Apesar de atualmente a população ter pelo menos um breve conhecimento de que a Covid-19 se trata de uma infecção respiratória aguda com uma alta taxa de transmissibilidade pelo mundo, e que pode se manifestar de diversas maneiras em indivíduos diferentes, as sequelas que a doença pode deixar são pouco comentadas ou muitas vezes podem ser distribuídas de forma farsante – principalmente as sequelas neurológicas.
Mesmo que outros sistemas do corpo humano também venham sendo afetados por este problema, o Sistema Nervoso Central apresenta sua imparcialidade, por ter uma maior dificuldade de contaminação (devido a Barreira Hematoencefálica), e mesmo assim, está gerando grandes impactos neurológicos nos pacientes. Devido a isso, provavelmente no futuro os médicos ainda terão que lidar com as alterações para garantir qualidade de vida aos pós-infectados.
A SINTOMATOLOGIA NEUROLÓGICA
Os sintomas neurológicos mesmo que não retratados em todos os pacientes, quando surgem, comumente trata-se de tonturas, cefaleias, alterações de consciência, convulsões, síndromes neuropsiquiátricas, ataxias e eventos cerebrovasculares agudos. Visto que, a brutalidade de cada manifestação pode variar de leve (cefaleias), até a predisposição de Doenças Cerebrovasculares Agudas (principalmente em pessoas com diagnóstico de comorbidades como Hipertensão Arterial Sistêmica e Diabetes Mellitus). Em casos mais raros, também já foram relatados o aparecimento de Síndromes como de Guillain-Barré e de Miller-Fisher. Entretanto, as intercorrências neuropatológicas têm surgido em média de 3 a 4 dias após o início dos sintomas respiratórios frequentes ou em pacientes já com estado de agravo.
OS PILARES FISIOPATOLÓGICOS DA VIRULÊNCIA NEURAL
Estudos ainda seguem em produção sobre essa questão, assim como sobre o vírus inteiramente, porém recentemente foi elaborada uma confirmação de Três Pilares Fisiopatológicos capazes de explicar essa Virulência Neural, que estão apresentados na literatura médica. São eles, respectivamente:
- Receptores da Enzima Conversora de Angiotensina-2 no Endotélio Vascular Cerebral;
- Neuroinvasão Neuronal Trans-Sináptica através de Nervos Olfativos;
- Resposta Inflamatória ocasionando na quebra da Barreira Hematoencefálica.
PRIMEIRO PILAR
A explicação se dá pela Enzima Conversora de Angiotensina-2 (ECA-2) expressa no epitélio das vias aéreas, no parênquima pulmonar e nas células do intestino delgado (o que justifica vômitos, náuseas e cefaleias como sintomas mais propícios de uma invasão gastrointestinal, do que neurológica), que é a responsável por mediar a entrada do vírus nas células humanas. Diante disto, o vírus tem diversas semelhanças genômicas com habilidades de codificar os domínios de ligação do receptor de ECA-2, modificando-o e invadindo o encéfalo.
SEGUNDO PILAR
Mesmo sendo o mais complexo, também é o mais comum de ocorrer. Essa Neuroinvasão Neuronal Trans-Sináptica se dá quando a infecção do vírus neurotrópico é Via Olfativa (afetando a mucosa nasal, como normalmente ocorre na Covid-19), invadindo o encéfalo através do trato olfativo, podendo migrar do bulbo olfativo para o córtex, gânglios da base e até o mesencéfalo. Tendo ainda uma segunda possibilidade, que é seguir através do Centro Cardiorrespiratório Medular (por mecanorreceptores e quimiorreceptores das vias aéreas inferiores) até o tronco cerebral.
TERCEIRO PILAR
Essa quebra da Barreira Hematoencefálica tem um mecanismo bem parecido com o Primeiro, porém agora ao invés do vírus modificar apenas a ECA-2, ele também modifica outras enzimas junto a seus respectivos receptores, gerando um ciclo viral que induz apoptose e aciona Padrões Moleculares Associados ao Dano (DAMPs), finalizando em resposta inflamatória sistêmica que invade o Sistema Nervoso Central.
O AUMENTO DA SUSCEPTIBILIDADE DE DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS
O vírus quando causa impactos neuroinvasivos de longo prazo possibilita o aumento da susceptibilidade de doenças neurodegenerativas (como a Doença de Parkinson, Esclerose Múltipla, Demência ou Alzheimer). Porque certos fatores de entrada viral são muito expressos nas células da Barreira Hematoencefálica (se trata da situação do segundo e terceiro pilar fisiopatológico, já comentados), então ele modifica marcadores dessas patologias em decorrência da inflamação encefálica.
AS ALTERAÇÕES HEMODINÂMICAS TAMBÉM PODEM AFETAR NEUROLOGICAMENTE
No Covid-19 também podem ocorrer alterações hemodinâmicas de coagulação, chamadas Coagulações Intravasculares Disseminadas Induzidas por Inflamação (CID), que são mais comuns em pacientes localizados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Essa consequência é justamente o que afeta de uma forma neurológica mais agressiva as vítimas do vírus, gerando Isquemias Cerebrovasculares, logo Acidentes Vasculares Cerebrais Isquêmicos (com maior probabilidade, segundo estudos da literatura, em pacientes que já contém um risco vascular pré-existente e idosos).
CONCLUSÃO
Os impactos neuropatológicos do Covid-19 podem ser inúmeros, além disso, como citado dependem do avanço da doença no paciente, de riscos pré-existentes, faixa etária, formas de contaminação (já que a infecção não é direta ao Sistema Nervoso Central, ou seja, é necessária a passagem por rotas conhecidas como os Pilares Fisiopatológicos das sequelas) e principalmente, de como o organismo reagirá diante de um vírus que ainda nem mesmo os profissionais e a literatura têm total propriedade de conhecimento.
Por isso, uma boa forma de auxílio ao combate das sequelas neuropatológicas decorrentes do Covid-19, é o mapeamento de indícios com predisposição do desenvolvimento de doenças neurológicas tardias nos pós-infectados, para que a terapêutica ajude o restante dos pacientes.
Autora: Emily S. Silveira
Instagram: @emyslvr
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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
- https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/9702
- https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/21815
- https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0889159120303573?via%3Dihub
- https://medicinasa.com.br/covid-alzheimer/
- https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acschemneuro.0c00201