Inteligência emocional na prática médica: a chave para o sucesso profissional e pessoal | Colunistas

  • agosto 23, 2020
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Inteligência emocional na prática médica: a chave para o sucesso profissional e pessoal | Colunistas

A excelência acadêmica na Medicina é uma característica comum. Geralmente os jovens estudantes são acostumados ao bom desempenho acadêmico – ou têm um histórico impecável de excelência cognitiva ou se esforçaram muito para passar no vestibular. Em ambas as situações, sempre nos fazem acreditar nesta premissa: inteligência cognitiva é importante.

A inteligência cognitiva diz respeito a aspectos como pensamento, abstração, raciocínio, memória, linguagem e capacidade de resolução de problemas. É o tipo de inteligência que a educação tradicional busca desenvolver e que os vestibulares costumam quantificar e classificar. É a inteligência cognitiva, portanto, a utilizada para dizer a um indivíduo: “você está pronto para ser médico – bem vindo à universidade!”.

Mas, cá entre nós, sabemos que há muitos problemas por trás disso.
Isso porque os aspectos cognitivos não são os únicos determinantes de uma boa prática médica.

Chega a ser ingênuo acreditar que, por ter um histórico considerável de notas máximas, o indivíduo será capaz de lidar com desafios como entraves interpessoais, colaboração entre a equipe de cuidado, educação do paciente, empatia, rotina extenuante de trabalho, necessidade de atualização e tantas outras condições impostas pela profissão médica.

Inteligência Cognitiva vs. Inteligência Emocional

A inteligência cognitiva é, sim, importante, mas ela não é tudo. Na verdade, ela nem mesmo é o máximo. E isso é devido ao que Daniel Goleman, psicólogo popularizador do conceito de Inteligência Emocional (IE), chama de “efeito do andar de cima”.

Em um campo onde a excelência cognitiva é comum, seu nível de Quociente Intelectual (QI) não é tão importante. Se todos os seus pares foram selecionados na mesma “peneira cognitiva” que você, seu QI torna-se apenas uma condição necessária para você entrar no jogo – ele não prediz sua capacidade de obter sucesso profissional.

O diferencial encontra-se, na verdade, na Inteligência Emocional. Ela discrimina, com maior fidedignidade que o QI, o indivíduo que, dentre um grupo de pessoas de alta competência, pode ser o líder mais hábil. Ou, no nosso caso, o médico mais empático, o melhor comunicador/educador ou o melhor administrador pessoal de emoções – habilidades necessárias para lidar com pacientes, equipes e consigo mesmo.

Espectro de inteligências: existe uma melhor?

Entenda que há um espectro de inteligências e ele é bem maior do que nos fizeram acreditar, indo muito além de boas notas e de raciocínio rápido. O psicólogo Howard Gardner identificou um espectro de 9 tipos de inteligência, o que ampliou pesquisas e revolucionou metodologias educacionais ao redor do mundo.

Fonte: https://www.aec.com.br/Site/Noticia/14658?slug=multiplas-

inteligências

No seu modelo, Gardner destaca os seguintes tipos de inteligência:

  • Viso-espacial;
  • Interpessoal;
  • Intrapessoal;
  • Existencial;
  • Corporal cinestésica;
  • Linguística;
  • Lógico-matemática;
  • Musical;
  • Naturalista.

O que é, afinal, inteligência emocional?

Nesse contexto de múltiplas inteligências, percebemos a IE como a capacidade de lidar com as emoções: perceber, expressar, assimilar, compreender, raciocinar e regulá-las em si e nos outros.

Os psicólogos Mayer e Salovey, ao cunharem a definição de IE, expandiram o conceito em 5 aptidões:

  • Autoconsciência: capacidade de reconhecer as próprias emoções;
  • Autorregulação: capacidade de lidar com as próprias emoções;
  • Automotivação: capacidade de se motivar e de manter o autocontrole;
  • Empatia: capacidade de reconhecer as emoções nos outros;
  • Habilidades sociais: capacidade de lidar com relacionamentos.

Aplicação das aptidões na prática médica

“- Quem ensinou tudo isso ao senhor, Doutor?
A resposta veio prontamente: O sofrimento.”

Albert Camus, em A Peste

Não basta conhecer conceitos de IE: sua aplicação na prática é extremamente necessária. Principalmente quando se considera o contexto de profissão em que lidar com pessoas (com todos seus anseios, esperanças e medos) é a rotina esperada.

