Entenda os principais pontos sobre a insuficiência cardíaca, como diagnosticá-la e tratar o seu paciente! Bons estudos!
A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica complexa, e um caminho comum para alguns quadros comuns no atendimento básico do generalista. Assim sendo, é fundamental que o médico compreenda a doença e saiba conduzir o plano terapêutico do paciente.
Como definir a Insuficiência Cardíaca?
A insuficiência cardíaca (IC) corresponde a incapacidade do coração em bombear o sangue adequadamente devido à disfunção sistólica, diastólica ou ambas, de um ou dos dois ventrículos.
Como resultado, se tem um prejuízo a longo prazo e significativo do atendimento das necessidades metabólicas teciduais.
Esse quadro leva ao aparecimento de diversos sinais e sintomas que, quando persistentes, impactam significativamente na qualidade de vida do paciente.
Dentre as principais causas de insuficiência cardíaca, temos:
- Cardiopatia isquêmica;
- Hipertensão arterial sistêmica;
- Valvopatias;
- Cardiomiopatias;
- Obesidade;
- Doença de Chagas;
- Tabagismo, entre outras.
Ainda sobre sua definição, é importante não confundir a insuficiência cardíaca com a própria disfunção ventricular.
Classificação de risco da Insuficiência Cardíaca: como é feita?
A insuficiência cardíaca pode ser classificada em 4 estágios, de A a D. Eles estadiam a doença segundo a morfologia e os sintomas do paciente.
Os estágios A e B determinam um alto risco de desenvolvimento da doença, enquanto que no C e D o paciente já tem a IC.
No estágio A, embora o paciente tenha o risco de desenvolvimento da insuficiência cardíaca, ainda não existem sinais de comprometimento estrutural cardíaco, ou sintomas da doença.
Já no estágio B, embora o paciente tenha a doença estrutural, não apresenta sinais ou sintomas de insuficiência cardíaca. Lembrando que tanto no A quanto no B os riscos são altos. Assim, no estágio C já se tem instalada a doença estrutural somando-se aos sinais e sintomas da IC. Por fim, em D o quadro já se classifica como refratário.
Outra maneira de classificar a IC é segundo a FRAÇÃO DE EJEÇÃO CARDÍACA, critério importantíssimo na análise morfológica do coração e da capacidade funcional do indivíduo.
Com isso, a fração de ejeção cardíaca pode ainda estar preservada (ICFEP) ou não, conhecida como refratária (ICFER).


Epidemiologia da Insuficiência Cardíaca
Infelizmente, a IC não tem um tratamento definitivo e, por esse motivo, representa um elevado custo ao sistema de saúde e social. Nos Estados Unidos, por exemplo, o custo anual da insuficiência cardíaca beira os 11 bilhões, devido a cerca de 1 milhão de internações.
Esse é um dado relevante visto que, no mundo, são aproximadamente 26 milhões de portadores de insuficiência cardíaca, com um prognóstico ruim de cerca de 45% de chance de falecimento nos primeiros 5 anos.
A prevalência dessa doença vem aumentando ao longo do tempo, principalmente devido ao envelhecimento populacional. Nos Estados Unidos, cerca de 20% das internações hospitalares de idosos com mais de 65 anos são devido a insuficiência cardíaca.
A incidência de IC em adultos jovens é baixa e acomete mais frequentemente pacientes negros do que brancos. A hipertensão arterial é uma condição que aumenta o risco de insuficiência cardíaca em todas as idades, sobretudo quando a pressão arterial ≥ 160/100 mmHg.
As causas mais comuns são devido a infecções, como a Doença de Chagas e por causas cardiometabólicas e cardíacas.
Fisiopatologia
Para que o coração consiga bombear sangue adequadamente, suas funções sistólicas e diastólicas devem ser normais.
A função sistólica é representada pela capacidade de contração do miocárdio, enquanto a função diastólica representa a capacidade de enchimento da bomba.
Quando há um comprometimento em uma dessas funções, sobretudo na sistólica, parte do sangue não consegue ser bombeada, o que acaba repercutindo no sistema venocapilar.
As diferentes doenças contribuem de formas distintas no mecanismo de desenvolvimento da insuficiência cardíaca. Na DAC, a perda da aumento da resistência muitas vezes também resulta em um aumento do volume sistólico final (volume de sangue que permanece nos ventrículos no fim da contração ventricular), o que distende os sarcômeros dos cardiomiócitos.
Pela lei de Frank-Starling, o coração responde a essa distensão com um aumento da sua força de contração de forma que quanto maior for o retorno venoso, maior seria o volume sistólico.
No entanto, a capacidade cardíaca de se adaptar a essa distensão é limitada, e quando as fibras são exageradamente distendidas, ocorre um efeito paradoxal em que a força e eficácia da sístole se tornam reduzidas.
Diagnóstico da Insuficiência Cardíaca
Geralmente, o diagnóstico da insuficiência cardíaca é clínico e pode ser dado através dos critérios de Framingham.

