Inovar
significa realizar algo novo, produzir novidades. Tem sido assim o tempo todo,
em todas as áreas de atuação humana. E realmente precisa ser assim. Com a
medicina não pode ser diferente! Querem ver? Vamos lá.
Quem (da área
da saúde) nunca fez uma ausculta cardíaca? Atitude comum, corriqueira e
habitual, repetida exaustivamente durante toda uma vida profissional. Pois bem,
todos sabem que para uma boa ausculta é necessário ter um bom equipamento: um
estetoscópio! O que nem todos sabem é que isso não foi simples assim desde o
início.
No período hipocrático, a ausculta era feita com a aplicação direta do ouvido do examinador ao tórax (ou abdome) do examinado. E essa foi a única maneira de auscultar que existiu durante muito tempo.

Certo dia,
reza a lenda, um tal de René Laënnec, que detestava a possibilidade de
realizar a ausculta direta e se referia a esta como sendo um ato “Constrangedor
tanto para o médico quanto para o paciente, mesmo repugnante, tornando-se
impraticável no hospital, e dificilmente aplicável quando se refere à mulher,
em muitas das quais o tamanho das mamas é um obstáculo para se empregar o método”,
fez uma espécie de cilindro com folhas de papel para examinar uma paciente e
descreveu que havia ouvido os sons cardíacos de maneira mais clara. Esse foi o
momento de criação do estetoscópio. A
partir daí, sua contribuição se tornou intensa em relação às doenças
cardiopulmonares. Isso tudo parece óbvio agora. Na época, as piadas, a
resistência às mudanças e até mesmo as dúvidas em relação ao uso do instrumento
foram frequentes.
Bem, falar da
criação do estetoscópio é traduzir o termo “inovação tecnológica”. Afinal, isso
permitiu uma mudança nos costumes, abriu um horizonte de conhecimentos e
aplicações, contribuiu definitivamente para o avanço da medicina.
Atualmente,
discutimos telemedicina, laudos de exames à distância (acelerando e otimizando
diagnósticos), cirurgia robótica, prontuários eletrônicos, inteligência
artificial aplicada à medicina, realidade virtual, simulações clínicas e serious
games na formação médica. Alguns tópicos parecem ser mais “próximos” da
nossa realidade, outros têm cara de ficção científica, filmes ou séries de TV.
O fato é que
as inovações tecnológicas mudam a forma e a velocidade dos acontecimentos. O
surgimento da internet provocou uma verdadeira revolução no envio e recebimento
de informações. Sabe o que aconteceu? Temos uma geração de novos indivíduos,
novos pacientes, que não veem o mundo analógico (alguns nem tiveram essa
referência, já nasceram em uma realidade totalmente digital), e precisamos
cuidar desses pacientes também. Essa geração exige uma comunicação rápida e
eficaz, sabe usar ferramentas de pesquisa e muitos já chegam aos atendimentos
“presenciais” com vários questionamentos oriundos de suas buscas (às vezes, em
fontes de pouca ou nenhuma credibilidade, mas esse já é um outro problema). Não
há como negar os avanços da tecnologia. A dinâmica que esse avanço proporcionou
já está consolidada e não tem volta.
É inegável também
que precisamos de gente cada vez mais capacitada para exercer o cuidado à saúde
das pessoas. Profissionais tecnicamente habilitados, que possam, sobretudo,
entender e cuidar de gente. Humanos, sem nenhuma sombra de dúvidas. Mas, talvez
tenhamos mesmo é que mudar as nossas relações com ambas as vertentes. Afinal,
não dá para ser humano, cuidar e incorporar (dentro dos limites éticos) o que a
tecnologia nos tem dado? Essa união favorece o diagnóstico, agiliza
tratamentos, evita a adoção de procedimentos invasivos e proporciona mais
rapidez na recuperação. Os avanços tecnológicos precisam ser encarados como
oportunidades para melhorar a vida das pessoas.
Já comentamos que
alguns dados mostraram que há uma necessidade, um anseio, para que os
profissionais da saúde sejam cada vez “mais humanos” (confira nossa publicação
anterior). Agora, dissemos que precisamos de tecnologias para o avanço da
medicina.
Ei, espere um pouco, calma aí!
Uma hora você diz que precisamos ser mais humanos e, no momento seguinte, diz
que temos uma maneira mais eficiente e mais tecnológica de comunicação que
depende da internet (computadores, roteadores, acessos remotos, tecnologia de
ponta)! Não entendo mais nada!!!!! Socorro!!!
Calma, jovem!
O caminho será
o de incorporar, adotar as inovações tecnológicas sem perder a essência do
cuidado; não podemos simplesmente ignorar o que já é realidade. Precisamos
encontrar o equilíbrio. Adotar o que cada vertente tem de melhor e mais
eficiente. Se não temos como substituir um exame físico de um paciente, não
devemos abrir mão dessa etapa jamais.
A tecnologia e
a humanização são inseparáveis. Não competem. Uma não desvaloriza a outra. Até
hoje, ainda não inventaram nada que substituísse o ser humano em uma relação de
cuidado à saúde. AINDA não. E no futuro? Bem, o futuro é
consequência de tudo aquilo que fazemos hoje e o pior inimigo da evolução é o
medo.