Introdução
O aumento da expectativa de vida é acompanhado de diversas alterações nos processos de envelhecimento humano, sobretudo em alterações fisiopatológicas que o indivíduo apresenta durante o prolongamento da idade. A passagem do tempo expõe a pessoa a uma série de injúrias, cujas consequências são percebidas na velhice, após décadas de exposição. Essas injúrias são ambientais (hábitos de vida) e interagem continuamente com fatores genéticos.
As mudanças ocorridas no sistema motor, por exemplo, apresentam modificações que se aceleram após os 60 anos, levando à atrofia, perda de força muscular e acúmulo de gordura, comprometendo a mobilidade do indivíduo.
Além disso, deve-se levar em consideração que no sistema osteoarticular dos idosos há perda da densidade óssea, bem como outras disfunções metabólicas do tecido ósseo, associadas com o desenvolvimento da osteoporose e da osteoartrite. Nessa perspectiva, a pessoa idosa com osteoporose tem maior probabilidade de fraturar um membro e, em caso de quedas, pode desenvolver a síndrome pós-queda, que inclui dependência, perda da autonomia, confusão, imobilização e depressão, podendo levá-la a restrições para a realização das atividades da vida diária.
Vale destacar que as doenças degenerativas centrais (doença de Alzheimer, doença de Parkinson, esclerose múltipla, distrofia muscular), sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) e ataque isquêmico transitório podem causar impacto negativo na funcionalidade e na capacidade do indivíduo, comprometendo a qualidade de vida.
Índice de Lawton
A capacidade funcional do idoso se constitui em um componente de estudo acerca do seu estado de saúde. Para avaliar o estado funcional é necessário determinar o nível de independência para a realização das Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD).
Assim, o Índice ou Escala de Lawton consiste em um teste de avaliação geriátrica que permite mensurar se o idoso possui autonomia para realizar as Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD). Essa avaliação é feita através de um questionário disponibilizado direto ao idoso, aos seus familiares ou cuidadores, podendo ser aplicada por médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde.
Vale lembrar que a funcionalidade também pode ser representada pela autonomia (capacidade individual de decisão e comando sobre as ações, estabelecendo e seguindo as próprias regras) e independência (refere-se à capacidade de realizar algo com os próprios meios). A integridade física, o estado intelectual, mental e espiritual e as interações sociais também são importantes para garantir o bem-estar do indivíduo.
Método
O questionário foi desenvolvido pelos autores Lawton e Brody (1969), sendo adaptado ao contexto brasileiro por pesquisadores da área de gerontologia. As atividades questionadas aos idosos englobam sete tópicos importantes referentes ao desempenho funcional nas atividades diárias, como:
1. Usar um aparelho de telefone (fixo ou móvel);
2. Locomover-se através de um meio de transporte;
3. Fazer compras;
4. Realizar atividades domésticas;
5. Preparar as próprias refeições;
6. Administrar os medicamentos prescritos;
7. Manejar suas próprias finanças.
Avaliação
É importante ressaltar que a escala investiga a capacidade funcional, ou seja, a condição do indivíduo de realizar com autonomia e/ou independência as tarefas diárias. O questionário é aplicado da seguinte maneira:
- TELEFONE
Recebe e faz ligações sem assistência (3);
Assistência para ligações ou telefone especial (2);
Incapaz de usar o telefone (1).
- VIAGENS
Viaja sozinho (3);
Viaja exclusivamente acompanhado (2);
Incapaz de viajar (1).
- COMPRAS
Faz compras sozinho (3);
Faz compras somente acompanhado (2);
Incapaz de fazer compras (1).
- PREPARO DE REFEIÇÕES
Planeja e cozinha refeições completas (3);
Prepara apenas pequenas refeições (2);
Incapaz (1).
- TRABALHO DOMÉSTICO
Realiza tarefas pesadas (3);
Realiza tarefas leves, e recebe ajuda nas pesadas (2);
Incapaz (1).
- MEDICAMENTOS
Toma remédios sem assistência (3);
Necessita de lembretes ou de assistência (2);
Incapaz (1).
- DINHEIRO
Administra as contas sozinho (3);
Administra as contas com auxílio (2);
Incapaz (1).
As respostas para cada item proposto podem variar de 3 a 1, de acordo com as seguintes opções:
- Independência (3);
- Dependência parcial (2);
- Dependência total (1).
O escore máximo para o questionário é de 21 pontos, caracterizando o indivíduo como totalmente independente. Para esse índice não há ponto de corte estabelecido, mas sim uma avaliação qualitativa da capacidade funcional do idoso.
Discussão
A vulnerabilidade do idoso exige determinados cuidados nas tarefas do cotidiano e maior utilização de facilitadores ambientais. Por isso, é importante fazer uma análise detalhada da autonomia de decisão e comando de ações do idoso para preservar ou recuperar sua qualidade de vida.
Em relação à capacidade funcional dos idosos, a atividade física regular contribui para a manutenção da aptidão física em indivíduos idosos, além de atenuar e reverter a perda de massa muscular.
Para a manutenção da capacidade funcional e cognitiva dos idosos, é preconizada a adoção de hábitos de vida saudável, a prática de exercícios físicos, dieta equilibrada, manutenção de convívio social e estímulo a atividades intelectuais (como leituras e jogos) com o intuito de prevenir a evolução de mais perdas.
Autora: Amanda M. Daher
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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno 19 da Atenção Básica: Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, 2006.
SANTOS, R.L.; JÚNIOR, J.S.V. Confiabilidade da versão brasileira da escala de Atividades Instrumentais da Vida Diária. RBPS, 2008; 21 (4): 290-296.
VERAS, R.P. Guia dos Instrumentos de Avaliação Geriátrica [Recurso Eletrônico] / Renato Peixoto Veras. – Rio de Janeiro: Unati/UERJ, 2019. 20 f.: il. ISBN: 978-85-87897-26-8