As vacinas são, conhecidamente, meios importantes de controle e da profilaxia de doenças. Sabe-se que a sua ação está fundamentada no uso de partes, de produtos ou, até mesmo, do próprio agente etiológico que, ao ser inoculado no organismo, possui o intuito de induzir uma resposta imunológica essencial para prevenção de patologias. Sabendo disso, a medicina e a biotecnologia, vários modelos de vacinas começaram a ser produzidas e, dentre as inovações, a vacina de RNA mensageiro (mRNA) tem ganhado cada vez mais importância no meio científico.
O QUE É A VACINA DE RNA MENSAGEIRO?
A vacina de RNA mensageiro(mRNA) é uma forma inovadora, em estudo, de imunizar a população humana das doenças infecciosas virais. Diferente das outras vacinas, a ação da vacina de mRNA não age pela inoculação de vírus vivo atenuado ou partes dos vírus, mas sim, pelo o uso de proteínas de mRNA que irão induzir a formação de antígeno viral, causando a resposta imunológica contra o patógeno.
Essas proteínas mensageiras já eram reconhecidas e consideradas essenciais para o ciclo de replicação viral, pois elas garantem ao patógeno a capacidade de evadir do sistema imunológico por tempo suficiente para replicação antes que sejam reconhecidos pelo sistema imunológico. Contudo, o despertar da biotecnologia associada a medicina, ao codificar essa molécula de mRNA, selecionou a parte desse material suficiente apenas para a produção de antígenos pelas células do organismo humano sem provocar o desenvolvimento da doença. Dessa forma, a vacina ao inocular o material de mRNA, induz o comando para as células do organismo produzirem os antígenos, que ficam prontamente livres na superfície celular, para serem reconhecidos pelas células apresentadoras de antígenos e consequente resposta imunológica.
COMO FUNCIONA A VACINA DE RNA MENSAGEIRO NO ORGANISMO?
Para entender o funcionamento das vacinas de mRNA precisamos partir do básico, o funcionamento celular. Nas células, o RNA mensageiro é desenvolvido a partir da decodificação do DNA. Esse, ordinariamente, é responsável por levar a informação transcrita do DNA para que ocorra a produção das proteínas e estruturas celulares essenciais para o funcionamento celular.

Fonte: HALL, Jonh E. Guyton & Hall: Tratado de Fisiologia Médica, 13ª edição, Pág 89.
Por outro lado, quando infectada, a celular decodifica também o genoma viral, produzindo o mRNA viral, que irá formar, além das proteínas celulares, as proteínas do patógeno, constituindo, assim, o ciclo de replicação. Dentro dessa perspectiva, o agente agressor continua sua replicação até que seja reconhecido pelo sistema de defesa do organismo, por meio da produção e do reconhecimento de antígenos. Dessa maneira, quando isso ocorre, o conjunto de células do sistema imunológico, por meio dos seus mecanismos específicos, age diretamente combatendo-os.
Tendo conhecimento de tudo isso, a biotecnologia identificou as proteínas de mRNA viral para produzir vacinas, expondo esse material para as células de forma mais rápida e eficiente. Após serem inoculadas, as proteínas virais induzem instruções para as células. Desse modo, quando elas produzem partículas virais, o sistema imunológico reconhece que essas células estão com alguma falha, pois apresentam funcionalidade fora do padrão. Percebendo a falha, o organismo ataca e cria imunidade contra esse patógeno. Essa imunidade é representada pelos anticorpos e linfócitos T de memória, capacitando o organismo para defender de forma mais rápida e eficiente contra posteriores contatos com o vírus, conseguindo destruí-los, sem permitir que a doença se desenvolva.
Então, em síntese, a vacina funciona da seguinte maneira:

DIFERENÇA DA VACINA DE RNA MENSAGEIRO PARA AS VACINAS JÁ EXISTENTES
VACINAS DE DNA
Juntamente com a vacina de mRNA, compõem o grupo das vacinas genéticas. Contudo, a vacina com base em DNA difere da origem de atuação para a produção de antígeno. A imunização por mRNA já envia o comando para a célula de forma direta, já a imunização por DNA precisa passar pela etapa de transcrição do material.
VACINAS DE VÍRUS ATENUADO
Diferentemente da vacina de mRNA, esse tipo de vacina, por estar inoculando o vírus enfraquecido, requer um cuidado maior para certos grupos sociais, como grávidas, imunossuprimidos e idosos.
VACINAS COM OUTRAS PARTÍCULAS DO RNA VIRAL
A tecnologia clássica de se utilizar proteínas virais (estruturais e não estruturais) na elaboração de vacinas. Material de qualquer estrutura viral pode compor a base da vacina, como o capsídeo.
