A pandemia de COVID-19 é considerada a maior crise sanitária mundial do século. Avaliando o cenário global, as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) determinaram que as formas mais eficazes de prevenir a proliferação do coronavírus são: o distanciamento social, uso de máscaras, higienização das mãos, e, recentemente, a vacinação. Em função da gravidade da pandemia, muitos países direcionaram grande parte de seus recursos financeiros e profissionais de saúde para o enfrentamento da COVID-19, gerando lacunas no controle das demais doenças. Dessa forma, a pandemia também afetou o tratamento e rastreamento de diversas patologias, especialmente as Doenças Não Transmissíveis.
As Doenças Não Transmissíveis
Doenças Não Transmissíveis ou Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são doenças não infecciosas, e têm como principais exemplos: câncer, doenças cardiovasculares, diabetes e doenças respiratórias crônicas. Essas enfermidades se tornam preocupantes por sua alta prevalência e relevante morbimortalidade mundial; são responsáveis por 70% das mortes no mundo, com aproximadamente 80% delas ocorrendo em países subdesenvolvidos e emergentes, pois têm menos recursos e estrutura para prevenir e tratá-las. Durante a pandemia do novo coronavírus, as DCNT se tornaram um desafio maior ainda de saúde coletiva, pois seus portadores são classificados como grupo de risco para complicações da COVID-19, caso contraiam a doença.
As Doenças Não Transmissíveis de maior relevância são:
Câncer
Câncer é um termo que abrange diversos tipos de neoplasias malignas, podendo afetar diferentes órgãos e tecidos do corpo humano. Logo no início da pandemia, uma das consequências da priorização do combate à COVID-19 foi a suspensão do rastreamento de outras doenças, inclusive das neoplasias (Ex: câncer de colo de útero, câncer de mama, etc.), e a postergação de tratamentos não emergenciais. Porém, considerando a longa duração da pandemia, observou-se o agravamento desta situação.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), entre março e maio de 2020 não foram realizadas 7 entre 10 cirurgias oncológicas e ao menos 50 mil brasileiros não foram diagnosticados com câncer. Esses números são preocupantes, uma vez que inicialmente muitas dessas neoplasias sejam assintomáticas, costumam ter evolução acelerada e são muito prejudiciais à saúde, podendo ter sua morbimortalidade aumentada na população se não forem diagnosticadas e tratadas a tempo.
Doenças Cardiovasculares
As doenças cardiovasculares são as que acometem o coração e os vasos sanguíneos do corpo humano, e a mais prevalente entre elas é a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), porém existem diversas outras. Esta classe de doenças tem alta prevalência mundial, e, no Brasil, representam 30% das mortes causadas por doenças Não Transmissíveis.
Além disso, as doenças cardiovasculares podem causar manifestações agudas e situações emergenciais, tais como Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) ou Acidente Vascular Cerebral (AVC), por exemplo, que necessitariam um atendimento hospitalar. Entretanto, durante a pandemia de COVID-19 em 2020, o número de mortes por causas cardiovasculares com relação ao ano anterior aumentou em diversos estados, com crescimento de: 32% em São Paulo; 38,7% no Rio de Janeiro; 71,7% em Recife, 87,7% em Fortaleza, chegando a 132% em Manaus.
Diabetes
Diabetes é um distúrbio metabólico causado pela falha na produção ou ação do hormônio insulina, e a doença é mais frequentemente apresentada nas formas de Diabetes Mellitus tipo 1 ou 2, ou Diabetes Gestacional. Esta enfermidade pode gerar desde hiperglicemia até outras complicações, e é um grave problema de saúde pública.
A diabetes é uma doença crônica de alta prevalência no Brasil e em suas fases iniciais é praticamente assintomática; além disso, foi a terceira maior causa de morte no país em 2017, juntamente com doenças renais. Essa patologia se tornou uma preocupação maior ainda durante a pandemia, por conta de fatores como: o baixo rastreamento e monitorização, e um aumento da exposição aos fatores de risco durante o isolamento social, como a obesidade e o sedentarismo.
