No contexto
da pandemia da SARS-COV-2, foram aventadas e testadas várias hipóteses de
terapias medicamentosas com a finalidade de reduzir a mortalidade dessa nova
doença. Dentre os tratamentos mais polêmicos, estava a associação de
hidroxicloroquina com azitromicina, dois medicamentos que juntos alavancam um
potencial fator arritmogênico pelo aumento do intervalo QT.
O objetivo
deste texto é justamente esclarecer dúvidas e fornecer algumas dicas baseadas
em evidências sobre esse intervalo na hora de descrever o laudo do
eletrocardiograma.
1) Afinal, o que é
o intervalo QT?
É a medida do
início do complexo QRS até o final da onda T (figura 1), o que representa toda
atividade de despolarização e repolarização ventricular. É a representação
elétrica do período compreendido entre a contração isovolumétrica até o
relaxamento ventricular isovolumétrico (1,2).

Adaptado e extraído de: https://litfl.com/qt-interval-ecg-library/
2) Em qual
derivação do eletrocardiograma posso medir esse intervalo?
Normalmente a
recomendação é de medir esse intervalo em DII ou em V5 (1,3);
3) Qual a
importância clínica desse intervalo?
A identificação de
um intervalo QT corrigido pela frequência cardíaca, tanto aumentado quanto
diminuído para o valor de referência, está associada a um risco maior de
arritmias ventriculares e morte súbita, respectivamente (4).
4) Como corrigir o intervalo QT pela frequência cardíaca?
A medida corrigida
pela frequência cardíaca é a que deve ser considerada na prática clínica. O
cálculo consiste em medir o intervalo QT e a distância entre os picos da onda R
entre cada QRS em segundos (lembrando que cada quadradinho no eletrocardiograma
padronizado tem duração de 40ms = 0.04s). A seguir, aplica-se esses valores em
fórmulas disponíveis gratuitamente em vários aplicativos (Ex: MDCalc).
5) OK… mas que fórmula usar?
Depende da
frequência cardíaca; A Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia
recomenda que, para frequência cardíaca entre 60 a 90 bpm, seja utilizada a
fórmula de Bazzet. Para frequência cardíaca fora desse intervalo, pode-se
utilizar as fórmulas de Framigham ou Hodges (5).
6) Quais os valores normais?
O valor do
intervalo QT corrigido é normal para homens até 450ms, enquanto que para
mulheres o esperado é até 460ms (3); No caso de pacientes pediátricos, valor
normal também é até 460ms e o limite inferior de normalidade é 340ms (5).
7) E em pacientes com evidência de bloqueio de ramo esquerdo?
Essa pergunta foi
respondida em 2017 por Bogossian e colaboradores. Visto que o bloqueio de ramo
prolonga o QT por alterações de repolarização, foi realizado o seguinte ajuste na medida do QT dessa
situação: medir o QT e subtrair desse a metade da duração do complexo QRS; Em
seguida, usar esse valor final na correção pela frequência cardíaca.
Ex: ECG com
bloqueio de ramo esquerdo; QRS = 140ms e QT = 480ms. O valor a ser utilizado na
correção pela frequência cardíaca será: 480 – 140/2 = 410ms = 0.41s. (6)
8) E em pacientes
com fibrilação atrial?
“Em ritmo de
fibrilação atrial, a correção do QT pode ser feita a partir do QTc médio de 5
batimentos em D2, usando a fórmula de Fridericia. O intervalo RR deve ser
obtido pela média de 10s (que corresponde a FC média dos registrados no D2
longo).” (7,8).
9) Quais os valores de QTc mais associados à arritmias?
Normalmente QTc prolongado >500ms está fortemente associada a Torsade de Pointes, enquanto QTc <300ms está mais associado com morte súbita (4). Assim sendo, é sempre importante checar o intervalo QTc antes de introduzir alguma medicação que o prolongue e propicie essas complicações indesejadas (Ex: Azitromicina e Antipsicóticos).
Autor: Gabriel Martinez, Estudante de Medicina.
Instagram: @gabriel.martinez1995