combate à cultura da automedicação.
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) é um departamento técnico cuja função é fornecer informações e orientações ao profissional da saúde a fim de otimizar o atendimento (em relação ao diagnóstico e ao tratamento). Atua 24h, todos os dias.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Superdosagem carbamazepina – https://www.bulas.med.br/p/detalhamento-das-bulas/1194899/superdosagem+carbamazepina.htm
Intoxicação medicamentosa em crianças: uma revisão de literatura – https://pdfs.semanticscholar.org/337c/3ac6fe415c1dd0d6b7f2889a3785a2eec33a.pdf
Uma abordagem sobre casos de intoxicação por medicamentos anticonvulsivantes barbitúricos: fenobarbital – http://www.faema.edu.br/revistas/index.php/Revista-FAEMA/article/view/749
Perfil das intoxicações agudas exógenas infantis na cidade de Maringá (PR) e região, sugestões de como se pode enfrentar o problema – https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-299951
Intoxicação por psicofármacos – https://ciatox.es.gov.br/Media/toxcen/Aulas/Psicof%C3%A1rmacos-1.pdf
Guia de doses máximas e mínimas do HU-UNIVASF – http://www2.ebserh.gov.br/documents/220938/3187581/Guia+de+Doses+M%C3%A1ximas+e+M%C3%ADnimas+do+HU-UNIVASF.pdf/233afafc-9660-4bbb-8591-3c14c2fd2409
Clonazepam – https://cdn.eurofarma.com.br//wp-content/uploads/2016/09/clonazepam-bula-paciente-eurofarma.pdf
Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Goiás – https://www.saude.go.gov.br/vigilancia-em-saude/ciatox