VANTAGENS E DESVANTAGENS DA VACINA DE RNA MENSAGEIRO
VANTANGENS
Podemos resumir as vantagens da vacina de mRNA em uma base com três pilares principais, são eles:
SEGURANÇA:
Como as vacinas de RNA não são feitas com patógenos vivos atenuados, partículas de patógenos ou patógenos inativados, não podem, portanto, serem consideras infecciosas. Desse modo, como o RNA não se integra ao genoma do hospedeiro, a fita de RNA da vacina é degradada assim que a proteína é produzida, não causando risco de desenvolvimento viral no corpo.
EFICÁCIA:
Os ensaios clínicos, com suas fases rigorosas, mostram que as vacinas são bem toleradas por indivíduos saudáveis e conseguem induzir uma boa resposta imune, de modo confiável, possuindo poucos efeitos colaterais.
PRODUÇÃO:
As vacinas podem ser produzidas mais rapidamente em laboratório em um processo que pode ser padronizado, o que melhora a capacidade de resposta a surtos emergentes.
DESVANTAGENS
Já as desvantagens que podemos mencionar até o momento são:
TRANSPORTE E CONSERVAÇÃO
Por tratar-se de material proteico, mesmo que envolto por camada lipídica, precisa de alguns cuidados especiais para seus transporte e conservação. Esse material não pode se submeter a grandes variações de temperatura, pois possui o risco de desnaturar o material, requerendo, assim, conservação em congelamento.
ATUALIZAÇÃO
A comunidade científica estima que as vacinas produzidas por mRNA, como as produzidas para a Covid-19, precisem de atualizações, pois foi percebido que os anticorpos produzidos por essa vacina tiveram eficácia reduzida ou mesmo abolida quando em contato com certas mutações desse vírus. Logo, será necessário, em certo tempo, atualizar a vacina para cobrir as novas cepas virais.
VACINA DE RNA MENSAGEIRO E COVID-19
As vacinas de RNA mensageiro têm demonstrado, em geral, resultados excelentes, construindo uma margem de segurança e com boas respostas imunes celular e humoral. O RNA vacinal é envolto em uma camada lipídica, evitando, dessa maneira, sua inutilização, devido degradação do material. Alguns laboratórios, como o americano Moderna, em parceira com o Instituto Nacional de Saúde Americano (NIH), e o laboratório americano Pfizer, em parceria com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech, destinou esforço para a fabricação de sua vacina com base no mRNA. Infelizmente, no Brasil, nenhuma dessas vacinas ainda teve sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para imunização da população.
A CHANCE PARA A PRODUÇÃO DE OUTRAS VACINAS
As vacinas de mRNA, mesmo que sejam de fabricação recente, possuem estudos e pesquisas que são realizadas por décadas, além de serem submetidas a todas as fases rigorosas de controle, até que sejam aplicadas em humanos. Essa inovação é de grande ganho para a humanidade, uma vez que podem representar alternativas para a produção de vacinas contra diversas doenças. As vacinas gênicas têm destinado, por exemplo, estudos para desenvolvimento de imunidade contra células cancerígenas específicas, gripes, zika vírus, raiva e citomegalovírus.
Dessa forma, tendo em vista tudo que foi apontado, nota-se que é importante destinar atenção para esse tipo de vacina, observando os futuros ganhos que ela poderá trazer para a humanidade.
Autor: Romeu Diógenes
Instagram: @diogenesromeu
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
- UNDERSTANDING mRNA COVID-19 Vaccines. [S. l.], 4 mar. 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/vaccines/different-vaccines/mrna.html. Acesso em: 2 abr. 2021.
- BLACKBURN, L. Policy Briefing – RNA vaccines: an introduction. PHG foundation, n. October, 2018.
- OLIVEIRA DINIZ, M.; SOUZA FERREIRA, L. C. Biotechnology applied to the development of vaccines. Estudos Avançados, v. 24, n. 70, p. 19–30, 2010.
- LIMA, E. J. da F.; ALMEIDA, A. M.; KFOURI, R. de Á. Vaccines for COVID-19 – state of the art. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 21, n. suppl 1, p. 13–19, 2021.
- CONTROLE Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular. In: HALL, John E. Guyton & Hall Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. cap. 3, p. 88-122.
- RESISTÊNCIA e imunização contra doenças infecciosas. In: COICO, Richard; SUNSHINE, Geoffrey. IMUNOLOGIA. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan LTDA., 2010. cap. 20, p. 313-333.
- BORGES, Laryssa. Estudo indica que vacina de mRNA deve ser atualizada para conter variantes Leia mais em: https://veja.abril.com.br/blog/diario-da-vacina/estudo-indica-que-vacina-de-mrna-deve-ser-atualizada-para-conter-variantes/. [S. l.], 20 jan. 2021. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/diario-da-vacina/estudo-indica-que-vacina-de-mrna-deve-ser-atualizada-para-conter-variantes/. Acesso em: 3 abr. 2021.