Para iniciar este tópico, cabe definir a fertilidade como a aptidão para a reprodução, conceito que só existe quando aplicado para um casal. A infertilidade, por sua vez, é considerada um problema de saúde pela OMS, e pode ser definida como ausência de gestação após 12 meses de tentativas, sendo tentativa caracterizada por uma vida sexual ativa (relações de 2 a 4 vezes por semana) sem a utilização de quaisquer métodos contraceptivos.
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Definição de Infertilidade
A infertilidade pode ser definida como primária, quando não há gravidez anterior, ou secundária, aquela na qual ocorreu pelo menos uma concepção anterior.
Fertilidade = Aptidão para a reprodução X Fecundidade = Capacidade de um casal de conceber em um determinado período.
Epidemiologia da Infertilidade
Sabe-se que a chance de um casal normal, sem qualquer grau de infertilidade, de gravidez em um mês é de 20%. Cerca de 50% dos casais terão sucesso em três meses, 75% em seis meses e 85% em um ano. De 7 a 15% dos casais em idade reprodutiva, entretanto, podem apresentar infertilidade.
Em um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi relatado infertilidade por fator feminino em 37% dos casos, por fator masculino em 8% dos casos e infertilidade por fator masculino e feminino em 35% dos casais avaliados. O restante dos casais foi classificado com infertilidade inexplicável ou engravidaram durante o estudo.

Tabela: Epidemiologia da Infertilidade – Fatores causais. Fonte: UpToDate – Causas da Infertilidade Feminina, 2020.
Causas da Infertilidade
A infertilidade pode advir de causas femininas, masculinas, uma junção de ambas as causas ou ser uma ISCA (infertilidade sem causa aparente ou infertilidade inexplicável). Dentre todas as causas, as de maior prevalência são: fatores ovarianos (principalmente os ovulatórios) – 27%, fatores masculinos – 25%, fatores tubo peritoneais – 22%, ISCA – 17% e outros (envolvendo a junção de fatores masculinos e femininos) – 9%. Além disso, algumas literaturas consideram que se pode dividir as causas de infertilidades em masculinas (1/3), femininas (1/3) e a junção de ambas (1/3).
Investigação da Infertilidade
A investigação deve ser iniciada após 12 meses de tentativa sem sucesso. No entanto, a avaliação pode ser iniciada mais cedo em mulheres com 35 anos ou mais, mulheres com ciclos menstruais irregulares ou com fatores de risco conhecidos para infertilidade, como histórico de DIP ou malformações do trato reprodutivo.
SE LIGA! A exceção que possibilita a investigação ser iniciada precocemente são mulheres com 35 anos ou mais, iniciando-se nesse caso a investigação após 6 meses de tentativas sem sucesso. Essa investigação precoce se justifica pela perda de quantidade e qualidade dos óvulos. Devemos sempre lembrar que tempo é quantidade e qualidade de óvulos!

Imagem: Dinâmica ovariana – Diminuição da quantidade de folículos ovarianos disponíveis com o avançar da idade. Fonte: https://www.procriar.com.br/idade-einfertilidade
Em se tratando de infertilidade, a investigação é sempre conjugal! Mesmo que o homem já tenha filhos de outras relações, tanto ele como a mulher devem sempre ser investigados.
Propedêutica Básica do Casal
A propedêutica básica do casal envolve a anamnese, o exame físico e alguns exames complementares específicos.
Com relação a anamnese voltada para a mulher, os pontos mais importantes são a duração da infertilidade, tratamentos anteriores e seus resultados, se realizados; história menstrual, envolvendo a duração e características do ciclo, de forma a avaliar o status ovulatório; patologias prévias; história cirúrgica e ginecológica, buscando condições, procedimentos ou uso de medicamentos associados a infertilidade (cabe aqui um interrogatório de sintomas que possam direcionar a investigação para alguma causa, como dor pélvica, entre outros); história obstétrica; história sexual, inclusive disfunções sexuais e a frequência de coito; história familiar para infertilidade, defeitos congênitos e mutações genéticas; hábitos de vida e história social, incluindo ocupação, nível de estresse, dieta, atividade física, abuso de substâncias ou qualquer outro fator que possa alterar a fertilidade.
Já para o homem, a anamnese deve ser direcionada para o desenvolvimento sexual e puberal, incluindo a presença de pelos no corpo e a descida testicular; histórico médico, avaliando a ocorrência de doença sistêmica grave crônica, história de traumatismo pélvico, infecções do trato gênito-urinário e IST’s, varicocele, entre outras patologias; história cirúrgica, principalmente de cirurgias envolvendo as áreas inguinal e escrotal, como a vasectomia ou orquiectomia; história de vida e social, abordando o abuso de substâncias, exposições ocupacionais ou mesmo radioterapia ou quimioterapia prévias; história sexual, questionando sobre libido, frequência de relações, além do histórico de fertilidade anterior.
O principal exame complementar utilizado na propedêutica para o homem é o espermograma, além dos exames pré-concepcionais quando pertinentes, como por exemplo sorologias para hepatites.
Já os exames complementares para as mulheres são mais vastos, utilizados na dependência da causa subjacente à infertilidade. Podemos citar a Ultrassonografia Transvaginal (USGTV – para avaliação anatômica uterina), Histerossalpingografia (para avaliação da permeabilidade tubária), avaliação da presença de ciclos ovulatórios ou exames mais específicos para verificá-los, caso não seja possível inferir pela história. Além disso, deve-se solicitar os exames básicos pré-concepcionais (tipagem sanguínea, sorologias – HBV, HCV, HIV, Sífilis, Toxoplasmose e Rubéola – e TSH).
Fator Ovariano
Dentre os fatores ovarianos, podemos citar como causas de infertilidade a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), tireoidopatias (principalmente o hipotireoidismo), hiperprolactinemia e baixa reserva funcional ovariana.
A SOP é a principal causa de anovulação crônica, sendo esta a endocrinopatia mais comum das mulheres no menacme, correspondendo a cerca de 80% dos casos de infertilidade por fator ovariano.
SE LIGA NO CONCEITO! Menacme é o período fértil e reprodutivo da mulher, que vai desde a primeira menstruação, na menarca, até a última menstruação, na menopausa.
Trata-se de uma síndrome caracterizada por ciclos anovulatórios ou de oligo-ovulação, hiperandrogenismo e múltiplos pequenos cistos ovarianos. Usualmente, a paciente busca atendimento médico por 3 quadros, sendo eles: ciclos anovulatórios (sangramento uterino irregular, oligomenorreia e até amenorreia), hiperandrogenismo (hirsutismo e acne, não sendo comum a virilização) e infertilidade.
Além disso, a SOP pode se manifestar com quadros metabólicos como obesidade, resistência periférica à insulina, DM tipo II e dislipidemia, além de cursar com um risco independente aumentado para doenças cardiovasculares, devido ao estado inflamatório característico da doença. A SOP é um diagnóstico de exclusão, sendo realizado através dos Critérios de Rotterdam.
O tratamento dessa síndrome envolve modificações do estilo de vida – que individualmente já aumentam o nível de ovulação -, indução de ciclos menstruais regulares e melhora do hirsutismo (através de anticoncepcionais orais, finasterida, espironolactona e tratamentos cosméticos).
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