Lembre-se que, muitas vezes, o paciente não saberá distinguir se você é tecnicamente competente (ele já parte do pressuposto de que você o seja). Mas, mesmo assim, ele fará um julgamento interno, classificando você em bom/mau médico; o interessante é que provavelmente o critério não será seu conhecimento, mas, antes, sua forma de se relacionar.

Um estudo realizado com pacientes internados avaliou seu grau de satisfação com a equipe de saúde. Dentre as questões relacionadas ao corpo médico, notou-se que:

  • 90% dos pacientes estavam insatisfeitos com a falta de informações que deveriam ser prestadas pelo médico;
  • Muitos queixaram-se por não receber a devida atenção;
  • As informações, quando recebiam, eram passadas de forma muito rápida;
  • Ficavam inseguros, já que suas expectativas quanto à doença e ao processo de recuperação não eram bem elucidadas.

Note que os aspectos destacados dizem respeito a habilidades sociais e empatia, as aptidões de IE que mais se exteriorizam.
Se questões de IE são as que mais trazem insatisfação na relação médico-paciente, por que não as trabalhar, buscando a excelência na sua prática?

1 – Autoconsciência

A primeira aptidão de IE diz respeito à autoconsciência, percebida como a capacidade de reconhecer as próprias emoções. Apesar de aparentemente simples, essa aptidão nos desafia a reconhecer nosso estado de espírito de forma consciente e, ao mesmo tempo, de uma maneira distante e não reativa.

Nesse processo, é de fundamental importância a percepção de clareza em relação a como sentimos, pensamos e agimos. Essa percepção, entretanto, não deve vir acompanhada de um “arrasto emocional”, mas, primeiramente, de uma observação sensível (porém distanciada) das emoções. Deve-se colocar as situações e emoções em perspectiva para dar apoio a uma análise concreta e acurada do seu estado de espírito.

Por que é importante desenvolver autoconsciência na prática médica?

Como desenvolver autoconsciência?

Como a autoconsciência provém de um estado de sensibilidade e percepção interna, as práticas que ampliam essa aptidão devem conter momentos de autoanálise e distanciamento. Alguns exemplos:

Terapia – Muitas vezes, o processo de autoconhecimento encontra barreiras que dificilmente são superadas sozinhas. Contar com a ajuda de um profissional para lhe guiar durante o caminho pode ser uma boa escolha;

Meditação – Com o enfoque no presente, a meditação permite o distanciamento de emoções e pensamentos, necessário ao processo de autoconsciência.

Rede de apoio – Verbalizar suas emoções com pessoas de confiança permite reorganizar e catalogar sentimentos, algo imprescindível no processo de autoconsciência. E, ao fazê-lo em um ambiente de segurança, suas emoções podem ficar mais acessíveis ao seu consciente.

Diário – Anotar pensamentos, acontecimentos e aprendizados pode trazer à superfície emoções que estavam antes submersas, além de servir como prática terapêutica.

Ouça feedbacks – Estar disposto a receber feedbacks pode auxiliar no processo de percepção dos pontos cegos pessoais (aqueles que são notórios aos outros, mas imperceptíveis a nós).

2 – Autorregulação

A autorregulação diz respeito à capacidade de gerenciar as próprias emoções. Aqui entra em cena um conceito importante: temperança – a capacidade de ter domínio de si, apesar das urgências de seus sentimentos e desejos. Interessante notar que a questão é sobre equilíbrio, e não repressão. Ou seja, dar às emoções as dimensões proporcionais às circunstâncias.

Por que é importante desenvolver autorregulação na prática médica?

Burn out e Suicídio – A profissão médica é a mais acometida por burn-out e suicídio. Dentre tantos fatores predisponentes, o arrebatamento pela ansiedade é a realidade mais correlacionada a esses eventos e, infelizmente, a mais comum em nosso meio. Ao praticar a autorregulação, é possível proteger nosso bem-estar ao criar condições favoráveis para que sentimentos tempestuosos não nos arrebatem.

Más notícias – Para que a comunicação de más notícias seja efetiva, é necessário tanto empatia quanto autorregulação, para que seja possível equilibrar clareza no discurso e sensibilidade na comunicação.

Trabalho em equipe – Para que haja equilíbrio nas relações sociais, a prática da autorregulação é imprescindível. A habilidade de gerenciar os impulsos e os sentimentos que têm potencial de atrapalhar sua dinâmica de trabalho não pode estar longe de sua vista. Considerando que o trabalho em saúde se faz por meio da multidisciplinaridade, a harmonia através da autorregulação individual se faz extremamente necessária.

