Os métodos de longa duração são uma alternativa eficaz para reduzir o número de gestações não planejadas, diminuindo, assim, taxas de mortalidade materna e infantil. O implante subdérmico com liberação contínua de progestagênios (Implanon®) é um método contraceptivo reversível de longa duração, com alta eficácia, uma taxa de falha de 0,05%, duração de três anos, discreto, de fácil inserção, e que não exige exame pélvico para o início de seu uso.
O que é?
No Brasil, o único implante aprovado é o IMPLANON®, que é um dispositivo plástico, com cerca de 4cm de comprimento por 2mm de espessura, contendo 68 mg de etonogestrel (3-ketodesogestrel) (ENG), o metabólito ativo do desogestrel, envolvido em uma membrana de acetato de etileno vinil (EVA).
O efeito contraceptivo é conseguido principalmente por meio da inibição consistente da ovulação. Ao lado da inibição da ovulação, o ENG também provoca alterações no muco cervical, que dificultam a passagem dos espermatozoides, além de alterações do endométrio, tornando-o menos adequado para a nidação.
As indicações do implante de ENG recaem sobre a preferência das mulheres, nas comorbidades em que não se pode utilizar métodos com estrogênios e em grupos vulneráveis, como adolescentes, drogaditas e mulheres com HIV.
Como é inserido?
O implante deve ser inserido subdérmico com anestesia local, na face interna do braço não dominante, entre o primeiro e quinto dia do ciclo menstrual, sem necessidade de método contraceptivo adicional. Caso inserido fora deste período, deve-se orientar o uso de método complementar ou abstinência nos próximos sete dias da inserção. A inibição da ovulação ocorre após 8 horas de inserção e sua meia-vida de eliminação é de aproximadamente 25 horas. A metabolização, como qualquer esteróide sexual é no fígado e sua excreção é principalmente pela via urinária. Após retirada do implante, os ciclos menstruais e a fertilidade voltam ao padrão normal imediatamente.
Logo após a inserção do implante, os níveis de ENG mantem-se em 60–70 μg/dia, diminuindo progressivamente para 35–45 μg/dia no final do primeiro ano, 30–40 μg/dia no segundo ano e 25–30 μg/dia no fim do terceiro ano. Os mecanismos contraceptivos do implante são principalmente a anovulação e a alteração do muco cervical, há também atrofia do endométrio e alteração da motilidade tubária, sendo o método mais eficaz disponível no mundo.
Contraindicações ao uso do implante liberador de etonogestrel
Hipersensibilidade aos componentes do implante, câncer de mama atual e gravidez são as únicas contraindicações absolutas do implante, sendo as duas últimas categoria 4 (o método é proscrito) dos critérios de elegibilidade médica da Organização Mundial de Saúde (OMS). Há algumas poucas situações nas quais o implante é categoria 3 da OMS, ou seja, os riscos potenciais superam os benefícios (só podemos usar se não houver opções categorias 1 e/ou 2), estas situações estão disponíveis no site da OMS.
Benefícios e efeitos adversos
A anovulação favorece a diminuição de sintomas pré-mentruais e dismenorréia. Com relação à dismenorreia, cerca de 77% das mulheres com dismenorréia previamente ao uso do implante referiram desaparecimento do sintoma após a inserção, enquanto 6% referiram melhora da intensidade, sendo recomendado em situações nas quais a dismenorréia esteja presente.
Os estudos com implante não observaram alteração nos níveis de colesterol total, HDL, LDL, testosterona e SHB. O metabolismo glicídico também não foi alterado por uso de implante e, assim como os contraceptivos apenas de progestagênios, o implante não altera o risco de tromboembolismo. Diversos estudos mostraram que os progestagênios isolados não tem efeitos sobre a lactação, sendo por isto um método adequado para o período de amamentação.
Os principais efeitos adversos reportados pelas mulheres, em uso do implante liberador de etonogestrel, excluindo-se sangramento irregular, são:
- cefaléia (15,3%)
- mastalgia (10,2%)
- acne (11,4%)
- ganho de peso (11,8%)
- labilidade emocional (5,7%)
- diminuição da libido (2,3%)
Avaliando-se o ganho de peso com uso de implante, os estudos mostraram que não há diferença no peso com o uso de implante comparado com as usuárias de métodos não hormonais.
Como todo método de progestagênio, o principal efeito adverso é a mudança do padrão de sangramento. A maioria das mulheres terá um padrão de sangramento favorável (amenorréia, infrequente e regular), porém cerca de 20% poderão ter um padrão desfavorável de sangramento (frequente e prolongado). Apesar de desconfortáveis, as alterações menstruais normalmente são bem toleradas pela maioria das mulheres, inclusive em adolescentes (consideradas uma população de baixa adesão aos métodos contraceptivos).
A causa do sangramento irregular por progestagênios isolados ainda é desconhecida e não está associado a risco de patologia uterina ou falha do método. O sangramento não é por atrofia endometrial e, sim, instabilidade endometrial, a qual não se sabe a causa.
Apesar de tantas vantagens, é necessário um aconselhamento prévio adequado, boa orientação durante seu uso e manejo adequado de seus efeitos adversos.
Conclusão
Portanto, fica claro que o implante subdérmico liberador de ENG (IMPLANON) apresenta maior taxa de continuidade e possui pequeno número de contraindicações, além de ser um método contraceptivo reversível com alta eficácia, uma taxa de falha pequena e poucos efeitos adversos.
O sangramento irregular é a principal causa de descontinuação. Pode ser indicado em nuligestas e adolescentes, além de ser inseridos no pós-parto ou pós-aborto imediato. As principais barreiras para seu uso recaem sobre o acesso e o custo. Profissionais de saúde envolvidos em medidas contraceptivas devem priorizar o aconselhamento adequado e a capacitação para a oferta e indicação.
Autora: Bianca Santos Simões
Instagram: @biancasants
Referências: Anticoncepcionais reversíveis de longa duração: Implante Liberador de Etonogestrel (Implanon®) – http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2015/v43nsuppl1/a4849.pdf
Contracepção Reversível de Longa Ação – https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/03-CONTRACEPCAO_REVERSIVEL_DE_LONGA_ACAO.pdf
Efeito da inserção de implante anticoncepcional contendo acetato de nomegestrol sobre a função ovariana, muco cervical e penetração espermática – https://www.scielo.br/j/rbgo/a/sQBtmMRsWwJ8vCH6VJs5Qbn/?lang=pt
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