
Se você é um estudante de medicina, seja interno, residente ou médico, sabe que dentro de um quadro de abdome agudo, o primeiro diagnóstico diferencial que vem à mente é a apendicite aguda (AA), pois é disparado o mais frequente.
Segundo Nascimento et al (2018), “cerca de 90 a 100 pacientes por 100.000 habitantes terão esta doença por ano e estima-se que o risco de desenvolver AA ao longo da vida esteja entre 7% e 8%, sendo 8,6% em homens e 6,7% em mulheres. Essa incidência é maior em adolescentes e adultos jovens, estando a população mais afetada entre 25 e 35 anos de idade”.
Quadro sindromático da apendicite aguda
Normalmente o paciente chega com febre, nauseoso, vomitando, com boa parte da cronologia de Murphy, exame físico positivo, então logo você lembra da aula de cirurgia onde o professor disse com firmeza que o diagnóstico de AA é predominantemente clínico. Então você pensa: “com certeza isso é uma AA”, e já vai fechando o diagnóstico sem nenhum exame complementar.
Mas isso nem sempre acontece, às vezes a sintomatologia não é tão florida assim. Sabe aquele paciente adolescente que chega no seu consultório e diz que na noite anterior comeu algo que não caiu bem e se sente com náuseas e dor moderada na região epigástrica, e exame físico negativo (palpação FID negativo)? Aparentemente não parece ser AA, mas mesmo assim você fica com a pulga atrás da orelha e pensa: “Será que não é uma AA na fase inicial? Solicitarei exames e deixarei em observação na sala de hidratação para ver se aparecem mais sintomas”.

Mas essa pulga atrás da orelha nem precisaria existir, se você lembrar de um recurso muito importante: o escore de Alvarado.

Escore de Alvarado na prática clínica
Vamos aplicar o escore nesses dois pacientes. O primeiro paciente apresenta praticamente a cronologia de Murphy associado à hiporexia, febre, náuseas e vômitos, dor à palpação em FID e Blumberg positivo. Nesse caso o escore pontua acima de 7, paciente tem indicação cirúrgica. E no segundo caso? Aplicamos o escore. Note, o paciente apresentou um episódio de vômito em um episódio de febre sem registro em casa, e agora não tem febre, porém persiste a dor na região epigástrica de intensidade moderada principalmente à palpação profunda. Pergunto quanto pontuou esse paciente para AA? Baixíssimo, praticamente nem pontuou, abaixo de quatro pontos não corroboram para o diagnóstico. Então você deve estar se perguntado: “mas será mesmo que é só isso, não seria melhor pedir um hemograma, uma rotina de abdome agudo ou USG de abdome? A resposta seria não precisa. Os escores são ferramentas apropriadas justamente para esse tipo de situação.
Veja o que disse CORREIA 2010, “Precisamos estreitar a lacuna comumente encontrada entre a existência e a aplicação das evidências. Os escores são ferramentas valiosas que devem ser utilizadas a fim de melhorar nossa capacidade de avaliar prognóstico. Medicina Baseada em Evidências (MBE) não é apenas ler criticamente trabalhos científicos, é também transferir o conhecimento científico para a prática clínica. Do ponto de visto prognóstico, os escores representam a melhor forma de fazer isso.”

Mas, se depois de ver a importância do escore tanto para diagnóstico quanto para prognóstico, sua aplicação no cotidiano médico, você ainda não esteja seguro, então, antes de mandar o paciente para casa, consulte o chefe de serviço ou chefe de residente, apresente o caso, porém, o que importa é você tomar condutas de forma segura baseando-se em um escore, um protocolo ou um fluxograma. Mas lembre-se antes de apresentar um caso para um médico seja ele especialista ou não, saiba que deverá apresentá-lo de forma objetiva e sucinta e se aplicar um escore fica melhor ainda. Ah, outra dica importante: os exames são complementares e a grande maioria dos diagnósticos você já os tem através da clínica, por isso, que ela é soberana, portanto, olhe para seu paciente como um todo e se puder aplique-lhe o Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) e use e abuse da Medicina Baseada em Evidências (MBE).
Então, caro(a) colega, gostou do tema? Agora que tal você começar a aplicar em sua prática clínica o uso dos escores que são ferramentas que cabem no seu bolso, e você pode acessá-las com apenas um clique na tela do seu smartfone ou tablet, e isso dará ainda mais segurança em suas condutas.

Autor: André Fernando Carlos
Instagram:@andrefernandocarlos
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
NASCIMENTO, R.R et al. Associação entre o escore de Alvarado, achados cirúrgicos e aspecto histopatológico da apendicite aguda. 2018. Disponível em https://www.scielo.br/j/rcbc/a/VPM484CQYrmfvTz3QxBpMBg/?lang=pt. Acessado em 26/08/2021.
SANAR. Dica de Cirurgia geral: Escala de Alvarado. 2019. Disponível em https://www.sanarmed.com/dica-de-cirurgia-geral-escala-de-alvarado. Acessado em 26/08/2021.
CORREIA, L. Escore de Risco: Uma Ferramenta Negligenciada. 2010. Disponível em http://medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com/2010/04/escore-de-risco-uma-ferramenta.html. Acessado em 26/08/2021.