Como desenvolver autorregulação?

Reconheça e sinta – Após passar pelo processo de autoconsciência, nomeie o sentimento que você percebe em si e dê espaço para senti-lo. A repressão é inútil e desnecessária – reconheça, sinta e deixe fluir. Este é o espaço necessário que você precisa para o próximo passo.

Analise sob perspectiva – Utilize-se do distanciamento (ao qual nos referimos no processo de autoconsciência) para analisar a situação sob perspectiva. No plano geral da sua vida, que lugar esse sentimento e essa situação ocupam? Você está oferecendo energia para esse sentimento na medida proporcional às reais circunstâncias?

Perceba o que realmente está sob seu controle – Uma antiga filosofia grega chamada estoicismo costumava correlacionar felicidade às questões sobre as quais realmente temos controle. Ao tomar ciência do que está (ou não está) sob nosso controle, podemos poupar esforços e infelicidades na busca pelo sentimento de plenitude. Só podemos agir e, consequentemente, nos preocupar com coisas que estão sob nosso controle. Sobre todo o resto, o esforço seria inútil e apenas levaria ao desgaste. Concentrando-se apenas no que está sob seu controle, você poderá ter uma vida feliz (teoricamente).

Liberte-se do que não está sob seu controle – Qualquer situação externa que não demande ação ou pensamento seu está fora do seu controle e, portanto, deveria estar fora da sua zona de preocupação. Libertar-se do que não se pode controlar é liberar espaço para que surja a criatividade necessária para lidar com seus pensamentos e ações – esses sim estão no seu controle.

3 – Automotivação

A automotivação é a capacidade de se motivar e de manter-se motivado – diz respeito ao direcionamento de energia para determinado fim.
Por que é importante desenvolver automotivação na prática médica?

Carreira – A carreira médica, embora ainda tenha um panorama otimista de perspectivas financeiras, conta com um processo longo e repleto de sacrifícios para a sua construção. A formação médica demanda mais tempo do que as profissões em geral para sua “conclusão” (entre aspas devido à necessidade constante de atualização do profissional médico).Além disso, os desgastes físicos/emocionais, devido às jornadas de trabalho extensas e à relação com pessoas em seus momentos de enfermidade, demandam alta energia mental. Estas particularidades da carreira médica exigem, eventualmente, que o indivíduo tenha alto grau de comprometimento com suas motivações internas para que o exercício da profissão seja possível.

Residência médica – A maior parte dos médicos decide optar por uma especialização, o que exige preparação para os processos seletivos de residência médica, que costumam ser concorridos devido à desproporção entre o número de vagas e o número de formandos.A automotivação faz-se extremamente necessária em contextos de processos seletivos, especialmente na área médica, onde os concorrentes já passaram pelo “funil cognitivo” do vestibular. Além disso, a realidade de residente – com cargas horárias extensas, sobrecarga de trabalho e baixa remuneração – exige grande automotivação e senso de propósito em seu trabalho.

Como desenvolver automotivação?

Autoconhecimento – Ter clareza sobre seus propósitos lhe ajuda a tomar decisões alinhadas com seus objetivos de vida, o que pode facilitar o processo de manter-se motivado.

Personalidade – Outra forma é buscar compreender ao que sua personalidade responde em termos de motivação. Expectativas internas, expectativas externas, razão, liberdade? Quais valores são inegociáveis à sua personalidade quando se trata de motivação para ações?

4 – Empatia

A empatia é a capacidade de se identificar com o outro. Colocar-se no lugar do próximo e se identificar com a forma com que ele sente, age e pensa. É necessário, entretanto, que haja sensibilidade e disponibilidade emocional para que a empatia seja possível – desnudar-se um pouco de si e vestir-se com a história do outro para, assim, enxergar com seus olhos.

Na prática médica, esta é uma das características mais importantes no contexto da inteligência emocional. Os pacientes estão, na maioria das vezes, em situações de vulnerabilidade. Eles esperam de nós o cuidado e a atenção que a situação (para eles) demanda. Entender esse contexto e estar sensível às demandas do doente em sofrimento nos faz não apenas médicos, mas seres humanos melhores.

Por que é importante desenvolver empatia na prática médica?

Relação médico-paciente – Um dos grandes calos da prática médica tem sido a falta de empatia para com os pacientes – tanto que já faz parte do imaginário popular as expectativas negativas quanto ao atendimento. Como já exposto, o paciente encontra-se em situação de vulnerabilidade. Compreender isso e estar disposto a enxergar a situação sob a ótica dele torna possível a humanização do cuidado e a melhora da acurácia técnica.