A presença de 2 critérios maiores ou 1 critério maior e dois critérios menores confirmam o diagnóstico de insuficiência cardíaca.
Alguns exames complementares ainda podem ser usados para avaliação cardíaca, como o BNP, a radiografia de tórax e o ecocardiograma.
O screening para a insuficiência cardíaca é oportunidade para:
- HAS;
- Infarto Agudo do Miocárdio;
- Diabetes Mellitus;
- Doença valvar/doença reumática;
- Quimioterapia;
- Doenças inflamatórias sistêmicas;
- Mulheres com histórico de pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional;
- Morte súbita e/ou IC na família.
Descompensação da Insuficiência Cardíaca
É importante ressaltar que a conduta médica no PS e no ambulatório quanto à descompensação da insuficiência cardíaca são diferentes. Enquanto que no PS deve-se investigar as causas de descompensação, no ambulatório deve-se complementar com etiologia da IC.
Mnemônico “CHAMPS“
C – Síndrome Coronariana aguda
H– Hipertensão não controlada
A– Arritmia
M– causas Mecânicas
P– Embolia Pulmonar
S– Sepse
Como tratar a Insuficiência Cardíaca?
Como comentamos, ainda não existe um tratamento definitivo para a insuficiência cardíaca. Por isso, o tratamento se baseia em metas terapêuticas.
Assim sendo, as metas tem como objetivo a redução de mortalidade e controle dos sinais e sintomas. As drogas que tem benefício comprovado no aumento da sobrevida dos pacientes são:
1. Inibidores da enzina conversora de angiotensina (iECA);
2. Beta bloqueadores;
3. Antagonista da aldosterona;
4. Hidralazina + nitrato e ivabradina.
Os diuréticos podem ser utilizados no tratamento da IC, visando controlar os sinais e sintomas de congestão e edema, porém, essa classe de medicamento não demonstrou benefício na mortalidades desses pacientes.
Assim como os diuréticos, os digitálicos não causam impacto na sobrevida mas podem ser utilizados em pacientes com disfunção de ventrículo esquerdo sintomáticos.
Com isso, há melhora do inotropismo cardíaco e redução dos sintomas e hospitalizações. Também está indicado para controle da frequência cardíaca em pacientes com fibrilação atrial.
Novos hipoglicemiantes, como inibidores do SGLT-2 e análogos do GLP-1 provaram reduzir a mortalidade em pacientes diabéticos com doença cardiovascular.
Tratamento não farmacológico
Algumas orientações ao paciente são importantes, considerando a doença. É importante que ele e sua família seja orientado sobre a ingesta de sal, mirando em um valor diário < 7g.
Outra medida interessante é a reabilitação cardiovascular, através de exercício aeróbico. No caso dos pacientes com ICFER em classes funcionais II a III segundo o NYHA, tem um potencial de melhora da capacidade funcional.
Mapa mental


Pontos-chave sobre a Insuficiência Cardíaca
- A cardiopatia isquêmica é a principal causa de insuficiência cardíaca
- O diagnóstico da IC é clínico, através dos critérios de Framingham
- BNP, a radiografia de tórax, o ECG e ecocardiograma podem auxiliar no diagnóstico
- O tratamento medicamento é baseado em IECA ou BRA, betabloqueador e espironolactona
- A terapia medicamentosa adicional é composta por sacubitril/valsartana, ivabradina, hidralazina+nitrato, digoxina e diuréticos.

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Perguntas frequentes
- O que é insuficiência cardíaca (IC)?
Corresponde a incapacidade do coração em bombear o sangue adequadamente devido à disfunção sistólica, diastólica ou ambas, de um ou dos dois ventrículos. - Quais as principais causas de insuficiência cardíaca?
Cardiopatia isquêmica, hipertensão arterial sistêmica, valvopatias, cardiomiopatias, obesidade, doença de Chagas, tabagismo, entre outras. - Como é feito o diagnóstico de IC?
Geralmente, o diagnóstico da insuficiência cardíaca é clínico e pode ser dado através dos critérios de Framingham. A presença de 2 critérios maiores ou um critério maior e dois critérios menores confirmam o diagnóstico de insuficiência cardíaca.
Referências
- Bochi EA, Marcondes-Braga FG, Bacal F, Ferraz AS, Albuquerque, D, Rodrigues D, et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica – 2012 Arq Bras Cardiol 2012; 98 (1 supl.1): 1-33.
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- Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018; 111(3):436-539
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