Doenças Respiratórias Crônicas
Por mais que a incidência de infecções respiratórias tenha sido reduzida em 2020 por conta do uso de máscaras e isolamento social, as doenças respiratórias crônicas continuam sendo um grave problema de saúde. Este último grupo de patologias são as que acometem o pulmão e suas estruturas a longo prazo, e foi classificada em 2017 como a terceira maior causa de morte no mundo.
As doenças respiratórias crônicas no Brasil têm como principais exemplos a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e asma. A prevalência dessas doenças no país apresentaram redução ao longo dos anos por conta da melhoria da qualidade de vida da população, mas ainda há um grande número de pessoas que são acometidas por elas. Um dos principais fatores de risco para o agravamento destas patologias é o tabagismo, tanto entre homens quanto mulheres, a depender do tempo e quantidade de exposição ao tabaco.
Estratégias recomendadas para o manejo de DCNT no contexto da pandemia
A dificuldade no controle das Doenças Não Transmissíveis durante a pandemia se acentuou por conta de diversos aspectos, como o aumento de hábitos não saudáveis na população, como dieta rica em gordura e açúcar, redução de exercícios físicos, abuso de álcool, estresse excessivo, entre outros. Mas, especialmente, um fator importante é a falha na estratégia de saúde de diversos países para lidar com as DCNT durante o combate à COVID-19. O cancelamento de procedimentos cirúrgicos eletivos e falta de rastreamento de diversas doenças contribuíram com o aumento do número de mortes por estas causas.
No caso de rastreamento de câncer, considerando todos os riscos de ser portador desta doença e da exposição à COVID-19, não há uma verdade absoluta como recomendação, cada caso deve ser avaliado individualmente, assim como os riscos e benefícios de cada conduta. Entretanto, o tratamento de neoplasias malignas não deve ser postergado, e uma opção, idealizada e enviada oficialmente ao Ministério da Saúde pela SBCO, é a criação de vias livres de Covid-19 (Covid-free) no SUS e na rede privada (tanto em hospitais quanto em Cancer Centers), para reduzir os riscos de contaminação destes pacientes pelo novo coronavírus.
Para as Doenças Não Transmissíveis em geral, a OMS sugere o uso da telemedicina como uma opção de acompanhamento do paciente, sendo uma das propostas mais disseminadas durante a pandemia, entretanto atendimentos presenciais podem ser necessários. Dessa forma, é possível inferir que é fundamental que os países desenvolvam estratégias e destinem recursos, financeiros e humanos, para rastrear e tratar as Doenças Não Transmissíveis mesmo durante esta grave crise sanitária que o mundo enfrenta atualmente.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Brant LCC, Nascimento BR, Teixeira RA, et al
Excess of cardiovascular deaths during the COVID-19 pandemic in Brazilian capital cities
Heart 2020;106:1898-1905.
Dados epidemiológicos do Diabetes Mellitus no Brasil. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/profissionais/images/SBD-_Dados_Epidemiologicos_do_Diabetes_-_High_Fidelity.pdf
Epidemiology and burden of chronic respiratory diseases in Brazil from 1990 to 2017: analysis for the Global Burden of Disease 2017 Study. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbepid/v23/1980-5497-rbepid-23-e200031.pdf
OLIVEIRA, Gláucia Maria Moraes de et al . Estatística Cardiovascular – Brasil 2020. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo , v. 115, n. 3, p. 308-439, Sept. 2020 . Available from
Sociedade Brasileira De Cirurgia Oncológica. Disponível em: https://sbco.org.br/2020/05/14/sociedades-medicas-apontam-reducao-de-70-das-cirurgias-e-que-50-mil-brasileiros-nao-receberam-diagnostico-de-cancer/