Más notícias – Junto com a autorregulação, a empatia é uma competência extremamente necessária no contexto de entrega de más notícias. Não por acaso, os três primeiros passos do protocolo SPIKES dizem respeito a ações que tem como pano de fundo a empatia (Setting up, Perception e Invitation).

Como desenvolver empatia?

Escuta ativa – Quando for se comunicar com o paciente, dê a ele seu lugar de fala e escute ativamente, com interesse genuíno na mensagem. É comum que a mente fique trabalhando em respostas enquanto escutamos o outro; a proposta é mudar esse padrão. A escuta ativa é basicamente mostrar interesse e ser curioso sobre o real significado do que o outro tenta expressar. Significa assumir, através do diálogo, uma postura generosa e compreensiva com quem fala.

Envolver-se em comunidades – Outra estratégia pode ser envolver-se em grupos e comunidades com o objetivo de trabalhar a sensibilidade ao próximo. Em um contexto de supremacia da individualidade, conectar-se com o sentimento gregário humano pode calibrar nossos níveis de empatia e nos ajudar a trabalhar habilidades empáticas.

5 – Habilidades sociais

Por fim, as habilidades sociais dizem respeito à capacidade de lidar com relacionamentos. Este componente é interessante. Apesar de ser de importância vital na prática médica (considerando a obrigatoriedade da multidisciplinaridade no cuidado em saúde), somos pouco calibrados nessas habilidades durante nossa formação.

O caminho que percorremos costuma ser solitário: estudar sozinho para o vestibular, para a faculdade, para a residência. Quando tudo dá certo e chegamos ao fim da jornada – a carreira médica –, somos expostos a um contexto em que nada se resolve sozinho. O sentimento de desespero é quase palpável.

Por que é importante desenvolver habilidades sociais na prática médica?

Trabalho em equipe – O cuidado em saúde não é trabalho de um homem só. Sempre precisaremos de outros profissionais, seja de colegas de outras especialidades, seja de outras profissões. As habilidades sociais determinarão, muitas vezes, se o trabalho será minimamente suportável e eficaz em seus objetivos. O capital humano sempre importa. E ele é, muitas vezes, o maior preditor de sucesso de um serviço de saúde.

Networking – As habilidades sociais determinarão quem é capaz de formar uma rede de contatos com potencial de oportunidades profissionais futuras. É de extrema relevância na prática médica, já que a conversão de pacientes é feita muitas vezes através de indicações de colegas. Além disso, muitas oportunidades em pesquisa e publicação são possíveis através de um networking eficaz.

Ensino – A prática médica está cercada pelo ensino, sendo essa uma realidade sempre próxima do profissional. As habilidades sociais determinam, muitas vezes, quem será o comunicador mais eficaz e, portanto, o profissional mais didático e marcado pelos aprendizes.

Como desenvolver habilidades sociais?

Pratique empatia – As pessoas sentem-se mais confortáveis quando percebem que seus pensamentos e sentimentos são compreendidos. Nesse sentido, a prática da empatia ajuda a criar um ambiente de harmonia e colaboração entre os envolvidos.

Escuta ativa – Como a escuta ativa auxilia na criação da empatia, ela também gera um ambiente propício à comunicação segura e generosa. Estar genuinamente interessado no discurso do outro é um dos grandes pilares para o desenvolvimento das habilidades sociais.

Receba feedbacks – Estar disposto a receber feedbacks aumenta a sua abertura aos outros, o que permite uma aproximação construtiva da equipe.

Seja educado – Componente básico da civilidade, o uso das boas maneiras costuma gerar uma boa impressão entre os pacientes e os membros da equipe. Seja capaz de oferecer elogios e cumprimentos nas ocasiões propícias. Além disso, seja cortês nas solicitações de favores.

Na realidade atual da prática médica, ser bom tecnicamente já não é o bastante. As soft skills se tornam extremamente necessárias, visto que o sucesso profissional se baseará, em um futuro próximo, na capacidade de se posicionar e se comunicar.

A inteligência emocional, com suas aptidões, torna-se, então, extremamente necessária ao médico do futuro. Não apenas para que haja sucesso profissional, mas, principalmente, para que haja abundância de qualidade de vida – para si e para os pacientes.
Que sejamos mais inteligentes emocionalmente!

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